Mídia

16 de março de 2014 - 9h17

Venezuela: o socialismo que deu certo 

"A Venezuela é um país ímpar, único lugar onde os ricos protestam e os pobres celebram." (De um jornalista colombiano, fevereiro de 2014).

Por Eduardo Montesanti Goldoni * 


Após a dissolvição da ex-União Soviética em 1991, o historiador norte-americano Francis Fukuyama sentenciou O Fim da História: o capitalismo vencera para sempre sem deixar opções à humanidade, logo pautando a retórica de muitos indivíduos, analistas ou não, incapazes de enxergar alternativas ao sistema que se mostra cada vez mais falido.

Quando opções são apresentadas, em diversas ocasiões inspirados ou se justificando na doutrina de Fukuyama, que é a de Washington, aplica-se o velho discurso regressivo, essência das mentalidades reacionárias: se não for o neoliberalismo, será o comunismo soviético novamente? Inovação, uma terceira via, sempre impensável, sumariamente rechaçada e até ridicularizada àqueles que podemos chamar de filhotes da Guerra Fria e da ditadura.

Socialismo que deu certo

"Ideias e informações possuem o poder de libertar e de escravizar... ou pior. Nossa escolha se dá através da adaptação a isso." (Dylan Charles, escritor norte-americano)

Em 1998 ascendeu ao poder venezuelano Hugo Rafael Chávez Frías, defendendo entusismada e objetivamente o socialismo do século XXI em plena década perdida da América Latina, onde nunca antes os Estados Unidos haviam exercido tanto domínio sobre a região como naqueles anos.

À ascensão de Hugo Chávez sucederam-se, ao longo da década de 2000, outros personagens progressistas na região mais rica em biodiversidade do planeta: Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Equador, Honduras (apesar do golpe treinado e financiado pelos EUA, que derrubou Manuel Zelaya em 2009) e Nicarágua.

A democracia participativa passou a reger a maioria desses países: nunca houve na história latino-americana tanta participação popular em sua vida política, tanta liberdade de expressão, garantia de direitos humanos, distribuição de renda, redução do analfabetismo e acesso à educação e saúde entre outras inéditas conquistas, quanto nestes anos.

No caso específico da Venezuela, a democracia participativa tem entregue diversas decisões às mãos da sociedade: medidas a serem tomadas nos bairros, fiscalizações, a possibilidade de sugerir aprovação ou revogação de leis nacionais além do referendo revogatório que pode ser convocado no segundo ano de cada mandato presidencial, como ocorreu em 2004 quando a oposição, através da criação de mais um clima de caça às bruxas, aprovou o referendo e a sociedade optou, maciçamente, pela continuidade de Hugo Chávez (a Constituição venezuelana é uma das poucas do mundo a terem sido constituídas através de Referendo Popular, em 1999).

Hoje, o presidente Nicolás Maduro ex-motorista de ônibus e líder sindical, é o mais popular da América Latina segundo ampla pesquisa da rede de TV NTN 24, e 60% dos venezuelanos considera o socialismo o melhor sistema, contra apenas 21% que acredita ser o capitalismo a melhor alternativa.

Através de pesquisas nos dias 27 e 28 de fevereiro, a empresa internacional de pesquisas International Consulting Services (ICS) constatou que 80,9% dos venezuelanos apoia o presidente Maduro, e suas medidas de paz e diálogo especialmente na convocação da Conferência Nacional pela Paz (além de boicotada pela ala oposicionista mais radical, Conferência seguida de boicote nada noticiados pela mídia predominante).

A ICS concluiu ainda que 85,4% da sociedade condenam os atos violentos da oposição no país, e 91,3% concorda que todos os setores políticos, sociais e econômicos devem manter uma postura respeitosa diante da Constituição, isto é, respeitar o governo democraticamente eleito sem a retórica de "apenas cessaremos a violência com renúncia".

