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27 de junho de 2011 - 8h05

Jaime Sautchuk: Indo para o espaço


Para jogar no espaço seu VLS (Veículo Lançador de Satélites), o Brasil vem enfrentando sérios problemas, com pressões que vêm principalmente dos Estados Unidos. Os dois primeiros foguetes lançados na Base de Alcântara, no Maranhão, tiveram de ser explodidos no espaço, por desvios de rota, em 1997 e 1999.

Leia também O terceiro foi alvo daquela explosão nebulosa, em 2003, ainda em terra, dias antes de ser lançado, em que morreram 21 pessoas, entre técnicos e cientistas brasileiros.

São fracassos que agradaram muito aos detentores da tecnologia e do esquema econômico da atividade espacial, em particular, os Estados Unidos, todos contrários ã entrada do Brasil na corrida espacial.

É claro que o satélite em si contém os mesmos desafios tecnológicos. São poucas as empresas no mundo que controlam o setor. Por coincidência, as mais poderosas são estadunidenses. Mas, colocá-lo no espaço requer a tecnologia do foguete, que o Brasil tem capacidade de construir, como já o fez, com parceria com algum país que tope transferir tecnologia.

Aqui, vale uma explicação. Os dois maiores detentores de conhecimento neste campo são os EUA e a Rússia, herdeira do aparato central da antiga União Soviética. O que eles querem evitar é que novos países entrem no grupo dos que já detêm tecnologia de VLSs, um negócio de bilhões e bilhões de dólares por ano.

Atualmente, os países que formam esse grupo, além dos dois maiores, são a China, Índia, França, Israel, Japão, Ucrânia, Coreia do Norte e Irã. Dois desses sistemas têm linhagem genealógica bem clara. O de Israel é filhote dos EUA. O da Ucrânia vem da antiga URSS, mas hoje sem interferência da Rússia. Os demais têm fontes próprias, ainda que com parcerias com os maiores.

De qualquer modo, a rigor, os EUA e também a Rússia, na sua esfera de influência, jogam pesado para que os demais lançadores não cooperem com nenhum outro país.

Para ter capacidade de lançamento, no entanto, o Brasil fez um acordo com a Ucrânia, assinado pelo ex-presidente Lula. Foi criada uma empresa binacional brasileiro-ucraniana denominada Alcantara Cyclone Space, que tem sede em Brasília e na Base de Alcântara, no Maranhão.

Esse, pelo adiantado das coisas, é o caminho mais fácil para o Brasil encurtar o percurso para ter seu foguete de lançamento. Mas aí é que o bicho pega. Há, no próprio governo brasileiro, quem discorde da parceria com a Ucrânia, em favor de uma abertura para o setor privado, que iria favorecer empresas dos EUA, como eu mencionei, com mais detalhes, na coluna anterior.

Por isso, o acordo com a Ucrânia, embora formalmente em funcionamento, vem sendo levado em banho-maria. São fortes as pressões dos EUA e também da Rússia para que a parceria não funcione.

No caso, a transferência de tecnologia já vem ocorrendo no formato tradicional, que é através de universidades e centros de pesquisa envolvidos. Durante a visita do ex-presidente Lula à Ucrânia, em 2007, foi assinado um convênio entre as universidades de Brasília (UnB) e de Dnipropetrovsk, cidade que abriga o principal centro espacial daquele país.

Esse acordo tem funcionado com grande esforço brasileiro e ucraniano, com dificuldades financeiras de ambas as partes, mais pelo lado da Ucrânia. O Brasil já investiu duas vezes mais que seu parceiro no empreendimento binacional – uns US$ 200 milhões contra US$ 90 milhões. Mas isso, convenhamos, é a fatia mais barata da empreitada.

Além do mais, esse fato não retira, de modo algum, a capacidade técnica dos ucranianos. Para se ter uma ideia, eles têm uma base de lançamento marítima, em enorme barcaça rebocada por navios do porte de petroleiros. Assim, lançam foguetes em diversas áreas do seu mar territorial, ou mesmo de outros países, de acordo com as condições mais apropriadas.

Se na parte de lançamento o problema está desse tamanho, na produção do satélite geoestacionário o caso é ainda mais complexo. Não há chance de o Brasil, sozinho, produzir uma nave dessas em pelo menos uma década. Por isso, precisa de parcerias.

A capacidade técnica do Brasil, incluindo empresas privadas do setor, vai até a parte de estrutura física da nave, o que inclui tecnologia de informação, mas o “cérebro” da máquina tem que ser comprado.

O custo total de um satélite desse porte, com as especificações necessárias, é de mais ou menos US$ 1 bilhão. A parte que o Brasil produziria ficaria na faixa dos US$ 400 milhões. Mas isso não é o preponderante. Até porque, depois de colocá-lo em órbita, não há que pagar aluguel a ninguém.

O fato é que o Brasil precisa, com urgência urgentíssima, ter seu próprio satélite geoestacionário. Do contrário, continuaremos com as portas escancaradas para quem quiser bisbilhotar todas as informações que subirem ao espaço. E isso não é pouco.

Senão, vejamos.

Na parte de telecomunicações, há muitos anos o Brasil comprou o direito de uso da série de satélites Brasilsat, que é fabricado pela Hughes, norte-americana, em conjunto com a Spar, canadense. A operação fica a cargo da Embratel, que era estatal brasileira, mas que foi privatizada no governo FHC e hoje pertence à Verizon Communication, norte-americana.

Todos os sinais de rádio, TV, telefonia, internet, tudo passa por ali. Haverá segredo nisso?

Na parte de meteorologia, nós usamos as informações do GOES, também norte-americano. É bem-informado, com dados acurados, mas manipulável. Não nos esqueçamos de que foi um satélite desse mesmo sistema que mudou de localização no espaço na guerra das Malvinas, entre a Grã-Bretanha e a Argentina, colocando em parafuso os dados meteorológicos na região, inclusive no Brasil.

No caso, foi uma decisão do governo dos EUA, que colocou em operação seu sistema global, que é operado pela sua agência espacial, a NASA, com empresas privadas, que são a Hughes, Lockheed e Boeing, principalmente. Era uma determinação de Estado em favor da Grã-Bretanha, que as operadoras cumpriram com rigor.

Por fim, a parte do tráfego aéreo é setor em que o Brasil muito padece. Aqui, quase todo tráfego aéreo é controlado por torres terrestres. Mas há casos de “buracos negros”, especialmente na parte Norte da Amazônia brasileira, nas proximidades do Sistema Parima de Serras, onde está, por exemplo, o famoso Pico da Neblina, o ponto mais elevado do país.

Nesses “buracos” da comunicação terrestre, os pilotos recorrem ao GPS (Geo-Positioning Satellites), também sob controle da NASA. Um satélite geoestacionário brasileiro supriria todas essas informações com risco muito menor para o nosso crescente tráfego aéreo.

Para formatar esse satélite, foi criada, ainda no governo passado, uma comissão vinculada à Agência Espacial Brasileira (AEB), com representantes de todos os setores do governo que tenham a ver com o tema, inclusive no campo militar.

Esse órgão tem funcionado na definição das características desse satélite e mesmo de possíveis parceiros para sua construção. A execução do projeto, contudo, depende de dinheiro e de vontade política.

A pressão contrária é forte, mas o Brasil agora tem força para suplantá-la.

*Jornalista e escritor, colunista e membro da equipe de matérias especiais do Vermelho


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