Mídia

16 de abril de 2014 - 11h01

As mentiras sobre a censura da mídia na Venezuela


Além do fato de que o New York Times teve de fazer uma correção dia 26 de fevereiro por declarar que a Globovisión da Venezuela era a “única emissora de televisão que transmitia regularmente críticas ao governo,” Daniel Wilkinson, do Human Rights Watch (Observatório de Direitos Humanos), repetiu o mesmo erro no New York Review of Books (NYRB) dia 9 de abril, dizendo que:

Por Mark Weisbrot, para o Center for Economic and Policy Research*


Reprodução
Muitos ignoram relatório que mostra que a cobertura da mídia televisiva venezuelana estava igualmente dividida durante as eleições presidenciais. Muitos ignoram relatório que mostra que a cobertura da mídia televisiva venezuelana estava igualmente dividida durante as eleições presidenciais.
"Duas das quatro emissoras privadas diminuíram sua cobertura crítica voluntariamente; uma terceira foi forçada a sair do ar, e a quarta foi cercada de sanções administrativas e acusações criminais até que seu proprietário a vendeu ano passado a investidores assumidamente ligados ao governo, que reduziram dramaticamente o conteúdo crítico".
 
 
 
Na verdade, as emissoras que ele declara que “diminuíram sua cobertura crítica”, Venevisión e a Televen, regularmente transmitem conteúdo crítico contrário ao governo, como documentado aqui.
 

Assim que a declaração de que as emissoras “diminuíram sua cobertura crítica,” se demonstraram falsas, a NYRB, como o New York Times, deveriam se retratar.

A quarta emissora que ele se refere é a Globovisión. Durante o período de preparação para última eleição presidencial, de acordo com um estudo do Carter Center, a Globovisión cobriu nove vezes mais o candidato da oposição Henrique Capriles em comparação a cobertura dada a Nicolás Maduro. Os leitores acostumados à televisão de direita dos EUA notarão que não seria possível que um canal como a Fox News, por exemplo, se safasse de uma coisa dessas. Então, se a Globovisión “reduziu dramaticamente” sua cobertura anti-governo - Wilkinson não oferece nenhum dado - porque ela foi comprada por alguém que queria praticar jornalismo convencional, a emissora ainda teria muito espaço para criticar o governo.

E na verdade, no dia 17 de fevereiro, no calor dos protestos recentes, a Globovisión transmitiu uma entrevista com a líder da oposição Maria Corina Machado, onde ela denunciou uma série de supostos crimes cometidos pelo governo e argumentou que as pessoas tinham o direito de derrubá-lo. Isto joga um pouco de sombra sobre a declaração dada por Wilkinson de que “enquanto alguns programas de notícias entrevistaram líderes da oposição e críticos do governo, eles o fazem sob ameaça de leis e restrições políticas impostas pelo governo”

É uma pena que Wilkinson tenha ignorado ou talvez não tenha lido o relatório do Carter Center sobre a mídia venezuelana durante a tão contestada campanha presidencial de 2013. Os dados do relatório, que levavam em conta os índices de audiência, indicaram que a cobertura da mídia televisiva estava igualmente dividida entre os dois candidatos. Isto contradiz o exagero que ele coloca em seu artigo, o de que há um governo “autoritário” tentando “controlar como as notícias são dadas na televisão venezuelana.”

O artigo de 2800 palavras - que provê poucos links ou fontes que sustentem dúzias de alegações - contém um sem-número de exageros e imprecisões. Por exemplo, ao descrever os protestos, ele diz que “a maior parte deles foi pacífico, apesar de que em muitos lugares os manifestantes construíram barricadas nas ruas, e alguns jogaram pedra e coquetéis Molotov.” Isso contradiz o noticiário diário da mídia internacional. Algumas das marchas realizadas durante o dia foram pacíficas, mas todas as noites, por cerca de dois meses, houve protestos violentos onde os participantes jogaram pedras e coquetéis molotov nas forças de segurança e até sobre vizinhos que tentavam passar pelas barricadas. Isso sem mencionarmos alguns tiroteios causados por manifestantes. Ele não menciona este fato, mas metade das 39 mortes a que ele se refere aparentemente foram causadas pelos manifestantes.

Não me entendam mal. É o trabalho dos grupos de direitos humanos denunciarem e exporem todos os abusos cometidos pelos governos (e atores que não fazem parte do Estado também), e eu não criticaria uma organização de direitos humanos por ser muito dura com qualquer governo. E se Wilkinson quer ignorar ou fingir que não consegue enxergar que esta é mais uma tentativa para derrubar um governo democraticamente eleito, isto é direito dele. Mas porque os exageros grosseiros e as declarações falsas? Não há tantas coisas a se preocupar sem ter de inventar situações?

O Human Rights Watch podem continuar usando estes dois pesos e duas medidas se quiserem. Eles não levantaram um dedo quando um golpe apoiado pelos EUA derrubou o governo democraticamente eleito no Haiti em 2004. Os responsáveis pelo golpe mataram milhares de pessoas, e funcionários do governo constitucional foram colocados na cadeia. Isto não suscitou uma fração da preocupação que o HRW tem tido com a “independência da poder judiciário” na Venezuela, que é claro que não era mais independente antes que o inimigo Chávez ter sido eleito.

Em 2008, mais de 100 acadêmicos assinaram uma carta documentando e “destacando os exageros e imprecisões” em um relatório “motivado politicamente” pelo HRW na Venezuela. Está claro que o HRW não tomaram nenhuma atitude para corrigir suas informações ou descuido com os fatos. Isto é uma vergonha. E é claro, não há nenhum custo político nos EUA ao cometer exageros e emitir informações falas sobre governos que Washington quer desestabilizar. Mas isto não serve à causa dos direitos humanos; isto enfraquece o bom trabalho que o HRW faz em outros países quando eles são vistos como aliados de uma “mudança de regime” apoiada pelos EUA.

(*Tradução de Roberto Brilhante, na Carta Maior)
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