Democracia e direitos humanos não são as reivindicações de setores oposicionistas das classes média e alta da Venezuela, muito pelo contrário, e lá estão os EUA apoiando os clamores antidemocráticos. "Só abriremos mão da violência quando este governo renunciar", é o imperativo predominante do setor oposicionista nas ruas e na mídia local, recusando-se a dialogar e a participar das reuniões como a Conferência pela Paz convocada pelo presidente Maduro, a maioria desses encontros, desde antes da violência que tomou conta das ruas, transmitidos ao vivo, em cadeia nacional.

"Dialoguemos e busquemos a paz e soluções ao país, olho no olho", tem dito o dignatário venezuelano. Através da TV ao vivo, em rede nacional, perguntou no Palácio de Miraflores a um de seus adversários mais radicais, o governador de Miranda, Henrique Capriles: "Aqui estão governadores opositores ao meu governo dialogando. Por que você não está aqui? Por que se recusa sempre a estar aqui?". O candidato de Washington na eleição presidencial do ano passado derrotado por Maduro, Henrique Capriles, prefere o silêncio político e a violência nas ruas.

Outro mito, já desfeito em cima de fatos especialmente em nossa última publicação neste Observatório, diz respeito ao "controle midiático" do governo venezuelano. Acrescentemos a realidade trazida no artigo Dialogue or Coup, do jornalista chileno Pedro Santander (http://venezuelanalysis.com/analysis/10369):

"80% da mídia (venezuelana) é privada. Os três jornais de circulação nacional (El Universal, El Nacional e Últimos Noticias) são oposicionistas ao governo, especialmente os dois primeiros, os quais detêm, sozinhos, 90% da leitura no país. Dos quatro canais de TV com cobertura nacional, três deles (Venevisión, Globovisión e Televen) são oposicionistas, detendo 90% da audiência, de acordo com informações fornecidas pela empresa AGB.

Neste sentido, e de acordo com os critérios das Nações Unidas, a liberdade de informação na Venezuela é, sem nenhuma dúvida, mais ampla e melhor que no Chile enquanto no país caribenho a diversidade de propriedade, a diversidade de tipos de mídia (pública, comercial, comunitária) e de discurso – que são os três principais critérios de medição da UNESCO [para avaliar liberdade de Imprensa] – são superiores ao sistema do Chile. Ninguém que compare objetivamente, isto é, com dados (indicadores, medidores, escalas, etc), a mídia chilena com a venezuelana, verá que nosso país [o Chile] está em situação muito mais precária, e não muito democrática."

No Peru, cujo governo é pró-EUA, 78% da mídia impressa está em apenas uma mão. No Brasil, a mídia de massas, totalmente pró-Washington, encontra-se mais oligopolizada que à época da ditadura: pertence a cinco famílias oligárquicas. Além do mais, os EUA e seus parceiros ocidentais baniram redes de TV e estações de rádio iranianas da América do Norte e de vários países eurpoeus em 2012/2013.

Acrescentemos também que o governo bolivariano da Venezuela promoveu expansão sem precedentes no país, e na América Latina, equiparável apenas a Bolívia e Equador, em relação à mídia comunitária, dando voz a todos os setores da ociedade inclusive indpigenas, historicamente abafadas.

Mark Weisbrot apontou que: "Uma análise minuciosa dos canais [venezuelanos] mostra que os canais privados dedicaram proporção muito maior da cobertura ao candidato Henrique Capriles Radonski, aos acontecimentos de sua campanha [presidencial de 2013] e aos seus his seguidores (73%), com muito menor porcentagem (19%) dedicada ao partido governista do então candidato, Nicolás Maduro, aos acontecimentos de sua campanha e a seus seguidores. (...) Na mídia privada, o candidato Henrique Capriles recebeu 60% de cobertura positiva (com 23% negativa, e 17% neutra), enquanto o candidato Maduro teve 28% positiva (com 54% negativa, e 18% neutra)."

