Brasil

8 de outubro de 2010 - 10h49

Estados do agronegócio dão maioria de votos a Serra 


A defesa de temas polêmicos como o direito ao aborto, feita por Dilma em uma sabatina de 2007, e a suposta menção da candidata ligando sua eleição a Jesus Cristo amplificaram a rejeição iniciada com o escândalo da quebra de sigilo fiscal de políticos tucanos por um petista.
A reprovação acabou cristalizada pelas denúncias de corrupção e nepotismo que derrubaram a então ministra Erenice Guerra da Casa Civil.

Esses cinco Estados do "cinturão agrícola" respondem por 30% do PIB rural do país. Quando somada a Goiás e Rio Grande do Sul, onde Dilma ganhou por uma margem inferior ao resultado nacional, essa fatia sobe a 46,5%. Se somados a São Paulo, cujo interior vocaliza uma forte restrição ao PT, seriam 62,6% do PIB rural a rejeitar Dilma Rousseff - a petista perdeu por 40,6% a 37,3% para Serra, uma diferença de 783 mil votos.

Aliados do governo apontam que faltou a Dilma Rousseff "realmente entender", por meio de ações, e não apenas com discursos, "questões vitais" como a garantia da segurança jurídica no campo.

Medo da Reforma Agrária

Entre as principais preocupações, estão as alterações nas legislações ambiental, trabalhista, tributária, indígena e quilombola. Ameaças de alterações radicais nos critérios para a reforma agrária e a revisão de índices de produtividade no campo ainda tiram o sono do setor rural.
Nem mesmo a melhoria relativa da infraestrutura e da logística nos estados do "cinturão agrícola", as três renegociações das dívidas rurais ou a agressiva política de subsídios nos oito anos de governo Lula foram suficientes para conter essa rejeição no campo.

"Ainda não entendi como esse conservadorismo cega o produtor. Tivemos tantos avanços com o Lula e, mesmo assim, não há reconhecimento", critica o ex-governador e senador eleito Blairo Maggi (PR-MT).

Uma das principais lideranças do setor, Maggi avalia que os amplos benefícios aos produtores não foram "transferidos" diretamente aos moradores dessas pequenas cidades. "Temos que ver que um benefício pretérito não conta. O que vale são as perspectivas futuras", avalia o analista político Antonio Augusto de Queiroz, do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap).

Mesmo com o reconhecimento de Maggi, em Rondonópolis, seu domicílio eleitoral, Dilma ganhou por apenas 8,7 mil votos em um universo de 106,7 mil eleitores. Em Matupá, terra do novo governador Silval Barbosa (PMDB), afilhado de Maggi, a candidata do PT perdeu de José Serra por 51,1% a 44,7%. "Vamos ter que reverter isso com muito trabalho e pé na estrada", admitiu o novo senador, que acompanhou Silval na reunião dos aliados com Dilma Rousseff.

Os analistas têm outras explicações para o voto contra Dilma. "Eles podem ter deixado para o segundo turno para barganhar como se fez em 2006", lembra Queiroz, do Diap. Naquela eleição, o presidente Lula perdeu para Geraldo Alckmin nos dois turnos. Mas a diferença caiu de 233 mil para apenas 8,8 mil votos. "A bancada ruralista virá maior em quantidade e qualidade. E essa perda dos ambientalistas pode ser compensada na negociação com Marina Silva para o segundo turno", avalia Queiroz.

O cientista político Edélcio Vigna corrobora a tese ao afirmar que os ruralistas terão menos poder em questões ideológicas importantes que serão debatidas no Congresso. "Dilma e Serra vão ter que fazer concessões aos ambientalistas em temas como Código Florestal, trabalho escravo, questões indígenas e trabalhistas", diz o analista do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc). 

Fonte: Valor Econômico, por Mauro Zanatta



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