Brasil

16 de fevereiro de 2014 - 9h47

Osvaldo Bertolino: A Copa do Mundo é nossa! Por que não seria? 

O futebol como arte popular é um conceito quase unânime no Brasil. Mas a realização da Copa do Mundo de 2014 no país tem suscitado polêmicas que vão além do esporte. Entram pelo mundo da manipulação política e da tentativa de afastar o povo das arenas esportivas.

Por Osvaldo Bertolino* 


Público da transmissão pública da Copa das Confederações no Vale do Anhangabaú, em São Paulo.  Público da transmissão pública da Copa das Confederações no Vale do Anhangabaú, em São Paulo. 
Público da transmissão pública da Copa das Confederações no Vale do Anhangabaú, em São Paulo
Trajadas de preto da cabeça aos pés, e parecendo saídas das peças do imortal Federico Garcia Lorca, velhinhas espanholas costumam murmurar um conhecido adágio: “Yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay.” O sussurro fatalista significa que elas renegam a existência de feiticeiras — não se espantariam, porém, diante de silhuetas de mulheres cavalgando vassouras, recortadas contra a luz da lua cheia.

Esse ditado pode ser transposto para ambientes mais coloridos: a confraria dos manifestantes que reivindicaram uma ampla pauta, percorrendo as ruas do país e gritando que sentem orgulho de serem brasileiros. No meio deles há os que atiram palavras de ordem contra o governo, os “políticos”, os partidos e mais uma variada gama de assuntos, entre os quais os estádios e a Copa do Mundo de 2014.

Pode-se — claro, claro — ser contra a Copa (e eventualmente manifestar esse descontentamento nas ruas e nas urnas). Só não se pode ser ingênuo a ponto de acreditar nas graves questões de "princípios" erguidas por essa grita criminosamente colhida e depois habilmente manipulada pela mídia. Anjos de candura, os prelados dessa armação alegam passar longe de tamanha vilania. Suas práticas, mais antigas do que andar para frente, contudo, recomendam que a situação seja examinada com lupa de precisão.

Há defuntos frescos que sugerem o contrário do que dizem. São os casos de números saídos sabe Deus de onde, divulgados a torto e a direito por jornais, revistas, portais, rádios e televisões da mídia, cabalmente desmentidos pela realidade e por uma nota sucinta e precisa do Ministério do Esporte. É possível que muitos dos que se manifestam nas ruas com esses dados manipulados na ponta da língua não tenham consciência dos números reais que estão nos alicerces das obras da Copa.

A nota do Ministério do Esporte esclarece que há uma linha de empréstimos, via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com juros e exigência de todas as garantias bancárias, como qualquer outra modalidade de crédito do banco. O teto do valor do empréstimo, para cada arena, é de R$ 400 milhões, estabelecido em 2009, valor que permanece o mesmo.

O BNDES tem taxas de juros específicas para diversas modalidades de obras e projetos. O financiamento das arenas faz parte de uma dessas modalidades. "Estão fazendo um paralelo entre os recursos para a Copa e em saúde e educação. É bom destacar que, somente este ano, o orçamento das duas áreas é de R$ 177 bilhões. O orçamento do Ministério do Esporte é aproximadamente 1% desse total. Portanto, não há desvio de recursos de outras áreas para a construção de estádios", explicou Aldo Rebelo.

O ministro disse também que melhorias no transporte de pessoas é o maior destino dos investimentos feitos para a competição. Segundo ele, os recursos, em sua quase totalidade, estão previstos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). "É um legado importante que seria construído nas cidades, independentemente de ter Copa do Mundo ou não", reforçou. Além do mais, os que pregam pela cartilha da mídia desconsideram os números do estudo “Brasil Sustentável — impactos sócio-econômicos da Copa do Mundo de 2014”, realizado pela consultoria Ernst & Young em parceria com a Fundação Getúlio Vargas.

