Brasil

1 de fevereiro de 2014 - 12h32

Copa do Mundo no Brasil: Impactos e legados


O Brasil é considerado a nova Meca dos megaeventos esportivos. Em poucos anos, o país saltou da periferia ao centro do cenário esportivo mundial. Nenhuma nação obteve igual sucesso em atrair eventos dessa magnitude em tão curto tempo. No ensaio que segue são destacados alguns impactos e legados dos megaeventos, com especial atenção aos deslocamentos e reassentamentos urbanos e às ações governamentais em ciência, tecnologia e informação na área do esporte.

Por Alberto Reinaldo Reppold Filho*


Por que as cidades se candidataram a sediar a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos? Quem ganha e quem perde com esses eventos? O que podemos aprender com os eventos esportivos realizados em outros países? Que ensinamentos retiramos da organização dos Jogos Pan-Americanos e da Copa das Confederações? Essas são algumas perguntas a que os estudiosos dos megaeventos esportivos procuram responder.

As respostas não são fáceis. Os megaeventos esportivos são fenômenos complexos e multifacetados, cuja compreensão exige, muitas vezes, que os pesquisadores transcendam os olhares disciplinares e adotem perspectivas multi e interdisciplinares.

Nas últimas duas décadas, os megaeventos esportivos foram estudados por pesquisadores de diferentes disciplinas. São significativas as contribuições da economia, da administração, da geografia e da sociologia. Mais recentemente, especialistas em planejamento urbano, em turismo e meio ambiente ampliaram a compreensão desses eventos.

Atualmente, os estudos multidisciplinares experimentam um crescimento considerável. Nas pesquisas sobre impactos e legados de megaeventos esportivos, é comum pesquisadores de diferentes disciplinas trabalharem de maneira colaborativa, compartilhando ideias e informações, embora mantendo-se dentro dos limites conceituais e metodológicos das suas disciplinas.

As interrogações atuais sobre os impactos socioambientais dos megaeventos esportivos, por exemplo, estão a exigir que os pesquisadores atravessem fronteiras disciplinares em busca de abordagens mais integradoras. Em face desse desafio, a interdisciplinaridade se coloca como uma possibilidade. A característica essencial da interdisciplinaridade é a integração de conceitos, terminologias, métodos e dados em conjuntos mais amplos, favorecendo, assim, uma visão holística do objeto em questão.

Prós e Contras

Até a década de 1980, havia uma convergência de opiniões entre comunidade acadêmica, administradores públicos e investidores privados, de que sediar megaeventos esportivos era um risco financeiro e administrativo para a cidade e para as instituições organizadoras. Essa visão reforçava-se pelos prejuízos financeiros nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, e nos de Montreal, em 1976. Entretanto, os lucros atingidos nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, chamaram a atenção para a possibilidade de esses eventos trazerem benefícios econômicos e sociais para as cidades-sede.

Os estudos sobre megaeventos esportivos demonstram que, quando bem planejados, esses eventos oferecem importantes vantagens para as cidades e os países-sede, deixando como legado instalações esportivas, promovendo estímulo à economia e à construção civil e incrementando o turismo. Esses eventos representaram também um incentivo para melhorias urbanísticas e na infraestrutura. Além disso, a exposição continuada na mídia melhora substancialmente a imagem da cidade, nacional e internacionalmente.

Entretanto, estes estudos deixam também importantes lições que, por seus aspectos negativos, necessitam ser consideradas pelas cidades quando da candidatura e organização de eventos esportivos desta natureza. Sob o ponto de vista da opinião pública, ocorrem críticas de que as candidaturas e a organização dos Jogos não são suficientemente discutidas com a comunidade e que as informações relevantes ficam restritas a pequenas parcelas da população.

Além disso, e talvez mais importante, estes estudos têm apontado que as comunidades carentes e com menos capacidade de organização política são as que mais perdem com os megaeventos esportivos.

Alguns exemplos

Os Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, são exemplo de planejamento e organização de um megaevento esportivo. Os Jogos foram pensados como forma de realizar alterações profundas na infraestrutura urbana e de transformar a cidade em um centro internacional de turismo e de negócios. Para que isso se efetivasse, houve um enorme investimento de recursos públicos, cerca de 7 bilhões de dólares, bem como um apoio efetivo da população. A cidade até hoje colhe os frutos do evento.

Passados quase 20 anos desde a sua organização, os Jogos Olímpicos de Atlanta, realizados em 1996, fornecem importantes lições para as cidades que pretendem sediar eventos com dimensões similares. No geral, os Jogos trouxeram benefícios para a cidade. Os resultados indicaram que houve um estímulo econômico de curto prazo e de médio prazo. Além disso, o legado em termos de instalações esportivas e de imagem foi significativo. Todavia, o evento não provocou o impacto social esperado, atingindo de maneira negativa a população mais pobre.

