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22 de abril de 2013 - 20h24

Missão brasileira avalia ocupação israelense da Cisjordânia


Moara Crivelente
A 2ª Missão de Solidariedade ao Povo Palestino visitou o campo de refugiados de Aida. Na foto, menção à Resolução 194 da ONU, que reconhece o direito palestino à criação de um Estado, e desenhos de palestinos detidos em prisões israelenses. A 2ª Missão de Solidariedade ao Povo Palestino visitou o campo de refugiados de Aida. Na foto, menção à Resolução 194 da ONU, que reconhece o direito palestino à criação de um Estado, e desenhos de palestinos detidos em prisões israelenses.
A missão teve a oportunidade de conhecer o campo de refugiados de Aida, onde a Agência da ONU de Trabalhos e Assistência aos Refugiados palestinos (UNRWA, em inglês) administra, através de Ibrahim Issa Abu-Srour, a vida dos palestinos que tiveram de deslocar-se quando Israel foi estabelecido como Estado, em 1948. São os chamados “refugiados de 48”, provenientes das diversas vilas ocupadas ou destruídas pelo sionismo.

A UNRWA é quase tão antiga quanto a própria ONU, e lida especificamente com o caso palestino, seja na Cisjordânia, Faixa de Gaza, ou nos países vizinhos que recebem refugiados, como Líbano, Síria e Jordânia.

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Abu-Srour falou do funcionamento administrativo do campo de refugiados, onde hoje vivem cerca de 5.000 pessoas em edifícios sólidos, e em que há 6.000 palestinos no total. Aida, que é um dos campos de refugiados mais antigos, oficializado pela UNRWA em 1953, fica a sete quilômetros de Jerusalém, separado da região pelo muro segregador construído pelo governo de Israel entre 2001 e 2003, e é vizinho de um dos maiores assentamentos judeus.

O campo sofre das mais básicas privações, desde a constante falta de água e eletricidade até o desemprego, que chega a 25% da população. Ainda assim, Abu-Srour fala das atividades culturais, das duas escolas, dos cursos profissionalizantes e outras práticas realizadas e organizadas pela pelos próprios habitantes.

O símbolo da luta dos refugiados é a chave das casas que tiveram que deixar e o mapa da Palestina, com os nomes das vilas de onde são os refugiados que vivem em Aida. “Nós voltaremos”, dizem, referindo-se às vilas e terras de onde foram expulsos, em grupos que chegam a 1 milhão de pessoas, entre 1948 e 1953, de acordo com Abu-Srour.

As principais funções da UNRWA no campo são o fornecimento de produtos alimentícios, educação e saúde. Segundo o responsável, há cerca de 1.500 estudantes na escola, da 1ª à 9ª série. Para completar os estudos, conta Abu-Srour, os jovens têm de deixar a região.

Hebron ocupada

A província de Hebron é um detalhe separado nas negociações entre Israel e Palestina. De acordo com o Protocolo de Hebron, assinado no fim da década de 1990, a cidade ficou dividida em H1, em que vivem palestinos, sob a administração palestina, e H2, sob a administração e o controle militar israelense, em que vivem cerca de 400 colonos judeus, protegidos por 2.000 soldados do exército israelense.

Há postos de controle militar dentro da cidade, entre os bairros. São 18 deles no interior, e 102 em toda a província de Hebron, para o acesso à cidade, que obrigam os palestinos a serem revistados frequentemente. Ainda assim, há ruas que eles não podem acessar de carro, e outras em que não podem sequer caminhar.

Kamil Hmeid, governador da província (a maior da Palestina, com cerca de 700.000 habitantes), em encontro com a missão brasileira, falou da importância da visita aos territórios, já que esta realidade não é conhecida. “Há animais nas fazendas que são melhor tratados que os palestinos”, disse.

O governador falou do trabalho do seu governo, que consiste em “tentar fazer com que a vida dos palestinos seja menos difícil, proteger as crianças que vão para a escola, consertar coisas que os colonos destroem. Isso faz com que não haja progresso; para onde vamos, sob ocupação?”

A violência dos colonos judeus contra os palestinos foi ressaltada, para além dos postos de controle militar. Vários exemplos do confronto entre os habitantes palestinos e os moradores dos sete bairros ocupados pelos colonos foram citados, ainda que o controle militar seja imposto aos primeiros.

Apesar disso, o governador e membros do Comitê de Revitalização de Hebron mostraram à delegação brasileira o trabalho que fazem na cidade, reformando e revitalizando casas, praças e mercados, incentivando os palestinos que deixaram a região pela insegurança a voltar, reabrir suas lojas e viver em Hebron. De acordo com o governo, o número de habitantes na cidade chegou a reduzir-se a algumas centenas, mas volta a aumentar consideravelmente com essas medidas.

Embaixada brasileira

Em encontro com Paulo Roberto França, o embaixador brasileiro em Ramallah desde novembro de 2012, a missão de solidariedade falou das atividades que vem realizando durante a viagem à Cisjordânia, dos pedidos que ouviu das entidades palestinas com que se encontrou e das propostas para um apoio ainda mais efetivo ao povo palestino.

O embaixador falou das atividades realizadas pela iniciativa brasileira na Palestina, para além do apoio político enfático dado ao reconhecimento de um Estado palestino observador não-membro na Assembleia Geral da ONU em 2012.

Assim como as entidades palestinas com quem a missão encontrou-se, o embaixador ressaltou o papel do Brasil na diplomacia e nas conversações com diversos parceiros internacionais para que a votação pelo reconhecimento da Palestina fosse massiva, como ocorreu: mais de 130 países votaram a favor, na ONU.

Além disso, França falou do mais recente caso de detenção de um garoto palestino e brasileiro, cuja mãe é brasileira. Majd Hamad, de 15 anos, era procurado pelas forças israelenses por ser suspeito de atirar pedras contra um soldado judeu, durante uma manifestação contra a violência de colonos contra um agricultor palestino.

Foto: BBC
O garoto apresentou-se ao centro de delegacia israelense para prestar declarações, e foi acompanhado da mãe e do diplomata brasileiro João Marcelo Soares, mas acabou ficando detido para interrogatório sem a presença de advogados, da mãe ou do representante brasileiro, e corria o risco de ser enviado à prisão militar Ofer.

Entretanto, devido à interferência da embaixada brasileira, Hamad seria liberado ainda nesta segunda-feira (22), de acordo com o embaixador.

Neste sentido, o fortalecimento das relações entre o Brasil e a Palestina foi ressaltado na reunião com os representantes das entidades brasileiras que integram a missão de solidariedade.

Por isso, o grupo comprometeu-se com a expansão dos comitês de solidariedade, para a construção de propostas concretas, desde iniciativas fundamentais como o maior apoio aos brasileiros palestinos que vivem na Cisjordânia até itens mais estruturais da agenda política internacional, que fundamentem a libertação da Palestina com a oficialização do seu Estado independente e soberano.
 


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