Mais do que um campeonato internacional, a Copa irá mudar a cara do Brasil, segundo o estudo. E não apenas nas 12 cidades-sede. O mundial deve injetar R$ 142 bilhões na economia brasileira de 2010 a 2014. A avalanche de recursos irá criar 3,63 milhões de empregos, além de adicionar R$ 63,48 bilhões à renda da população. Diz o estudo que a Copa 2014 trará R$ 142 bilhões ao Brasil. Além dos investimentos diretos na Copa, outros R$ 112,8 bilhões serão injetados na economia com o crescimento de setores como construção civil, turismo e comércio.

No período 2010-2014, o número de turistas internacionais deve crescer em 2,98 milhões, alcançando 7,4 milhões no ano da Copa. Nos quatro anos, deverão ser geradas receitas adicionais de R$ 5,94 bilhões. Para o ano do campeonato, serão nada menos do que US$ 8,73 bilhões trazidos ao país com gastos de turistas. As cidades-sede — Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo — irão receber cerca de R$ 14,54 bilhões de investimento em infraestrutura. O montante investido deve adicionar às receitas municipais R$ 7,18 bilhões.

A outra face dessa moeda brasileira é a valorização da importância do futebol para o povo — conforme esta Princípios tem mostrado. Na edição de junho de 2010, por exemplo, Aldo Rebelo — à época deputado federal do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) por São Paulo — comentou em entrevista exclusiva que a habilidade dos jogadores negros e mestiços se impôs contra o preconceito que havia nos clubes. Com a Revolução de 1930, que abriu as portas para “os de baixo” e representou um marco importante na formação do Brasil e da nacionalidade, o futebol se popularizou ainda mais.

Segundo Aldo Rebelo, Getúlio Vargas tinha a percepção de que o futebol poderia ter um papel importante na unidade e na consolidação de uma identidade do país. “O futebol era praticamente amador, ou artesanal. O jogador praticava sua arte não para o mercado, mas para o grupo de admiradores ou de adeptos, como um artesão. Então, creio que a Revolução de 1930 e Getúlio compreenderam esse papel do futebol”, explicou. Para Aldo Rebelo, a conquista da Copa de 1958 representou a consolidação do futebol como identidade nacional. “As pessoas podiam até não saber quem tinham sido José Bonifácio, Tiradentes — o que é lamentável —, mas sabiam quem eram Didi, Pelé, Garrincha, Vavá etc.”, disse ele.

Ainda assim, o futebol brasileiro chegou ao seu auge enfrentando preconceitos. Em uma crônica de 1965, o escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues escreveu: “Há três dias aconteceu no Maracanã a batalha entre o Brasil e a Bélgica. Todos os brasileiros mortos e vivos estavam lá. Defuntos de algodão nas narinas atravessavam as borboletas. Tinham pulado os muros do além para torcer. Só um brasileiro faltou: o sociólogo. Entre cento e tantos mil patrícios, não vi uma única e escassa flor da sociologia.” Para Aldo Rebelo, a distância história da intelectualidade em relação ao futebol também se explica por uma lógica invertida.

Segundo o ministro, havia uma desconfiança dos intelectuais mais críticos, como Lima Barreto e Graciliano Ramos, por ser o futebol um esporte organizado a partir dos clubes de elite. “Talvez não tenham convivido com os modernistas em São Paulo, pois assim teriam compreendido a antropofagia e quem sabe percebessem que, embora trazido ao Brasil por estudantes da elite, por estudantes da aristocracia, era facilmente percebido pelo povo como uma coisa dele”, comentou. Gilberto Freyre teve outra compreensão — ele escreveu ensaios que tratam do futebol de depois da Semana de Arte Moderna e da Revolução de 1930. O intelectual marxista Antônio Gramsci também: ele teria dito que “o futebol é o reino da liberdade humana, exercida ao ar livre".

O sociólogo Florestan Fernandes foi outro que detectou a essência da popularização do futebol no Brasil em artigo no jornal Folha de S. Paulo de 13 de junho de 1994, quando escreveu que essa modalidade esportiva irradiou-se por toda a sociedade e tornou-se o emblema da hegemonia popular sobre a cultura das elites. Atestando sua popular característica criativa, o historiador Eric Hobsbawm faz referência a um maestro, diretor de uma orquestra francesa, que não perdia um jogo da seleção brasileira porque achava que não existia nada mais próximo da arte. E o próprio Hobsbawm, em sua obra Breve história do século XX, pôs o futebol no capítulo da cultura. “Quem, tendo visto a seleção brasileira em seus dias de glória, negará sua pretensão à condição de arte?”, escreveu o historiador.

