Mundo

4 de março de 2013 - 15h25

Israel: Netanyahu emprega vitimização semita melhor que ninguém 


As pessoas que veem Benjamin Netanyahu (primeiro-ministro israelense) como o grande vingador judeu devem saber o quão baixo ele está disposto a chegar na exploração da memória do sofrimento judeu.

Por Larry Derfner* 


ONU
Primeiro ministro de Israel Benjamin Netanyahu, na Assembleia Geral da ONU, em 2009  Primeiro ministro de Israel Benjamin Netanyahu, na Assembleia Geral da ONU, em 2009 
Não posso superar a falta de vergonha com que os nacionalistas fanáticos por poder exploram as memórias do povo sobre a perseguição antissemita para seus próprios objetivos rasos. Ninguém é melhor nisso do que Netanyahu; ele não pode fazer sequer um discurso sem abanar um documento ou dois de algum arquivo da era do Holocausto.

E ele sempre tem aquela expressão furiosa no rosto, como para avisar a sua audiência de nem sequer ousar pensar que ele a está fingindo, que ele está usando a memória da tragédia judia da forma mais calculista, estritamente para ajudar a si próprio e ao seu time a livrar-se de alguma nova ou velha atrocidade: bombardear o Irã, matar palestinos, construir assentamentos, o que for.

Netanyahu está longe de ser o único nacionalista israelense conhecido por usar este truque, é claro, mas ele é o melhor nisso. Ele aparenta estar tão ferido e raivoso lá em cima, quando está falando da vitimização judia, e ele é tão audacioso em envolver-se nesse manto, que o tonto médio fica intimidado demais para sequer dizer a si próprio que esse cara está obviamente assentando tudo de forma muito firme; ele está fazendo isso há 30 anos, é um ato muitíssimo polido. Afinal de contas, aquele é Bibi Netanyahu lá em cima; zombar dele é zombar do Holocausto. E assim nosso líder segue se safando.

Gostaria que as pessoas que veem Bibi como um vingador judeu, corajoso e verdadeiro, estivessem cientes de como o cara usou a memória da perseguição judia no sábado (2). Ele quebrou novas barreiras. Para remover Yair Lapid como obstáculo para a formação de um governo de direita ultra-ortodoxo, Netanyahu comparou a recusa do líder do partido Yesh Atid para juntar-se a um governo com partidos Haredi (que advogam por um Estado assentado em leis religiosas) aos antigos boicotes contra os judeus.

Ele também identificou a postura de Lapid com os atuais boicotes contra produtos israelenses feitos nos assentamentos. Para o objetivo de perseguir Naftali Bennett, líder do partido Habayit Hayehudi (apoiado pelos “colonos” dos assentamentos), para quebrar sua aliança com Lapid e fazê-lo juntar-se aos partidos Haredi em seu próximo governo, Netanyahu disse, numa coletiva de imprensa:

“Há um boicote contra um setor, em Israel, e isso vai contra as minhas visões (...). Eu acho que nós, como judeus que sofremos com banimentos, nós gritamos em protesto quando Israel é afastado em fóruns internacionais, como devemos. Nós protestamos quando os colonos em Judéia e Samaria têm que lidar com os boicotes contra seus produtos, como devemos. Então, as pessoas que devem ser mais sensíveis a esses temas são os colonos.”

Como judeus que sofremos com banimentos, gritamos em protesto. Então, Sr. Bennett, você está com Lapid, o boicotador de judeus, ou contra ele?

Acho que deveria dar ao Bibi crédito por se limitar: ele poderia ter evocado a imagem dos judeus ultra-ortodoxos na Europa sendo levados para as câmaras de gás, mas ele se limitou aos boicotes dos goyim (“povos” não hebreus, em termo pejorativo). Note-se que ele não citou Lapid nominalmente, dando a si próprio o que considera uma negação plausível. Um clássico da performance Netanyahu.

Não há qualquer memória judia demasiado delicada para ele explorar, não importa quão vulgar o objetivo político. Ele tem feito isso há tempo demais, perdeu sua bússola moral há muito tempo; isso funciona, é vitorioso, então ele recorre a isso instintivamente. Os árabes, a ONU, os EUA, Yair Lapid, entrem no caminho de Bibi e ele estampará um “antissemita” na sua testa antes que você possa piscar.

Outra vez, não é apenas Bibi, de forma alguma, mas ele é o melhor nisso, o mais habilidoso, o mais prolífico e, como o líder de Israel e dos judeus nacionalistas de todos os cantos, o mais influente.

Larry Derfner é um jornalista israelense, e escreve para a revista eletrônica independente +972 Magazine.

Tradução: Moara Crivelente, da Redação do Vermelho 
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