Em vista desta realidade toda, contrariada por parte da "grande" mídia apenas com retórica persuasiva sem base nos fatos e nem apresentação da versão de todos os envolvidos conforme rezam as letras mortas da cartilha do jornalismo razoável, a natural constatação é que o governo bolivariano da Venezuela é tão repressor contra a mídia quanto foi o presidente João Goulart... A história imperialista e midiática manipulatória se repete.

Messianismo imperialista

"Alguns certamente discordarão disso, mas acho que os EUA são excepcionais." (Barack Obama, fevereiro de 2014)

O socialismo do século 21 vivido por países que atravessam a Revolução Bolivariana é a maior evidência de que um outro mundo é, sim, possível, contrariando as máximas de livre-mercado em que este regula a sociedade, e a ideia messiânica de que países subesenvolvidos, historicamente subjugados pelas grandes potências, apenas podem ser libertados de fora para dentro, isto é, através das perpétuas intervenções militares dos salvadores do planeta contra governos "tiranos" e "terroristas" (no Brasil, João Goulart foi a maior vítima dessa impiedosa retórica, demonizado injustamente pelos meios de comunicação e por setores oposicionistas, tudo isso comprovadamente arquitetado e financiado pelo regime de Washington).

O messianismo norte-americano já começa a ser imputado ao subconsciente mundial através das produções de Hollywood; a mídia em geral desempenha, muitas vezes de maneira sutil, papel preponderante para levar adiante esses antivalores que só podem se apoiar em mentalidades e discursos retrógrados. Para os patrocinadores e apoiantes de Fukuyama, tudo o que não privilegie o capital deve ser combatido, não importando os meios. A própria mídia, dentro deste sistema, deve ser regulada pelo mercado e não por leis específicas que defendam a prática jornalística e o cidadão. No livre-mercado, o cidadão é reduzido, como em tudo onde prevalece o poder do capital, a mero consumidor - neste caso, consumidor de informação.

Hoje, em contraste às décadas de 90, 80, 70 e 60, nunca os EUA estiveram tão isolados no continente. Velho e envelhecido imperialismo ao qual a mídia tenta dar nova vida. Claramente, a antiga preocupação de Washington com a Venezuela não se dá apenas em relação ao petróleo, mas também com a manutenção ou recuperação de sua hegemonia regional e de sua ideologia do monoteísmo do mercado, cada vez mais rechaçada na América Latina. Pelas urnas, por mais que os EUA patrocinem setores golpistas completamente desgastados, isolados e desacreditados em seus países, está impossível atingir esses objetivos.

Quando foram descobertas as reservas petrolíferas na camada pré-sal brasileira em 2008, os EUA reativaram a IV Frota Naval, paralisadas desde a II Guerra Mundial, e a estacionaram exatamente nas proximidades de nossa pré-sal.

Atualmente, o regime de Washington namora seriamente a possibilidade de estabelecer bases militares de nada, mais nada menos que dela, a OTAN da Guerra Fria em solo colombiano, criada na Europa pelos próprios EUA a fim de conter, naquela região, o avanço comunista.

No próprio solo da Colômbia a exemplo do que ocorre no Paraguai, há diversas bases militares dos EUA, país mais violento do mundo (tanto internamente quanto na política externa) que, nos últimos anos, aumentou em 35% os gastos militares de seu orçamento, contra 12% dos investimentos em outras áreas (três vezes menos). É esse aliado "exemplar" que queremos? O povo, última voz ecoada pela mídia predominante, anda dizendo um rotundo "não", já de longa-data.

Agora, nada mais conveniente ao Império que implantar bases militares no coração da América, a Venezuela, elo entre o Norte e o Centro ao Sul e, com uma tacada só, derrubar um governo socialista reapoderando-se das mairoes reservas petrolíferas do planeta, além de ativar ainda mais a indústria bélica, a economia da guerra que tenta aliviar a crise econômica mais aguda no seio do capitalismo desde a Grande Depressão de 1929 (a atual está se tornando mais longa que aquela e, pelo trôpego andar da carruagem, logo virá a ser mais intensa também; parece que é isso exatamente o que os tomadores de decisão mais desejam, a fim de justificar políticas de linha-dura às últimas consequências).

