Brasil

8 de março de 2013 - 7h03

Jaime Sautchuk: 120 Anos do Relatório Cruls


Há 120 anos a Comissão Exploradora do Planalto Central concluía seus trabalhos de demarcação do quadrilátero que hoje abriga o Distrito Federal. No início de março de 1893, sob o comando do astrônomo Luis Cruls, o grupo já se debruçava no preparo de seu relatório, publicado em junho daquele ano.

Por Jaime Sautchuk* 


A Missão Cruls, como ficou conhecida, foi importante marco na história do Brasil. E lembrá-la agora significa avivar esse olhar para o Centro-Oeste, que já era ocupado, mas por gente que se dispunha a viver no abandono dos cerrados, lagos, lagoas e pantanais.

Em verdade, a ideia de mudança da capital do País perpassou o Século 19 nas ondas das polêmicas. Com o fim do Império e advento da República o ti-ti-ti cresceu ainda mais. Tomou as ruas, os bondes, os trens, os jornais, as festas, os bares e a literatura.

A todos era forçoso ter uma opinião sobre o tema, das mais vulgares às mais estapafúrdias. A favor ou visceralmente contra.

Atento a tudo, até porque tinha de caçar assuntos para suas crônicas em periódicos, o grande escritor Machado de Assis escrevia: “Trata-se de mudar a capital do Rio de Janeiro para outra cidade que não fique sendo um prolongamento da Rua do Ouvidor”. E divagava sobre as inúmeras hipóteses que todo momento eram levantadas.

Deixava claro, em suma, que a ainda inominada cidade que viesse a servir de capital já provocava notáveis expectativas nas cabeças das pessoas. Essa teria de ser habitada por quem quer que fosse, pois não há uma cidade se não houver nela os habitantes. E já lucubravam sobre o que ficaria no Rio e o que dali sumiria.

Em Niterói, Vassouras, Nova Friburgo, Petrópolis, Teresópolis, todos queriam puxar a sardinha pro seu lado, queriam ser capital. Bem antes, porém, José Bonifácio de Andrade já havia apontado a região central do País como a mais apropriada.

Ele indicou a cidade de Paracatu como uma provável candidata, por ser mineira e fazer parte do planalto.

Eram levantados, também, os nomes de São João Del Rey, em Minas, e de Formosa, em Goiás. Mas eram todas cidades já existentes. Machado, contudo, já embarcava na ideia de uma cidade nova, seguindo o prescrito pela primeira Constituição da República, que determinava a definição de uma área de 14.400 km² para sediar o governo federal, na parte central do País.

O então presidente Floriano Peixoto foi quem criou a comissão com essa finalidade. Na crônica, Machado saudava o grupo, que já havia completado seus trabalhos e estava de volta a Uberaba (MG), para ali deixar cavalos, mulas e poeiras para tomar o confortável trem de volta ao Rio de Janeiro. Ufa!

Louis Ferdinand Cruls nasceu e cresceu na Bélgica. Veio para o Brasil em 1874, já formado e razoavelmente conhecido como astrônomo. Logo virou diretor-adjunto do Observatório Imperial do Rio de Janeiro e, em 1881, aceitou o cargo de diretor do Observatório Astronômico brasileiro, talvez a mais importante instituição de estudos e pesquisas de então, que definia a hora certa e observava o clima, por exemplo.

Vinte anos depois de sua chegada, Luis Cruls - nome que adotou aqui - já podia se considerar brasileiro, carioca da cepa, com todos os mesmos sentimentos que assomavam seus conterrâneos.

Ele próprio não sabia direito o que iria encontrar, embora, como cientista, tivesse muito mais informações a respeito da região a ser percorrida do que toda a população brasileira.
Muito além dos bandeirantes e bandoleiros, a região já havia sido vasculhada por inúmeros cientistas importantes, desde a segunda década daquele século.

O tcheco Johann Emanuel Pohl, o também belga Auguste de Santi-Hilaire e o alemão Carl Friedrich Philipp Von Martius são alguns dos exemplos mais ilustres desses viajantes que tantos legados deixaram para o Brasil e para a humanidade.
O mesmo ocorria com a maioria dos 21 demais membros da Missão, com destaque para o jovem Henri Charles Morize, francês de nascimento, mas brasileiro desde os 14 anos de idade, com o nome de Henrique Morize.

Havia trabalhado em serviços gerais numa livraria, em São Paulo, e como ferroviário, antes de decidir cursar engenharia na universidade, no Rio de Janeiro, e de dar a sorte de ir trabalhar com Cruls no observatório.

Quando escolhido para integrar a comissão, Morize tinha 26 anos. Foi, depois de Cruls, seu membro mais destacado. Tornou-se, a partir dali, importante cientista, diretor do Observatório e atuante em várias áreas.

É atribuída a ele, por exemplo, a primeira transmissão de rádio no Brasil, embora o feito seja disputado por vários outros nomes na historiografia nacional.

A Missão percorreu perto de 40.000 quilômetros de chão, tendo como referências principais as localidades de Formosa, Pirenópolis e a Cidade de Goiás, conhecida como Goiás Velho, capital da província.

Esta última foi o primeiro agrupamento urbano criado por Bartolomeu Bueno da Silva Filho, o Anhanguera II, ainda em 1726 e já dois anos depois tinha perto de 10.000 escravos negros, além de índios capturados na região e dos portugueses da expedição.

Na parte final de sua viagem, a Missão Cruls foi dividida em quatro grupos, encarregados de afixar os marcos nos vértices do quadrilátero que viria a ser o Distrito Federal. Depois, seguiram separadamente para a Cidade de Goiás e, de lá, para Uberaba.
Olhando para o Céu e fazendo medições, eles descreveram toda a flora, fauna, recursos hídricos e habitantes que encontraram.
Relembrar os 120 anos do relatório é, pois, manter viva uma boa parte da história do Brasil. 

* Jaime Sautchuk é jornalista, escritor, colunista do Vermelho.
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