A experiência dos Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio de Janeiro, deixou sérias dúvidas sobre a capacidade do país em organizar eventos esportivos de grande magnitude. Mesmo sendo um acontecimento menor quando comparado à Copa do Mundo de Futebol e aos Jogos Olímpicos, o Pan 2007 deixou uma ideia dos desafios a serem enfrentados: gastos acima dos previstos, suspeitas de desvio de recursos e de superfaturamento nas compras, instalações subutilizadas, para mencionar apenas os problemas mais conhecidos do público.

Por essa razão, a escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016, na época recebida com entusiasmo pelas lideranças políticas e esportivas do país, hoje é vista com resistência e ceticismo por uma parcela significativa da população brasileira.

Em resumo, os megaeventos esportivos representam uma oportunidade para fazer alterações na cidade e no país-sede, tanto em infraestrutura, como em projetos sociais. Entretanto, as deficiências de planejamento e organização, entre outros fatores já mencionados, podem transformar esses eventos em um peso para os governos e para a população.

Um ponto crítico

Os deslocamentos e reassentamentos de populações urbanas decorrentes de obras da Copa do Mundo de Futebol e dos Jogos Olímpicos são um dos pontos críticos da realização dos megaeventos esportivos. Aqui é necessário todo cuidado.

As pessoas estão nas suas regiões da cidade, levando suas vidas, algumas estabelecidas nesses locais há vários anos. Vivem ali, articuladas com a sua comunidade, seus vizinhos, seus amigos, seu trabalho, seus espaços de lazer. Em razão dos megaeventos, essas pessoas são deslocadas para outras regiões da cidade. Passam a viver com pessoas que têm tradições, hábitos e histórias de vida, por vezes, completamente diferentes dos seus.

As dificuldades de adaptação a essas novas circunstâncias são dramáticas. Os impactos desses deslocamentos, sobretudo em crianças, são similares aos experimentados pelos desabrigados e foragidos de guerras e catástrofes naturais. Dentro de um modelo de cidade que valoriza a cidadania, estas pessoas não podem ser deslocadas para regiões que apresentam condições ainda piores daquelas onde vivem. Um aspecto fundamental é garantir um reassentamento com infraestrutura, em condições adequadas, com acesso à escola, à saúde, ao transporte, aos espaços de esporte e lazer.

Outro ponto a considerar é de que a indenização seja feita de acordo com o valor do imóvel. É importante o aviso prévio e que seja dado o tempo necessário para que as pessoas organizem sua mudança. São muitos os casos em que a legislação é flexibilizada diante da urgência que cerca os megaeventos e as pessoas ficam anos lutando na justiça para garantir os seus direitos. Em áreas pobres, muitas pessoas não detêm a posse dos locais onde moram e a indenização se torna difícil. Há que se garantir o direito dessas pessoas. Existem vários registros de violações neste sentido decorrentes dos Jogos Olímpicos e da Copa do Mundo de Futebol.

Por fim, é importante mencionar que estas comunidades, quando percebem que serão atingidas diretamente pelas obras necessárias para a realização dos megaeventos esportivos, já não conseguem se organizar e arregimentar força política para fazer valer os seus direitos.

Ciência, tecnologia e informação na área do esporte


Em ciência, tecnologia e informação esportiva, vários projetos estão em andamento motivados pelos megaeventos que acontecerão no país. O Ministério do Esporte, com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), está realizando o Diagnóstico Nacional do Esporte (Diesporte). O projeto vem sendo implementado por uma rede de universidades federais e visa a atender a uma demanda da comunidade esportiva brasileira apresentada nas três conferências nacionais do esporte.

O Diesporte apresentará um perfil do praticante de atividade esportiva no país, organizado por sexo, faixa etária, escolaridade, nível socioeconômico, entre outras variáveis. Além disso, fornecerá um conjunto de informações sobre os tipos de atividades esportivas mais praticadas e sobre os motivos, a frequência e os locais dessas práticas. O estudo abrange também o não-praticante, identificando os fatores que inibem a sua participação em atividades esportivas.

O projeto prevê também um levantamento da legislação, do financiamento e da infraestrutura esportiva no país. Os resultados do Diesporte servirão para a formulação de políticas públicas, cujo objetivo é a democratização do acesso às atividades esportivas no país. O Diagnóstico pode ser considerado um legado científico, tecnológico e de informação, uma vez que a sua elaboração envolve produção de conhecimento, desenvolvimento de metodologia de coleta e armazenamento de dados, e sistema para a disponibilização de informações para diferentes segmentos do esporte brasileiro.

O Projeto Referências é outra iniciativa do Ministério do Esporte que, em 2016, quando finalizado, deixará um legado para o esporte brasileiro, em especial para as futuras gerações olímpicas e paraolímpicas. O Projeto tem por objetivo realizar um mapeamento das modalidades olímpicas e paraolímpicas no país nos seguintes aspectos: financiamento, modelos de gestão, infraestrutura e equipamentos, recursos humanos (atletas, treinadores, árbitros, gestores e dirigentes), suporte ao atleta, apoio científico e tecnológico ao esporte, programas de identificação de talentos esportivos, participações e desempenho em competições nacionais e internacionais.

