Cultura

5 de maio de 2017 - 19h00

Este samba “horrível”, “sujo”, “malcheiroso”, “indecente”...


   
O talento da moça chama a atenção até da burguesia carioca, que a convida a descer o morro para ser uma “estrela de cinema” — “a rainha de um grande palácio”. Mas assédio nenhum tira a sambista de sua vocação: “Nasci no Estácio / Não posso mudar minha massa de sangue / Você pode crer que palmeira do Mangue / Não vive na areia de Copacabana”.

Uma das ironias de O X do Problema é que Noel e Aracy conviveram numa época em que suas canções, embora cada vez mais populares através dos programas de rádio, não sensibilizavam boa parte das elites. Conforme detalha o professor acadêmico e pesquisador Marcos Napolitano em A Síncope das Ideias (Editora Fundação Perseu Abramo), geralmente ocorria o contrário: o preconceito de classe é que dava a tônica de muitas das críticas ao samba nas décadas de 1930 e 1940.

Na revista Voz do Rádio, Almeida Azevedo se refere ao “horrível samba de morro, que à força de ser maltratado, seviciado, anda por aí desamparado, sem juízes de menores que olhe por ele, sem polícia de costumes que o proteja, sujo, malcheiroso, etc.”. Igualmente reacionário é um artigo publicado em Scena Muda e escrito por Renato Alencar, que divide o samba em duas vertentes — o de morro e o de arte. Ao primeiro, que envolve “batucada, dança litúrgica bárbara e sensual”, Alencar não atribui “beleza nenhuma”, uma vez que é “monótono e triste como todo produto de povos torturados e incultos”.

Álvaro Salgado, diretor da Rádio MEC, segue a linha e afirma que “o samba é feio, indecente, desarmônico e arrítmico”. Não que, para Salgado e outros porta-vozes da elite na imprensa, o samba de morro não tivesse salvação. Era preciso “higienizá-lo”, livrá-lo das impurezas. “Sejamos benévolos: lancemos mão da inteligência e da civilização”, propõe o diretor da Rádio MEC. “Tentemos devagarinho torná-lo mais educado e social. Pouco nos importa de quem ele seja filho.”

“Cultura de bacilos”

Se é verdade que o samba não precisou de higienização para se tornar o gênero brasileiro por excelência, também é fato que o viés de classe ainda contamina a relação entre grande mídia e manifestações culturais de origem popular. Em 2007, quando o diário americano The New York Times se atreveu a elogiar a cultura hip-hop brasileira, a grande mídia estrebuchou. Na Folha de S.Paulo, Barbara Gancia esculhambou o hip-hop. Tachou o movimento de “cultura de bacilos”, com seu “lixo musical” que “é sexista, faz apologia à violência e dói no ouvido”.

A reação às bobagens da colunista foi imediata: centenas de pessoas — não necessariamente adeptas ou simpatizantes do hip-hop — enviaram mensagens de protestos, acusando nas palavras de Barbara Gancia generalizações, estreiteza teórica, elitismo e preconceito. Como os primeiros e mais coléricos detratores do samba, Barbara Gancia põe o povo à margem da cultura. Parece pensar que, se o “lixo musical” ficar na periferia, vá lá, aceitemos. Mas que diabo é isto de ser apoiado pelo Ministério da Cultura e ainda ter o aplauso do jornal mais tradicional e influente do mundo?

O reconhecimento internacional é outro elemento que preocupa, desde sempre, a crítica conservadora. Poucas vezes o samba foi tão atacado quanto em 1941, diante da visita de Walt Disney à escola de samba Portela. “Há uma espécie de samba que pode levar, sem receio, a etiqueta made in Brazil. Este outro, porém, o do morro (...), tem que ser ajustado a ambiente teatral para que possa ser mostrado a certos hóspedes”, defendia Renato Alencar.

Cacofonias, silêncios e sussuros

Todos esses exemplos, reunidos em A Síncope das Ideias, demonstram quão polêmica é “a questão da tradição na música popular brasileira” (subtítulo do livro). A tese do autor, Marcos Napolitano, é que o samba, a bossa nova e a moderna MPB estão na “linha formativa” — na “espinha dorsal” — dessa tradição. A trajetória dos três gêneros é marcada, embora jamais limitada, por dilemas.

Do incipiente “cidade x morro”, o debate vai se radicalizando, até os anos 60, para confrontos como nacionalismo x universalismo, “conteudismo” x “vanguardismo”, forma x conteúdo, engajamento x alienação. A música popular brasileira não só reflete a sociedade como também — e mais que isso — “pode ser vista como um projeto (inacabado) de país”. No rastro da tradição desencadeada por samba, bossa nova e MPB, há espaço para “novas escutas” que “percebam as cacofonias, os silêncios e os sussurros perdidos no tempo”.

Napolitano também enche seu livro de curiosidades deliciosas. É o caso da abertura de A Síncope das Ideias, em que o autor evoca uma revista-opereta de 1933. O enredo gira em torno da personagem Canção Brasileira, “filha da aristocrática Modinha e do elegante Lundu”, sequestrada pela Flauta, pelo Cavaquinho e pelo Violão, apaixonada pelo Samba. No final da opereta, após diversas reviravoltas, a Canção Brasileira e o Samba se casam e promovem a harmonia entre cidade e morro.

Em outro trecho, Napolitano sustenta que, entre os primeiros críticos a abraçarem “o mundo do samba e dos morros”, estavam jornalistas e intelectuais comunistas. Em contraponto à paranoia higienista lançada pelas elites, esses pensadores marxistas subiam aos morros e dialogavam com os bambas.

Eles também viram Favela dos meus Amores e sua mais célebre cena — o enterro do sambista Nhonhô. “Chamado de comunista por um delegado de costumes”, o diretor Humberto Mauro filmou o morro vindo abaixo, “numa mistura de passeata e cortejo fúnebre, carregando o corpo de seu herói”. A partir de 1945, diz Napolitano, o “flerte transformou-se em namoro assumido (...) com a imprensa comunista dando espaço para o samba e com a criação de uma União de Escolas de Samba” ligada ao Partido Comunista do Brasil.


O X do Problema
(Noel Rosa)

Nasci no Estácio
Eu fui educada na roda de bamba
Eu fui diplomada na escola de samba
Sou independente, conforme se vê

Nasci no Estácio
O samba é a corda e eu sou a caçamba
E não acredito que haja muamba
Que possa fazer gostar de você

Eu sou diretora da escola do Estácio de Sá
E felicidade maior neste mundo não há
Já fui convidada para ser estrela do nosso cinema
Ser estrela é bem fácil
Sair do Estácio é que é o X do problema

Você tem vontade
Que eu abandone o largo de Estácio
Pra ser a rainha de um grande palácio
E dar um banquete uma vez por semana

Nasci no Estácio
Não posso mudar minha massa de sangue
Você pode ver que palmeira do mangue
Não vive na areia de Copacabana


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