O mundo do futebol é apaixonante, mas é preciso perceber as suas idiossincrasias. Parafraseando Spinoza (Baruch, o filósofo holandês, não Valdir, o ex-jogador e hoje técnico), "nem rir, nem chorar; apenas entender". A preocupação do ministro do Esporte com a elitização do futebol chama a atenção e faz pensar. Pode-se dizer que o caminho escolhido pela seleção brasileira e os principais clubes do país leva-os de volta aos tempos em que o futebol era privilégio cultural das elites a que se referiu Florestan Fernandes. A mídia assumiu isso de frente e, de costas, nos roça com sua arte bruta, informe, redutora.

Um título futebolístico tem papel tão derivativo quanto mudanças na cotação do real em relação ao dólar no futuro ou a taxa de juros embutida numa ação da Petrobras. O prestígio esportivo da seleção brasileira, por exemplo, ajudou a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) a transformar o time em uma máquina de fazer dinheiro. Muito mais significativo do que as cifras envolvidas é o movimento por trás delas. Mais da metade da receita anual da seleção brasileira é garantida por três grandes contratos de patrocínio — com a Nike, com a Ambev e com a Vivo.

Até a década de 1980, o time era sustentado por verbas do Estado, segundo o ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Aos poucos, as estatais foram sendo substituídas por empresas privadas. Os valores dos contratos de patrocínio alcançaram novo patamar quando a Nike se tornou parceira da seleção, em 1996. Até hoje a multinacional norte-americana contribui com parte substancial do faturamento da equipe: são US$ 12 milhões por ano. Outra fatia importante vem das cotas pagas ao time pelos amistosos disputados no exterior.

Nesse caso, vem sendo também registrado aumento substancial de valores ao longo dos últimos anos. Os direitos de transmissão de cada uma das partidas disputadas pela seleção são vendidos pela CBF à Rede Globo, que tem contrato de exclusividade. A emissora paga US$ 600 mil por evento à entidade. Até mesmo os períodos de treinos e concentrações são usados para aumentar os lucros da CBF. Nas semanas que antecederam a estreia na Copa da Alemanha, em 2006, por exemplo, a seleção recebeu US$ 1,2 milhão para se hospedar no luxuoso Park Hotel Weggis, na região de Lucena, na Suíça.

Os negócios da CBF foram alvo de duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs), uma na Câmara dos Deputados e outra no Senado. O relatório final das investigações apontou indícios de 17 crimes envolvendo os principais dirigentes do futebol brasileiro, como evasão de divisas, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro.

A Fédération Internationale de Football Association (Fifa) também está toda contaminada por esta lógica. Em um artigo publicado na revista científica Lancet, alguns médicos questionaram a inclusão de companhias como a cervejaria Budweiser, a indústria de refrigerantes Coca-Cola e a cadeia de fast-food McDonald's como parceiros oficiais da Fifa. Segundo os autores do artigo, a entidade tem a obrigação de evitar relacionamentos com patrocinadores que não sejam adequados. Após a Copa de 2002, a Fifa recebeu uma premiação pelo combate ao fumo por ter feito o torneio com severas restrições a fumantes e rejeitando anunciantes ligados a empresas de tabaco.

Na Copa da França, em 1998, os anúncios de bebidas alcoólicas ficaram fora dos estádios. E nem por isso os franceses deixaram de mandar a campo um time impressionante. O lema da Copa, C est beau, un monde qui joue (É bonito, um mundo que joga), completava aquela combinação de esporte e lazer. Mas era um esforço isolado. Ali perto, na Inglaterra, a Federação Inglesa de Futebol já era patrocinada pelo McDonald's. O futebol do país está tomado por grupos econômicos — alguns deles operando com dinheiro de duvidosa procedência.

O renascimento do futebol no Reino Unido aconteceu a partir de 1992, quando o magnata da mídia Rupert Murdoch e a British Sky Broadcasting investiram milhões de libras esterlinas, pagando pelos direitos de transmissão ao vivo das partidas (até aquele momento, não havia cobertura ao vivo dos jogos das equipes inglesas) — um modelo copiado em vários lugares, inclusive no Brasil.

