Brasil

5 de março de 2011 - 13h15

Morre aos 98 anos Lucília Rosa, histórica líder comunista de MG


O enterro foi às 12 horas de sexta, no Cemitério Medalha Milagrosa, na Univerdecidade. Lucília deixa dois filhos dentistas: Calixto Rosa Neto, que foi vereador pelo PSD em Campo Florido (MG), de 1963 a 1964, e depois em Uberaba, de 1983 a 1988, pelo PMDB, e Moisés Soares Rosa, diretor a cooperativa Uniodonto, além de 13 netos, oito bisnetos e uma trineta.

Ela será homenageada pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, no final deste mês, ao lado de nove mulheres, entre elas Clara Charf, ex-mulher do deputado baiano constituinte de 1946 e guerrilheiro, Carlos Marighela.

Lucília Rosa, aos 35 anos, foi uma das 17 primeiras vereadoras eleitas em Minas. Ela era de Uberaba, mas morava em Campo Florido, a 70km, onde conquistou, em 1947, uma cadeira da Câmara Municipal. Foi escolhida pelo PSD, porém era militante do PCB (Partido Comunista do Brasil) desde os 18 anos, quando se filiou e foi batizada como “Lucrécia”, seu “nome de guerra”.

Ousou e enfrentou preconceitos ao ligar as trompas, em 1939, depois de ter dois filhos. Essa operação somente realizava-se na Europa. Foi presa duas vezes. Em 1949, ao cuspir no rosto do delegado, em Campo Florido. Ficou detida por 13 dias ao participar de manifestação contra o envio de jovens brasileiros para a Guerra na Coreia. Foi em 1951, em Uberlândia.

Morou, em São Paulo, durante 15 anos, de 1958 a 1972, quando trabalhou como doméstica, entre outras patroas, para a deputada federal Ivete Vargas (PTB), sobrinha do presidente Getúlio Vargas, que conseguiu-lhe emprego na Caixa Econômica e nos Correios. Rejeitou e manteve-se na profissão que possibilitou as formaturas, em Odontologia, dos dois filhos.

Ela chegou aos 98 anos, em agosto de 2010, e tinha memória extraordinária. Deixou um acervo rico de documentos, entre eles, correspondências que manteve com Luiz Carlos Prestes, secretário-geral do PCB entre os anos de 1930 e 1980, e com Anita Leocádia, filha dele com Olga Benário, morta em campo de concentração nazista, na Alemanha.

Lucília mantinha contato permanente com Anita há mais de 30 anos. Moraram juntas durante dois anos e meio, entre 70 e 72, clandestinamente, durante os anos mais sangrentos da ditadura militar, em São Paulo. Passava-se por tia de “Alice Nascimento”, codinome de Anita. Residiu também, durante três meses, em 1962, com a família de Prestes, a quem ajudava a cuidar de seis dos sete filhos.

Sua vida vai ser registrada no livro Lucilia – Rosa Vermelha. O projeto de pesquisa sobre sua história surgiu durante visita do presidente da Câmara de vereadores de Uberaba, Lourival dos Santos (PCdoB) a ela. Estava, em 2006, com a saúde debilitada após 25 dias em coma. Ao ser indagada sobre seu sonho, disse que gostaria de ter sua trajetória publicada em livro.

A partir daí, a diretora de Comunicação do Legislativo, Evacira de Coraspe, coordena o trabalho desenvolvido pela historiadora Luciana Maluf Vilela e pelo jornalista Luiz Alberto Molinar. A obra, que será lançada brevemente, vai revelar a personalidade, os caminhos de Lucília, de libertários, anarquistas, socialistas. Enfim, a origem dos movimentos populares e de seus protagonistas em Uberaba e região, desde o final do século 19 até 2000.

Lucilia não falava muito do falecido marido. Preferia falar do filósofo alemão Karl Marx, o pai do socialismo científico, do qual se confessa devota. A bíblia que carregou debaixo do braço, sua cartilha durante décadas, foi o famoso O Capital. Dedicou toda sua vida à causa revolucionária. Lutou por uma sociedade justa para todos.

“O capitalismo tá morrendo. O enterro vai ser muito difícil. E o nascimento do socialismo é um parto, um parto demorado, sacrificado, judiado, mas ele vai nascer”, disse certa vez. “Em termos de parto, nós mulheres que parimos é que sabemos: uns partos são mais rápidos, outros menos. Mas, para parir uma coisa nova, bonita, bem feita e bem acabada, não é fácil, não."

Da Redação, com agências


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