Cultura

14 de agosto de 2009 - 15h56

A 20 anos do insuperável documentário "Ilha das Flores"


Jorge Furtado, responsável pelo documentário Jorge Furtado, responsável pelo documentário
Há exatos 20 anos, uma noite fria do Festival de Gramado era eletrizada pela estreia mundial do curta-metragem gaúcho "Ilha das Flores", de Jorge Furtado. Lembro-me hoje do impacto hipnótico da projeção e de uma das reações de público mais efusivas que já testemunhei.

Fez história. Um documentário experimental punha em xeque a hegemonia do curta ficcional naquela metade da década de 80. O filme correu mundo, a partir dos prêmios nos festivais de Clermont-Ferrand e Berlim, tornando-se um dos raros clássicos nacionais indiscutíveis pós-Cinema Novo.

"Ilha das Flores" é um tocante libelo pós-moderno sobre a injustiça social e a fome no Brasil, posicionando gaúchos pobres no fim de uma cadeia alimentar na qual eram preteridos até diante de porcos no consumo dos restos de um lixão de feira.

A estrutura associativa de "Ilha", combinando elementos documentais a flashes de ficção, remete a outro curta clássico, "A Velha a Fiar" (1963), de Humberto Mauro. Este preserva em filme uma canção folclórica brasileira; "Ilha", por sua vez, é um potente manifesto contra a desumanidade escancarada da pirâmide social do país.

Ao mimetizar os curtas enciclopédicos tradicionais, "Ilha das Flores" consolidou o caráter essencialmente paródico que pautará a produção posterior de Furtado, seja em curta como em longa-metragem, seja em cinema como em literatura.

A paródia já tinha sido um recurso narrativo central de seu segundo curta, correalizado por Ana Luíza Azevedo: "Barbosa" (1988). Baseado no livro-reportagem "Anatomia de uma Derrota", em que Paulo Perdigão reconstitui a tragédia da perda em pleno Maracanã do título mundial na Copa do Mundo em 1950, "Barbosa" instala um personagem ficcional, vindo do futuro, no registro documental da desastrosa partida contra os uruguaios.

Em seguida a "Ilha", Furtado realizou, para a série "South", do Channel Four britânico, "Esta não É a Sua Vida" (1991). O modelo posto aqui ao avesso é um celebre quadro televisivo de programas de auditório em que parentes e amigos revelam a face íntima da vida de celebridades. "Esta não É a Sua Vida" põe o formato em crise ao buscar reconstituir a vida de um personagem anônimo, uma dona de casa de classe média da periferia de Porto Alegre. A ideia central destaca o extraordinário de qualquer vida, em sintonia com o humanismo de "Ilha das Flores".

Na sequência, Jorge Furtado dirigia um dos curtas do longa de episódios "Os Sete Sacramentos de Canudos" (1996), originado no Instituto Goethe de São Paulo em torno da saga de Antônio Conselheiro. "A Matadeira" tem uma estrutura de colagem, misturando trechos encenados, animações, fotos de época e extratos de documentários recentes, tudo em tom assumidamente extremado.

O curta passa a limpo as principais interpretações do episódio de Canudos, contrapondo o massacre narrado por Euclides da Cunha a uma narração em off tomada emprestada do escritor americano Kurt Vonnegut Jr. O modelo do documentário griersoniano é explicitamente satirizado, sobretudo com a paródia da tradicional entrevista de especialista.

É com outra paródia de entrevista, desta vez a que "ouve" o público de uma performance, que Furtado encerrou, em 2000, um de seus curtas-metragens ficcionais, "O Sanduíche". O projeto aqui é explicitar a construção da narrativa fílmica por uma série de cenas que se articulam entre si como as bonecas das matrioshkas. Ao fim, tudo faria parte de um documentário de Furtado sobre os bastidores da prática cinematográfica.

Em "O Sanduíche", ele mais uma vez embaralha ficção e documentário. Um curta que se desenvolve como ficcional cruza a fronteira para o documental apenas na última sequência, para finalmente pôr em curto-circuito até esse status ao revelar a representação inoculada mesmo nas cenas ficcionais aparentemente documentais. "Para mim, o documentário é honesto e ganha status de arte quando explicita os mecanismos de sua realização", afirmaria Furtado alguns anos depois num debate na Conferência Internacional do Documentário.

Sua carreira em longa-metragem já reafirmava então a sua opção paródica, de "Houve uma vez Dois Verões" (2002) e "O Homem Que Copiava" (2003) a "Saneamento Básico, o Filme" (2007). O mesmo ocorre em sua mais ousada aventura literária, "Trabalhos de Amor Perdidos", inspirado pela peça de Shakespeare. O talento de Jorge Furtado triunfou também na TV, como comprova a atual segunda temporada de sua versão televisiva para "Decamerão". Mas aquele genial curta de juventude permanece insuperado.

* Amir Labaki é diretor-fundador do É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários.
 

(Re) veja aqui "Ilha das Flores":

 




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