No Brasil, há, evidentemente, motivos para protestos, como ressaltou o ministro do Esporte, Aldo Rebelo. Segundo ele, o governo federal está preocupado com o encarecimento dos ingressos nos novos estádios. "Não queremos que a população mais pobre do país, que está mais ligada ao futebol, seja afastada dos estádios. É preciso compatibilizar o acesso entre eles e o torcedor de poder aquisitivo mais alto", disse o ministro.

Aldo Rebelo considera a possibilidade de alguma intervenção do governo para garantir ingressos mais baratos, a exemplo do que aconteceu na Copa das Confederações e na Copa do Mundo, com a criação de quatro categorias e a doação de 50 mil ingressos para beneficiários do Bolsa Família e indígenas. Segundo o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, na Copa os ingressos serão os mais baratos da história da competição. A entidade máxima do futebol informou que tudo será divulgado no próximo dia 19 de julho. (Em 2010, na África do Sul, o bilhete com custo menor foi de US$ 20 — cerca de R$ 44.)

O dilema sobre o papel cultural do futebol no Brasil é antigo. Em 1921, Lima Barreto escreveu: “Quando não havia futebol, a gente de cor podia ir representar o Brasil em qualquer parte. Mas apareceu o futebol dirigido por um ‘ministreco’ enfatuado e sequioso de celebridade, logo tal esporte bretão, de vários modos, cavou uma separação idiota entre os brasileiros. É a missão dele. De modo que ela, a tal separação, não existe no Senado, na Câmara, nos cargos públicos, no Exército, na magistratura, no ministério; mas existe no transcendente futebol. Benemérito futebol. E ainda dizer-se que o governo dá gordas subvenções aos perversos de semelhante brutalidade, para eles insultarem e humilharem quase a metade da população do Brasil — é o cúmulo! E note-se que o dinheiro que o governo lhes dá, provém de impostos que todos pagam, brancos, pretos e mulatos. Dinheiro não tem cheiro, afirmava Vespasiano.”

Em 1922, o mesmo Lima Barreto, já balançado pela popularização do futebol, relatou: “O futebol flagela também aquelas paragens como faz o Rio de Janeiro inteiro. Os clubes pululam e os há em cada terreno baldio de certa extensão. Nunca lhes vi uma partida, mas sei que as suas regras de bom tom em nada ficam a dever às dos congêneres dos bairros elegantes. A única novidade que notei, e essa mesmo não me parece ser grave, foi a de festejarem a vitória sobre um rival, cantando os vencedores pelas ruas, com gambitos nus, a sua proeza homérica com letra e música de escola dos cordões carnavalescos. Vi isso só uma vez e não garanto que essa hibridação do samba, mais ou menos africano com o futebol anglo-saxão, se haja generalizado nos subúrbios. Pode ser, mas não tenho documentos para tanto afiançar.”

Recentemente, o ministro Aldo Rebelo fez uma tirada que explica bem esse dilema ao responder a uma pergunta sobre a possibilidade de que o Estádio Nacional de Brasília se transforme em “elefante branco” após a Copa: "A opinião desse pessoal não é que o estádio é um elefante branco. Acham que Brasília, a cidade em si, é um elefante branco. Acham que, no fundo, o Brasil é um elefante branco, que talvez o Brasil não tivesse nem de ter saído do status de colônia. Para eles, continuaria sendo colônia, e de preferência que não fosse portuguesa, mas francesa ou britânica. Sentem inveja da Guiana e outros países que são colônia até hoje."

Em seu tempo, Lima Barreto tinha a mesma opinião: “Nós, os brasileiros, somos como Robinsons — estamos sempre à espera do navio que nos venha buscar da ilha a que um náufrago nos atirou.”

*Osvaldo Bertolino é jornalista, editor do Portal Grabois e colaborador da Revista Princípios.

**Este artigo foi publicado no encarte O Grito das Ruas em Disputa, da revista Princípios, edição 125, de junho-julho de 2013. 
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