Meios de persuasão de massas

"Nosso trabalho é dar às pessoas não o que elas queiram, mas aquilo que nós decidimos que eles devam ter." (Richard Salan, ex-presidente da rede de TV norte-americana CBS News, 1961 – 64 e 1966 – 79)

A mídia predominante global, representante dos interesses dos altos escalões políticos e corporativos que governam este mundo, tem ofuscado a realidade de países como a Venezuela de maneira que não se está enxergando nela um modelo alternativo, dado o bombardeio e as tentativas de contrabombardeio da informação que a envolve.

Quando as verdades por trás da violência na Venezuela vieram à tona, especialmente medidas das mais democráticas do presidente Nicolás Maduro para estabelecer definitivamente paz ao país que desconsertaram o setor golpista dentro da oposição, os grandes jornais mundiais diminuíram sensivelmente a cobertura sobre a Venezuela.

Enquanto ainda se podia fazer sensacionalismo, tender para o lado golpista que incluía manipulação de imagens, explodiam diariamente "reportagens" e editoriais apresentando uma voz só e as mesmas "verdades" de sempre. Os meios de comunicação repetiam o velh filme pré-golpes militares na América Latina do século XX. Mas os tempos mudaram, e muito.

No dia 26/2, ainda muito violento em partes da Venezuela, começou a ficar claro que a maré estava mudando democraticamente no país de Simón Bolívar. As políticas conciliatórias do presidente Maduro, o desconserto oposicionista e as massas pró-governistas pacificamente tomando conta do país, desenhavam em meio ao cenário armado por uma oposição inescruplosa e pela mídia bem conhecida de todos nós, que aquilo que fora arquitetado para ser mais uma violenta tentativa de golpe tornava-se, ou voltava-se a ser a Revolução Bolivariana.

O jornal The New York Times (onde "tudo começa", midiaticamente falando), que até o dia 28 diariamente publicava diversas matérias promovendo, claramente, um golpe contra o governo democraticamente eleito do dignatário Maduro, simplesmente parou de publicar sobre a Venezuela: de 1º a 5 de março, quando este artigo foi concluído, nenhuma reportagem nem editorial podia ser lido no principal jornal do mundo que, até então, incitava e até pautava os protestos conforme pode ser lido, como um exemplo, neste artigo de William Neuman, Slum Dwellers in Caracas Ask, What Protests?

Desde de 1º de março, falar em Venezuela significa, inevitavelmente, apresentar a versão do presidente Nicolás Maduro, de sua equipe de governo e de, pelo menos, 85% da sociedade venezuelana conforme veremos a seguir. Está cada vez mais difícil seguir noticiando, de maneira ampla, a mentira de que a rebelião oposicionista se dava a nível nacional, de maneira pacífica, e que o presidente Maduro agia apoiado em repressão conforme o Times fazia crer.

Os jornais brasileiros, por sua vez, quando ainda dão espaço à conjuntura venezuelana a partir de 27 de fevereiro, fazem isso de modo bem menos "entusiasmado" que antes com a violência que de protesto universitário não tem absolutamente nada. Abordam a questão da mesma maneira de sempre, embora mais tímida, mas ainda "curiosamente" em perfeita sintonia com os meios predominantes mundias (nem Joseph Goebbels suporia que mil mentiras diferentes poderiam ser, simultânea e "coincidentemente", repetidas nos quatro cantos do mundo, e transformadas em verdade absoluta) e com os interesses militares-expansionistas dos EUA que desrespeitam, por completo, soberanias nacionais, leis internacionais que exigem que estados se mantenham afastados de questões internas de outros países (mais ainda se, simplesmente, não gostarem desses governos como é o caso de Venezuela, Ucrânia e Síria sob os ditames dos EUA), e desrespeitam inclusive a própria Constituição norte-americana que não autoriza intervenções militares sem aprovação prévia do Congresso, nem o financiamento a partidos políticos estrangeiros (o regime de Washington injeta milhões de dólares nos partidos de oposição da Venezuela, antigos golpistas, promovendo ainda conexão entre golpistas venezuelanos com narcotraficantes colombianos: o "Irá-Contras contemporâneo", isto é, a história tragicamente se repetindo na cara de todos nós).

