Brasil

20 de setembro de 2016 - 15h18

L’Humanité: Dilma sem amarras


Foto: AFP
Dilma Rousseff Dilma Rousseff
Na sua melhor e mais recente entrevista à imprensa francesa, Dilma Rousseff deixou de lado as meias palavras e fez uma balanço de seu governo com altivez, sem deixar de fazer um mea culpa.

Ela falou à revista L’Humanité Dimanche, semanal do jornal comunista L’Humanité, que teve a capa inteiramente tomada pela foto da ex-presidenta e pela chamada para a entrevista de cinco páginas: "Temer e seu governo são ilegítimos, golpistas e usurpadores".

Porque já foi afastada do posto obtido por mandato popular, a ex-presidenta pode agora dizer tudo o que pensa. No balanço de seu governo, admitiu e lamentar erros mas também reivindicou acertos.

Falando à jornalista francesa Anne Vigna, que a entrevistou pouco antes de sua mudança para Porto Alegre, a presidente nunca pareceu tão à vontade para dizer o que pensa do atual regime, violento contra manifestações pacíficas :

"Quando estamos em um caso de ruptura democrática, de golpe de Estado, a tendência é reprimir as manifestações. Quando estava na presidência, houve centenas de manifestações contra mim e jamais houve repressão porque eu não me sentia incomodada por essas manifestações. Mas os golpistas se sentem atacados quando são chamados de golpistas". Ela contou o caso de uma jovem que perdeu um olho por agressão policial numa das manifestações.

Por que chamar um processo de impeachment de golpe de Estado parlamentar? A ex-presidenta explica: "São forças que se uniram a serviço da oligarquia. O objetivo dessa aliança entre as oligarquias tradicionais, a mídia – no Brasil somente 5 famílias controlam a maior parte da mídia - e os que perderam 4 eleições seguidas para o Partido dos Trabalhadores era o poder. Como eles não têm votos, só podem tomar o poder de maneira ilegal", explicou didaticamente.

Quanto a seus erros, Dilma Rousseff lamentou dois principais : a escolha de parceiros que a traíram (ela não menciona o nome do vice-presidente) e a exoneração fiscal concedida a empresários "que não criaram empregos nem investiram".

O leitor francês vai imediatamente fazer uma comparação com François Hollande, que deu 40 bilhões de euros de exoneração fiscal a empresários franceses que, contudo, não fizeram o esperado : criar empregos com esse presente monumental.

Honestidade

Do seu legado, Dilma ressalta a retirada do Brasil do mapa da fome, feito pela ONU: "Tenho orgulho de ter participado da erradicação da miséria e da fome".

A ex-presidenta detalhou o programa para leitores que podem ignorar totalmente a situação social do Brasil. Ressaltou que como no programa Minha Casa, Minha Vida, explicado em detalhes, na bolsa família a mulher é quem é considerada a responsável para receber os benefícios.

A primeira mulher presidente do Brasil se mostrou orgulhosa dos avanços obtidos pelas mulheres em seu governo e citou, entre outros, a Petrobras, presidida pela primeira vez por uma mulher.

Como era de se esperar, foi honesta ao admitir que membros do seu partido cometeram irregularidades:

"No escândalo de corrupção na Petrobras, foi provado que membros do Partido dos Trabalhadores estavam implicados e eles estão pagando por isto. Mas o PT não foi o único implicado. Contudo é o único que vem sendo punido".

Dilma Rousseff lembrou o que muitos brasileiros parecem esquecer: "Esta investigação avançou porque o presidente Lula e eu criamos leis que permitiram o combate à corrupção. Se a lei é a mesma para todos, os outros partidos devem ser também investigados porque é evidente que este escândalo não diz respeito apenas ao Partido dos Trabalhadores".

Soberania ameaçada

Cortes no orçamento, reforma da aposentadoria e privatizações não podiam deixar de estar presentes na entrevista. Ela comenta todos os retrocessos já efetuados na educação, na saúde e as próximas medidas que visam a modificar as regras da exploração das reservas de petróleo do pré-sal.

"Pensamos que todos os países devem proteger sua integridade territorial e manter o controle de seus recursos naturais que fazem parte de seu patrimônio. Somos, claro, contra a privatização da Petrobras".

Para ela, a redução das desigualdades num dos campeões do mundo tem que ser uma política de Estado. Dilma explica: “Temos cada vez mais consciência de que a globalização não pode ser o regime no qual os que ganham são 0,5% a 1% da população. Hoje, o mundo toma consciência de que isso precisa mudar ou caminharemos para soluções 'problemáticas', com a extrema direita avançando em diversos países".

O avanço das ideias conservadoras no Brasil, a homenagem em votação pública no Congresso a um ex-torturador, a defesa da volta dos militares ao poder, a herança escravocrata do Brasil que levou à criação da política de cotas, as críticas aos aeroportos cheios de pessoas que nunca tinham viajado de avião. A ex-presidenta traçou um amplo panorama do Brasil para os leitores.

No final, a Dilma Rousseff abre uma janela de esperança: “Todas as mudanças realizadas revolucionaram o Brasil e, por isso, tenho certeza de que a população que adquiriu novos direitos não vai aceitar facilmente os recuos sociais, políticos, econômicos que estão sendo anunciados. Vai haver muitas lutas no Brasil. Tenho certeza”.


*Artigo publicado no portal Carta Maior.

Leia a íntegra da entrevista no L' Humanité

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