América Latina

8 de dezembro de 2010 - 10h45

Fidel: A Minustah, a epidemia e a assistência médica cubana


A primeira impressão, se não há nenhuma informação adicional, é que se tratava de um boato nascido da antipatia que toda força de ocupação provoca.

Como se poderia provar isso? Muitos de nós não conheciam as características do cólera e seus modos de transmissão. A poucos dias pararam os protestos no Haiti e não se falou mais do assunto.

A epidemia seguiu o seu curso inexorável, e outros problemas, tais como os riscos decorrentes da eleição, ocuparam o nosso tempo.

Hoje chegaram notícias fidedignas e críveis do que realmente havia acontecido. O povo haitiano tinha razões de sobra para expressar seu protesto indignado.

A agência de notícias AFP informou textualmente que: "O renomado epidemiologista francês Renaud Piarroux conduziu uma investigação no mês passado no Haiti e chegou à conclusão de que a epidemia foi causada por uma cepa importada da doença que poderia ser rastreada até a base nepalesa" da Minustah.

Outra agência europeia, EFE, por sua vez, informou que: "A origem da doença se encontrada na pequena cidade de Mirebalais, no centro do país, onde os soldados nepaleses estabeleceram seu acampamento, e apareceu alguns dias depois da sua chegada, comprovando a origem da epidemia ... "

"Até agora, a missão da ONU no Haiti (Minustah) tem negado que a epidemia tivesse entrado pelas mãos de seus capacetes azuis".

" (...) O médico francês Renaud Piarroux, considerado um dos principais especialistas do mundo no estudo da epidemia de cólera, não deixa dúvidas da origem da doença".

"O estudo foi encarregado por Paris a pedido das autoridades haitianas, indicou um porta-voz da diplomacia francesa".

"(...) A aparição da doença coincide com a chegada dos soldados nepaleses que, além disso, veem de um país onde há uma epidemia de cólera".

"De outra forma não se explica o surgimento tão repentino e forte da cólera em um pequeno povoado de poucas dezenas de habitantes".

"O relatório analisa a forma de propagação do mal, já que as águas fecais do acampamento nepalês eram drenadas no mesmo rio em que os habitantes do povoado bebiam água".

A coisa mais surpreendente que fez a ONU foi, conforme comunicou a agência, o "... envio de uma missão de investigação ao acampamento do Nepal, que concluiu que este não poderia ser a fonte da epidemia."

O Haiti, em meio à destruição do terremoto, à epidemia e sua pobreza, não pode prescindir agora de uma força internacional que coopere com uma nação arruinada pelas intervenções estrangeiras e pela exploração das empresas transnacionais.

A ONU não deve apenas cumprir o seu dever fundamental de lutar para a reconstrução e o desenvolvimento do Haiti, mas também mobilizar os recursos necessários para erradicar uma epidemia que ameaça se espalhar para a vizinha República Dominicana, o Caribe, América Latina e outros países na Ásia e África.

Por que a ONU se apressou em negar que a Minustah trouxe a epidemia para o povo do Haiti? Não culpamos o Nepal, que já foi uma colônia britânica, cujos homens foram usados nas guerras coloniais, e agora buscam empregos como soldados.

Indagamos aos médicos cubanos que estão servindo no Haiti e nos confirmaram a notícia transmitida pelas mencionadas agências de notícias europeias com notável precisão.

Eu faço um breve resumo do que disse-nos Yamila Zayas Nápoles, especialista em medicina geral integral e anestesista, diretora de uma instituição médica de oito especialidades básicas e dos meios de diagnósticos do projeto Cuba-Venezuela, inaugurado em outubro de 2009 na área urbana de Mirebalais, com 86 000 habitantes no Departamento Norte.

No sábado, 15 de outubro, ingressaram três pacientes com sintomas de diarréia e severa desidratação; no domingo, dia 16, ingressaram quatro com características semelhantes, mas eram da mesma família, e tomou-se a decisão de isolá-los e relatar o incidente à missão; na segunda-feira, dia 17, repentinamente, apareceram 28 pacientes com sintomas similares.

A Missão Médica urgentemente enviou um grupo de especialistas em epidemiologia, que colheram amostras de sangue, vômitos, fezes e dados, que fptam enviados com urgência para laboratórios nacionais do Haiti.

Em 22 de outubro, estes relataram que a cepa isolada correspondia à prevalente na Ásia e na Oceania, que é mais grave. A unidade nepalesa dos capacetes azuis das Nações Unidas está localizado às margens do Rio Artibonite, que atravessa a pequena cidade de Meye, onde surgiu a epidemia, e Mirebalais, onde depois espalhou-se rapidamente.

Apesar da forma repentina com que a cólera apareceu no pequeno, mas excelente hospital a serviço do Haiti, dos primeiros 2.822 pacientes tratados inicialmente em áreas isoladas do mesmo, apenas 13 pessoas morreram, para uma taxa de letalidade de 0,5%; posteriormente, ao ser criado, à parte, o Centro de Tratamento de Cólera, de 3.459 doentes, faleceram 5 casos de pacientes muito graves para, 0,1%.

O número total de doentes de cólera no Haiti subiu nesta terça-feira, 7 de dezembro, para 93.222 pessoas, e a taxa de pacientes que morreram atingiu a cifra de 2.120. Entre os atendidos pela missão cubana, atingiu 0,83%. O índice de mortos nas demais unidades hospitalares é de 3,2%. Com a experiência adquirida, as medidas adequadas e o reforço da brigada "Henry Reeve", a Missão Médica Cubana, com o apoio das autoridades haitianas, se propôs a dar assistência a qualquer uma das 207 sub-comunidades isoladas, de modo que nenhum cidadão haitiano fique sem assitência frente à epidemia, e muitos milhares de vidas possam ser preservadas.


Fidel Castro Ruz
7 de dezembro de 2010


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