Mesmo que um Estado seja autorizado pelo Conselho de Segurança da ONU a usar a força contra outro a fim de restabelecer a ordem, ou que um Estado solicite assistência militar estrangeira, além de proporcionalidade de força neste uso (o que os EUA historicamente desrespeitam, indiscriminadamente, enriquecendo sua indústria bélica e apavorando ainda mais o globo em seu favor) as leis garantem que o governo democraticamente eleito seja preservado, e aqueles que o apoiam. Porém, conforme argumentamos em EUA & Atrocidades: Guerra contra Quem? neste Observatório, sempre que a força militar dos EUA está envolvida na questão, a mídia se recusa a discuti-la à luz do direito internacional.

Não por coincidência, os EUA recusam-se a ratificar o Tribunal Penal Internacional para não submeter seus militares a julgamento internacional - nenhuma força militar é tão violadora das leis em todo o planeta quanto a norte-americana. Desta maneira, a abordagem da "grande" mídia é tão hipócrita quanto quem ela representa, a política internacional dominadora.

Invertamos os papeis: que ocorreria se algum Estado, o venezuelano ou brasileiro, por exemplo, usassem seus diplomatas para se reunir com políticos norte-americanos oposicionistas, orientá-los e financiá-los para derrubar um governo que, como o de Barack Obama, fere como nenhum outro (nem George Bush) os direitos humanos, locais e internacionais? E se fossem organizados pela oposição local, com fnanciamento dos estados estrangeiros, protestos violentos com apedrejamento e lançamento de bombas molotov contra o Congresso dos EUA, além de tiros contra a Polícia? É exatamente este o quadro oposicionista venezuelano hoje.

No Brasil, por muito menos, a mídia incentiva entusiasticamente a Polícia a descer o porrete, sem dó, em manifestantes. Por que dois pesos e duas medidas enquanto a Polícia e a Justiça venezuelana cumprem a lei, e coibem a violência fascista?

Assim, a jornalada tupiniquim segue dando voz a um lado só, o da oposição venezuelana - neste caso, mil práticas antijornalísticas "coincidindo", simultaneamente, mundo afora, que abrem caminho às manipulações e mentiras sortidas que se acumulam, ano a ano.

(A mídia gorda brasileira, além de se opor à regulação midiática que existe inclusive nos EUA a quem tanto blindam, e de cujos principais jornais traduzem artigos ao invés de enriquecer suas equipes internacionais, defende que para ser jornalista é fundamentalmente necessário cursar Jornalismo. Perante tanta aula de antijornalismo e de maneira totalmente seletiva, a pergunta que não quer calar: onde essa gente estudou Jornalismo? Como diria o Zé da Fiel: "Tá maus!". A jornalada brasileira anda, há muito, idêntica à ala evangélica comandada por ele, Marcos Feliciano: sofrível em teoremas doutrinários, e pior ainda em prática diária. Não será por isso a vertiginosa perda de credibilidade?).

A deputada oposicionista María Corina Machado (aquela que apareceu em gravação arquitetando golpe através de manipulação social, declaradamente com apoio de Washington, a mesma que também rompeu as relações diplomáticas internacionais e, em 2005, sentou-se ao lado de George Bush na Casa Branca para o mundo todo ver, quando Chávez ainda era o presidente da Venezuela) teve sua versão publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo na sexta-feira, 7/2, "exigindo" posição da presidente Dilma Roussefff. O governo venezuelano, jamais.

A propósito, estará Maria Corina, quem possui seu devido Green Card de entrada nos EUA mansão em Miami, livre acesso à Casa Branca e às embaixadas dos EUA, sendo orientada também por Washington para intimidar o governo brasileiro e alastrar uma "crise"?