Os resultados servirão para subsidiar o plano nacional de esporte de alto rendimento. O Projeto exige o desenvolvimento de uma metodologia de mapeamento, com o uso de diferentes tecnologias. A equipe de trabalho é composta por pesquisadores de universidades brasileiras. O Projeto Referências deixará um legado de conhecimento significativo nas diferentes áreas das ciências do esporte.

Existe um legado considerável de conhecimento sobre o planejamento e a organização de megaeventos esportivos, em particular sobre os seus impactos e legados. Nesse sentido, o Ministério do Esporte vem apoiando com recursos financeiros a realização de eventos e publicações sobre o assunto. Em parceria com universidades, sociedades científicas, organizações profissionais e entidades esportivas, importantes documentos foram produzidos. Os estudos mais significativos foram: Atlas do Esporte no Brasil (2005) e Legados de Megaeventos Esportivos (2008). Essas obras contaram com a participação de pesquisadores de instituições do país e do exterior.

Em 2013, o Ministério da Educação e o Ministério do Esporte instituíram um grupo de trabalho interministerial para elaborar o projeto da Universidade do Esporte. Conforme a Portaria Interministerial, a Universidade será “voltada à excelência esportiva e ao esporte de alto rendimento, tendo como referência o legado da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016”.

A iniciativa brasileira exige uma análise detalhada da experiência de outros países que possuem instituições congêneres. A Universidade de Esportes de Colônia, na Alemanha, representa o modelo mais bem sucedido desse tipo de instituição universitária. Criada em 1970, tem contribuído de maneira significativa para o ensino e a pesquisa em diferentes áreas das Ciências do Esporte.

Com cerca de 5.500 estudantes de graduação e pós-graduação, exige investimentos financeiros de grande porte para manter sua infraestrutura e pessoal. O exemplo mais recente é o da Universidade Olímpica Internacional da Rússia (RIOU), criada na cidade de Sochi, em 2009. A RIOU foi concebida como um legado dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014 e tem como objetivo dar formação para ex-atletas e auxiliá-los a construírem uma carreira após deixarem de competir. Trata-se da primeira universidade estabelecida em parceria com o Comitê Olímpico Internacional.

Conforme o jornal The Moscow Times a construção da universidade custou 500 milhões de dólares. O Brasil, com mais de 850 cursos de graduação em educação física e com programas de mestrado e doutorado já consolidados, deve pensar com cuidado a criação de uma universidade desse tipo. Uma alternativa menos onerosa e talvez mais eficiente seria buscar uma articulação maior entre as universidades já existentes no país, criando uma rede de ensino e pesquisa. O ensino à distância, da mesma forma que utilizado para outras áreas, pode ser utilizado para a formação de pessoal para o esporte.

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação também tem promovido ações que podem ser caracterizadas como um legado de conhecimento para o esporte. Em 2012, o 26º Prêmio Jovem Cientista – cujos objetivos são promover a reflexão e a pesquisa, revelar novos talentos e investir em jovens pesquisadores – teve como tema a Inovação Tecnológica nos Esportes.

Entre as linhas de pesquisa propostas aos participantes encontravam-se temas de considerável importância para o esporte no país: gestão esportiva empreendedora e inovadora; tecnologias de comunicação e informação aplicadas aos esportes; materiais sustentáveis, eficientes e duráveis para infraestrutura e edificações esportivas; produtos inovadores em tecnologia e design de vestuários esportivos, entre eles os chamados “tecidos inteligentes”. Neste ano, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia tem com tema: Ciência, Saúde e Esporte. Até o momento, estão previstas 86 ações, no Distrito Federal e em 17 estados.

Considerações finais

A escolha das cidades e dos países como sedes de megaeventos esportivos é geralmente comemorada pelos governantes nacionais e locais como um grande feito. Esses eventos são vistos como oportunidades para investimentos que melhorarão a vida dos seus habitantes.

Isso, contudo, nem sempre se confirma na prática. Nem sempre bancar os custos desses eventos é bom negócio.

Esse parece ser o maior desafio do governo brasileiro frente à Copa do Mundo de Futebol e aos Jogos Olímpicos. O volume substancial de recursos públicos envolvidos exige do governo transparência, controle e eficiência quanto ao uso desses recursos. Tal postura será fundamental para que esses eventos tenham impacto positivo e deixem legados de longo prazo para o país.

*Alberto Reinaldo Reppold Filho é diretor da Escola de Educação Física e coordenador do Centro de Estudos Olímpicos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Doutor em Educação pela Universidade de Leeds, no Reino Unido

Referências bibliográficas

DACOSTA, Lamartine (org.). Atlas do Esporte no Brasil. Rio de Janeiro: Shape, 2005.
__________. et al (org.) Legado de Megaeventos Esportivos. Brasília: Ministério do Esporte, 2008.

Publicado originalmente na revista Princípios, edição 127 (outubro-novembro/2013).


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