Brasil

20 de julho de 2010 - 18h32

Petróleo envenena cadeia alimentar do Golfo do México


Crustáceos do Golfo do México crescem com gotas de petróleo em seu interior, as aves atingidas pelo petróleo servem de alimento aos coiotes e os tubarões se asfixiam quando o petróleo que engolem tapa suas guelras. Dentro das valvas de diminutos caranguejos azuis, que apenas estão deixando de ser larvas, são encontradas gotículas de petróleo, disse ao Terramérica Harriet Perry, diretora do Laboratório de Pesquisas da Costa do Golfo na Universidade do Mississippi do Sul, nos Estados Unidos.

Esses caranguejos viajam das águas do Golfo até os pântanos da costa do Mississippi. Muitas espécies de peixes e aves alimentam-se destes jovens caranguejos. E este é apenas um de muitos exemplos de como o petróleo que começou a vazar em abril, após o acidente da British Petroleum (BP), já fez estragos na cadeia alimentar da região. Muitas aves cobertas de óleo servem de alimento aos coiotes, que por sua vez são comidos pelos lagartos.

“Sabe como o petróleo mata os pelicanos?”, pergunta Dean Wilson, diretor-executivo da Atchafalaya Basinkeeper. “Eles abrem as asas para secar, e, na realidade, cozinham ao Sol. Milhares de aves estão morrendo dessa forma por culpa da cobiça de uma empresa estrangeira”, explica. A organização que lidera dedica-se a preservar os ecossistemas da bacia do Rio Atchafalaya, na costa sudeste do Estado da Louisiana, nos Estados Unidos.

O petróleo começou a se espalhar pelo Golfo do México no dia 20 de abril, quando a plataforma de exploração Deepwater Horizon, que a BP arrendara da firma suíça Transocean, explodiu e, dois dias depois, afundou. No fechamento desta edição a empresa anunciou que conseguiu vedar o poço e conter o vazamento.

“Para criar os filhotes são necessários pai e mãe. Se um fica coberto de óleo, o outro sozinho não pode cuidar das crias ao mesmo tempo deve sair em busca de alimentos, e estes morrem”, conta Dean. Segundo ele, a quantidade de filhotes mortos já equivale à de pelicanos resgatados, e estes últimos são “apenas a ponta do iceberg”.

De acordo com o Serviço Federal de Pesca e Vida Silvestre dos Estados Unidos, até o dia 14 deste mês, cerca de 890 quilômetros da costa do Golfo estavam cobertos de óleo, foram recuperadas 2.930 aves (1.828 mortas e 1.102 cobertas de petróleo) e mais de 500 tartarugas marinhas e mamíferos mortos. Mais de 45 mil trabalhadores se desdobram para minimizar o desastre da BP. Estima-se que até o fechamento desta edição tenham sido derramados 8,4 milhões de barris de petróleo no Golfo do México e utilizados mais de 6,8 milhões de litros de produtos químicos dispersantes Corexit 9500 e Corexit 9527, proibidos na Grã-Bretanha.

Estes agentes são considerados causadores de dores de cabeça, náuseas, vômitos, diarréia, irritação e danos no aparelho respiratório, depressão do sistema nervoso central, efeitos neurotóxicos, mutações genéticas, arritmia cardíaca e falhas cardiovasculares. “Este é o segundo delta mais importante da América, e um dos principais do planeta”, disse ao Terramérica o ativista Paul Orr, da organização ambientalista Lower Mississippi Riverkeeper. “Não temos ideia do que esta quantidade de petróleo tão perto do delta pode causar. Os dispersantes são usados para afundar o óleo e assim minimizar seus impactos costeiros”, explica.

“Agora parece que o motivo real foi fazê-lo desaparecer de vista, porque, se permanece na superfície, ao menos pode ser recolhido, embora afete a costa em algum grau”, acrescenta Paul. “Por outro lado, temos vários milhões de barris de petróleo afundando na água e aderindo ao solo marinho. É possível que nunca saibamos alguns dos danos no longo prazo”, afirma.

Como outros ambientalistas e cientistas, Paul critica a BP por não ter empreendido os esforços adequados para resgatar os animais contaminados. “Têm de fingir que estão fazendo algo”, advertiu, se referindo à escassa quantidade de aves que a empresa se encarregou de limpar. Paul se preocupa com todas as espécies do Golfo do México, mas em particular com as que estavam ameaçadas antes do vazamento, como as tartarugas marinhas Kemp (Lepidochelys kempii) e gigante (Demorchelys coriacea), o golfinho cachalote (Physeter macrocephalus), o esturjão do Golfo (Acipenser oxyrinchus desotoi) e aves como a batuíra melodiosa (Charadrius melodus).

Jonathan Henderson organiza campanhas de resiliência costeira na internacional Rede de Restauração do Golfo. “São, pelo menos, 75 mil milhas quadradas (194.249 quilômetros quadrados) cobertas de petróleo”, assegura.

Dean está preocupado com os micro-organismos que se alimentam do petróleo, particularmente nas áreas mais profundas do Golfo, onde a BP lançou dispersantes. “Existe uma grande população de baleias e tubarões-baleia que migram justamente para o lugar onde o petróleo está. Vimos grupos de centenas navegando através do Golfo. Abrem suas bocas para filtrar o plâncton e engolem o óleo envenenando suas guelras, o que leva à asfixia”, afirma.

Não é possível ficar de braços cruzados e esperar pelas consequências, afirma Jonathan. Além disso, acrescenta, “sinto que esta não será a última explosão de um poço de petróleo”.

* O autor é correspondente da IPS. Este artigo é parte de uma série de reportagens sobre biodiversidade produzida por IPS, CGIAR/Bioversity International, IFEJ e Pnuma/CDB, membros da Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável.



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