Não deveria ser necessário apontar esse tipo de coisa, mas com tanta desinformação e tendencionismo, registremos que não é papel de deputada, muito menos oposicionista, exigir explicações de presidente de República seja lá de que parte do mundo for. Mas à mídia gorda brasileira, isso é normal e deve até ser ressaltado, ofuscando a versão oficial do país em questão, a Venezuela, e que o Itamaraty já manifestou claramente sua posição através da Unasul sobre a violência fascista que acomete uma vez mais a Venezuela: assim como todos os outros governos latino-americanos, apoia a administração de Maduro, e condena terminantemente a tentativa de golpe contra o governo venezuelano. A isso tampouco o Estado de S. Paulo, a exemplo dos outros jornalões brasileiros e internacionais, não deu a menor importância.

À nossa velha pergunta, "a quem serve o jornalismo brasileiro?", os próprios meios de comunicação tratam de responder a cada dia, calamitosamente.

Nos Estados Unidos, a desinformação jornalística recheada de retórica política é a pedra angular da política externa intervencionista norte-americana, assim como foi no caso do Vietnã, nos golpes militares contra a América Latina e tem sido envolvendo o Oriente Médio há tantas décadas: se a opinião pública local estiver consciente da verdade dos fatos, não apoiará esta nova empreitada de seu regime contra a Venezuela.

Outro mundo possível

"Falar de preços justos, atualmente, é um conceito medieval. Estamos em plena era de livre-comercialização." [Covey T. Oliver, em 1968, político norte-americano, coordenador da Aliança para o Progresso (da América Latina)]

É possível o crescimento nacional independente, uma economia solidária voltada aos interesses de uma sociedade solidária, não o enaltecimento ao individualismo e à competitividade descomedida, um sistema político transparente, participativo no qual os detentores de cargos públicos são empregados do povo (neste sentido, abordamos o incansável Governo de Rua de Maduro na edição anterior deste OI, debaixo de sol e chuva, acompanhado por parte da mídia alternativa internacional), ensino e saúde universais, Justiça equânime, uma mídia diversificada que seja a voz dessa sociedade como há 15 anos ocorre na Venezuela, não das megacorporações e da classe política portadoras da última palavra, o neoliberalismo enfim, é possível o Estado para a sociedade e não o estabelecido, como praticamente todos, a fim de defender sua própria manutenção, sua segurança, até para se defender e defender suas elites "da" sociedade e dos subprodutos que a ditadura do mercado do FMI, do Banco Mundial e afins (com os quais a Venezuela rompeu), inevitavelmente, produz. Já dizia o presidente norte-americano Woodrow Wilson, nos idos de 1913: "Ouve-se falar de concessões feitas pela América Latina ao capital estrangeiro, mas não de concessões feitas pelos Estados Unidos ao capital de outros países... É que nós não fazemos concessões". Tal escravatura que atende pelo nome de "liberdade econômica" imposta pelo poder imperialista apenas se agravou com o passar das décadas, estando hoje em seu estado mais avançado.

Tudo isso anda tirando o sono dos usurpadores do poder que jamais se preocuparam com o bem-estar do povo venezuelano nas décadas que se estenderam de 1958 a 1998, quando a sociedade local vivia na miséria, milhões foram torturados e mortos pelos regimes repressivos (apoiados pelos mesmos ditadores da verdade global de hoje), e os magnatas locais deleitavam-se com as reservas petrolíferas privatizadas colocando-às à disposição dos interesses daqueles que garantiam sua manutenção no poder: exatamente os Estados Unidos. Outro velho filme.

O futuro da democracia mundial depende, e muito como observa inclusive Ban Ki-moon, secretário geral da ONU, dos países latino-americanos progressistas (para Moon, padrões mundiais hoje no que diz respeito a direitos humanos, avanços sociais e integração regional). Se caírmos em mais esse engodo midiático, o retrocesso aos mais tenebrosos tempos aguarda a Amércica Latina: o Consenso de Washington de péssima memória da austeridade fiscal, redução dos investimentos sociais com políticas locais altamente corruptas e, se necessários aos interesses dominadores e exploradores, de linha dura.

