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12 de março de 2014 - 12h52

Exercícios de guerra no Mar Negro são provocação da Otan


A Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan), aliança belicosa entre os EUA e a Europa, iniciou o que chama de "exercícios de guerra" na Polônia, vizinha da Ucrânia, e outro “treino” será realizado no Mar Negro, onde fica a península da Crimeia. Nesta terça (11), o Parlamento da região autônoma declarou sua independência da Ucrânia e inicia os preparos para um referendo, mas a escalada beligerante levanta graves preocupações sobre um possível confronto armado.


AP Photo
Porta-aviões USS George H.W. Bush, dos EUA, no Mar Negro, próximo à Grécia. Porta-aviões USS George H.W. Bush, dos EUA, no Mar Negro, próximo à Grécia.
Segundo o governo estadunidense, ambos os exercícios de guerra estavam programados antes da eclosão da crise na Ucrânia, em novembro de 2013, com a ascensão fascista e os protestos contra o governo, apoiados diretamente pelos EUA e pela União Europeia. A disputa por influência na região da antiga União Soviética remonta à Guerra Fria, com a mesma abordagem beligerante e agressiva novamente empregada pela Otan.

Entretanto, o governo russo tem enfatizado o impacto destrutivo da movimentação militar e do apoio ocidental a um governo interino ilegítimo, instalado após a derrubada inconstitucional do presidente Viktor Yanukovich, em fevereiro. O presidente russo, Vladmir Putin, questionou a posição ocidental, "negativa para o fortalecimento da democracia na região."

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A Crimeia, antiga província russa cedida de forma controversa à Ucrânia, em 1954, pronuncia-se contrariamente ao novo governo e declarou independência para a reintegração à Rússia, após a decisão popular no referendo, programado para domingo (16).

Neste contexto, os EUA e a Otan justificam os exercícios de guerra como se tratasse de uma programação comum, ao invés de suspendê-los, caso estivessem mesmo agendados, para preservar a pouca estabilidade restante à região e facilitar a diplomacia entre os envolvidos.

Provocação e militarismo


Na terça-feira (11), os treinamentos foram iniciados na Base Área de Lask, na Polônia, enquanto ao menos 12 caças F-16 e 300 militares estadunidenses devem chegar nesta quinta (13). O presidente da Polônia, Bronislaw Komorowski, disse, em relação aos esforços militares poloneses, que “eventos a leste” são a razão para proteger os gastos do setor em uma época de austeridade, já que a Europa está em recessão e esta é a política generalizada aplicada pelos governos, condicionados pelos credores internacionais, com cortes no setor social.

“Espero que os eventos no leste da fronteira polonesa, que também é a fronteira da Otan, encorajem decisões mais duras com relação à segurança da Polônia”, disse o presidente, citado pela agência de notícias Reuters.

De acordo com a emissora Russia Today, a decisão de enviar caças estadunidenses resultou de uma conversa telefônica entre o secretário de Defesa dos EUA, Chuck Hagel, e o seu homólogo polonês, Tomasz Siemoniak, no domingo (9). Embora as autoridades estadunidenses afirmem que os exercícios já estavam programados, Siemoniak disse que sua configuração planejada era bem menor, com aviões apenas para transporte, mas o ministro teria pedido aos EUA que enviassem caças devido à situação na Crimeia.

A Otan também teria autorizado os voos de “reconhecimento” do seu sistema de controle aéreo sobre a Polônia e a Romênia para “monitorar a crise na Ucrânia”, partindo de bases aéreas na Alemanha e no Reino Unido. Na semana passada, seis caças F-15 estadunidenses na Lituânia também foram adicionados à “patrulha aérea” da Otan no espaço aéreo dos Bálcãs.

Segundo o secretário de Estado dos EUA, a “resposta aos pedidos” de envio de mais caças deve ser vista como “passos concretos para apoiar nossos aliados na Otan.” Enquanto isso, as condições climáticas atrasaram a parte naval dos exercícios militares dos EUA com a Bulgária e a Romênia por 24 horas.

O contratorpedeiro (um navio de guerra) da Marinha estadunidense, o USS Truxtun, já cruzou o estreito do Bósforo, na Turquia, e entrou no Mar Negro, no sábado (8). O navio conta com 300 oficiais na tripulação e é um dos maiores contratorpedeiros já construído para a Marinha estadunidense e deve chegar ao posto búlgaro até a sexta-feira (14).

Uma fragata naval búlgara e três navios romenos participarão dos exercícios, que serão realizados em águas internacionais, mas na região do porto de Sevastopol, a principal cidade da Crimeia, onde a frota russa no Mar Negro está posicionada.

Ingerência política destrutiva e antidiplomática

Os Estados Unidos, que já reconheceram o governo golpista na Ucrânia, disseram que não vão reconhecer o referendo organizado pelo Parlamento da Crimeia, e que deve resultar na secessão da Ucrânia para a reintegração à Rússia, segundo as pesquisas de opinião na região. Já o governo russo afirmou que só debaterá a questão após o referendo.

  Foto: Reuters

   Cidadãos da Crimeia são instados a votar no referendo à declaração de independência da região autônoma da
   Ucrânia para a reintegração à Rússia. No cartaz, a opção entre permanecer atado a um governo golpista e fascista
   na Ucrânia ou integrar a Rússia.


Na península, a crise ucraniana se instalou quando tropas sem insígnias nacionais ocuparam aeroportos e outros locais estratégicos, em 28 de fevereiro. O Ocidente alega que os soldados estão sob o controle russo, uma acusação que o presidente Vladmir Putin nega veementemente, embora um acordo com o governo ucraniano ainda em vigor permita à Rússia a alocação de 25 mil soldados na Crimeia.

Apesar da sua própria projeção militar e da ocupação direta em vários países do mundo, com operações agressivas que violam completamente o direito internacional, unilateralmente ou através da Otan, os EUA acusaram a Rússia de “agressão militar contra a Ucrânia”. Além disso, outra medida ilegal, o reconhecimento do governo inconstitucional no país, determina o aumento das tensões, após as manifestações em grande parte fascistas vistas nas ruas por quase quatro meses.

Ainda assim, Putin mantém a racionalidade e o apelo à legalidade internacional, dizendo que qualquer ação militar só ocorreria como “último recurso”, para proteger os cidadãos russos, que conformam mais da metade da população na Crimeia.

Além disso, o governo russo tem mantido a sua posição na defesa do diálogo político para a solução de mais esta crise internacional em que os EUA contam com o uso da força. Entretanto, ao mesmo tempo em que aumentava a sua participação nos exercícios de guerra da Otan, o governo estadunidense cancelou a reunião entre o secretário de Estado John Kerry e o chanceler da Rússia, Serguei Lavrov.

Da Redação do Vermelho
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