Este 1% não quer democracia; a alta classe política, os banqueiros, as empresas petrolíferas norte-americanas (de posse da própria classe política), a indústria armamentista (lobby mais forte ao lado da sionista Aipac no Congresso dos EUA) entre outras, e os meios de comunicação que defendem liberdade de empresa e não de expressão, não buscam democracia, pelo contrário, defendem o acúmulo do capital que depende, decisivamente, da pobreza e da desinformação dos 99%.

Quando o secretário John Kerry reconheceu tardiamente Nicolás Maduro como presidente da Venezuela, em abril do ano passado, sem nenhuma justificativa para tal demora (a ONU e todos os outros países do mundo já haviam alegado tal reconhecimento), imediatamente a agressiva oposição local fez o mesmo. Existe um entendimento perfeito nas partes em questão, para as quais a mídia predominante desempenha papel-chave. São as mil mentiras e mil práticas antijornalísticas simultâneas que, certamente, surpreenderiam até os agentes da SS nazista.

Para a América Latina e para o mundo, a realidade é uma só e bem clara: conscientização e rechaço às mentiras, ou "a América para os norte-americanos" sob a política do "Big Stick" (Grande Porrete, e tudo isso idealizado publicamente pelos que sempre consideraram a região abaixo do Rio Bravo seu quintal, por direito). O Estado democrático da República Bolivariana da Venezuela se mantém uma vez mais intacta às investidas estrangeiras, devido sobretudo à conscientização societária decorrente de educação, como jamais o país viveu antes.

Com exceção a Cuba, nenhum Estado socialista democrático da região seguiu tanto tempo completamente intacto às diversas tentativas de golpe por parte dos Estados Unidos quanto a Venezuela nestes 15 anos de Revolução Bolivariana. Há motivos para acreditar que a democracia seguirá triunfando por toda a realidade social venezuelana, sobretudo educacional conforme apontado acima, além da integração latino-americana como jamais antes na história.

Mas não há plenas garatias de que a Venezuela não corre nenhum risco, pois o o Império mais que agoniza: está mais agressivo que nunca na história, e não costuma medir consequências para cometer crimes internacionais ensaguentando sociedades: apenas entre afegãos e iraquianos, são 3 milhões de mortos na conta de Tio Sam (ou do contribuinte norte-americano, quem banca tais empreitadas) desde 2001, por causa dos interesses petrolíferos e geopolíticos dos Estados Unidos, além de um mundo inteiro vigiado como jamais antes na história (recentes revelações de Julian Assange apontam que nos últimos 12 meses, a espionagem global inclusive contra civis, ativistas por direitos humanos e diplomatas simplesmente duplicou mesmo com todas as denúncias de Edward Snowden, minimizadas e esquecidas pela "grande" mídia).

Neste quesito temos nós, latino-americanos, os mais espionados do mundo, muita história para contar que remonta aos anos de 1950-60. Sabotagens, boicotes, torturas, assassinatos e golpes, tudo isso apoiado em mentiras midiáticas que invertem completamente os papeis, tratando sempre de demonizar determinados governos que não interessam ao regime de Washington, e se não bastasse ainda santificam este. Que o filme não se repita, mas a realidade inconteste é que o figurino político por trás das cortinas do teatro midiático diário não mudou nada, de lá para cá.

Nem os mais ingênuos, com exceção à "grande" mídia e os adeptos de retórica persuasiva, acreditam que os maiores violadores globais das leis internacionais e dos direitos humanos estão em busca de democracia na Venezuela e na América Latina. E nem muito menos acreditam que, enquanto cidades como Detroit estão simplesmente falidas, abandonadas aos fantasmas de um passado em que o capital fluía (a "grande" mídia não noticia), os lordes do bem-dizer portam a verdade sobre paz e política econômica, com capacidade de ditá-las a outros povos. Um outro mundo é possível, e urgente.

*É professor e escritor
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