Brasil

16 de janeiro de 2014 - 8h33

Aline Rodrigues: “Rolezinhos” – surpresas ou revelações?


Jovens posam para foto durante um "rolezinho", sem armas, sem roubos, sem violência.  Jovens posam para foto durante um "rolezinho", sem armas, sem roubos, sem violência. 
Ser contra os encontros de jovens alegando que estes “deveriam procurar algo melhor para fazer” ou determinando sua predisposição ao crime se soma a outros clichês sustentados pela nossa cultura individualista e segregacionista, e não elimina nem resolve o confronto social que se revela. Tampouco, a apologia ingênua ao possível caráter “de massa” e de protesto destes encontros serve para compreender este movimento, de onde veio e para onde pode ir.

O que sabemos com certeza, é que houve estes encontros em shoppings de grandes cidades, a maioria deles, sem roubos e sem porte de armas por parte da galera. Mesmo assim, a perseguição, a repressão e as detenções ocorreram, a maioria sem justificativa legal.

A novidade, a surpresa, o choque da sociedade se deu em relação à entrada em massa de jovens nos shoppings ou em relação à perseguição policial?

A primeira hipótese de choque se anula quando vemos vídeos de jovens na internet realizando grandes encontros com muito barulho e palavras de ordem em praças de alimentação de shoppings, um deles, de estudantes de economia da USP. No máximo, as demais pessoas, que não participavam destas festas, olhavam de longe e seguiam andando.

A segunda hipótese é mais problemática pelo local onde ocorreu, porém, não tão incomum, quando observamos os números da violência contra jovens no Brasil, que choca a organização das Nações Unidas, enquanto, na nossa realidade nacional, esta violência contra jovens se naturalizou e se integrou ao nosso cotidiano.

Aliás, é muito mais comum enxergarmos nossos jovens mais como possíveis marginais do que como seres portadores de sonhos. Este estigma nos choca quando vemos jovens da periferia saírem do gueto para sonharem com seus objetos de consumo e com o padrão de vida que poderiam ter se não fossem pobres. Divertirem-se fora do gueto, ultrapassarem a linha divisória que divide frequentadores de shoppings e o “resto” da população foi a grande transgressão deste fenômeno.

Alguns poderão argumentar que nosso país não é tão segregado assim, que não chegamos a viver um apartheid social. Realmente, nosso apartheid não é idêntico ao que ocorreu na África do Sul. Porém, diversos dados demonstram que há lugares frequentados exclusivamente por brancos em nosso país, onde a entrada de negros ou de qualquer indivíduo de origem mais humilde só se dá com a finalidade de prestar serviços de baixa remuneração. Estes lugares geralmente envolvem postos de comando e prestígio social. Existem muitos estudos em sociologia sobre o fenômeno da segregação social no Brasil pela “origem” (um exemplo).

O movimento intitulado Funk Ostentação foi o grande impulsionador dos rolezinhos. Surgiu na Baixada Santista e Região Metropolitana de São Paulo nos últimos anos, e evoca o consumo, o luxo, o dinheiro e o prazer que tudo isso dá. Teve influência do gangsta rap norte-americano, muito propagado nos clipes do funk ostentação. Nestes clipes, os MCs têm vida de rico com direito a tudo o que manda o figurino. Não contestam o sistema capitalista, assumem o desejo de emergir socialmente, fazem apologia a marcas de roupas, uso de joias e outros símbolos de status.

Esta apologia ao luxo e ao sistema incomodou diversos intelectuais brasileiros, além de lideranças comunitárias das periferias das grandes cidades. Agora, os “rolezinhos” e a perseguição sofrida pela garotada deram ao movimento ares de insurreição política, e têm causado muita confusão na opinião pública.

Nossas relações sociais têm sido cada vez mais pautadas pela lógica do consumo. Nas periferias o consumo é uma forma muito importante de sociabilidade, assim como nos demais meios sociais. De fato todos nós precisamos atentar mais para a forma como as mercadorias e demais signos de status invadem nossa subjetividade. O consumismo desenfreado, o egoísmo e o hedonismo podem levar muitos jovens para a criminalidade, assim como leva pessoas de todas as camadas sociais a cometerem delitos, extrapolarem na falta de respeito com outras pessoas, sonegarem impostos, entre outros problemas criados pelo próprio capitalismo. Muitos crimes contra a humanidade e contra o meio ambiente foram e são praticados no mundo em nome do direito ao consumo dos ricos e da classe média.

Quando a classe média e alta critica o consumo destes jovens, evidencia-se um discurso de julgamento de quem olha de uma posição superior para um inferior, um pobrezinho, um sofredor, nunca para um ser humano com sonhos, com subjetividade. Aos de baixo não cabe julgar o superior. Na televisão e em outros meios são apresentados estilos de vida nobres, com abundância de recursos e beleza. Ao pobre, não é permitido ser ambicioso. Isto o aproximaria do crime. Porém, raramente o pobre ambicioso adere ao crime, apesar do desejo expresso em letras de música.

Ao invés de ficarem em casa trancados vendo televisão, depois de trabalharem a semana toda, estes jovens decidiram, por meio das redes sociais, se encontrar para se conhecerem pessoalmente e “zoar”, o que não agradou boa parte da classe média que frequenta shoppings aos finais de semana. Seguranças foram acionados, consumidores ficaram apreensivos, com medo de furtos. Os locais são privados, porém de acordo com a lei Nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, em seu artigo 8º, é proibido “impedir o acesso ou recusar atendimento em restaurantes, bares, confeitarias, ou locais semelhantes abertos ao público”. A pena para tal delito é a reclusão de um a três anos.

A perseguição aos encontros populares das camadas mais baixas também é um dado recorrente na história do Brasil. A história da formação do povo brasileiro vem se dando, há mais de cinco séculos, com uma profunda opressão sobre os de baixo. Os batuques que vinham das senzalas, a capoeira, o samba e muitos outros encontros foram estigmatizados pelo discurso produzido nas classes dominantes, que determina o lugar de todos na sociedade, segundo sua funcionalidade. Foi produzida uma moral dominante ao longo destes séculos que dita que aos indivíduos pobres só cabe trabalhar, que diversão de pobre é vagabundagem, promiscuidade. A perseguição (moral e policial) que o funk vem sofrendo desde os anos 1990 faz parte desta história de opressão.

A identidade cultural do jovem favelado no nosso contexto urbano contém a experiência do funk. As proibições que já ocorreram aos bailes foram tentativas de esconder ou segregar esta experiência juvenil. As argumentações em relação ao consumo de drogas e promiscuidade não dizem muito sobre tais proibições considerando-se que drogas, álcool e mensagens sexuais apelativas estão presentes no contexto diário de qualquer cidadão brasileiro. Se as proibições ocorressem por tais motivos, não haveria jogos de futebol, shows de qualquer estilo musical, micaretas e cervejadas em nosso país.

As reuniões com grande número de participantes só foi proibida por lei na ditadura militar, ocasião em que foi criada a Rota como forma de vigiar as periferias. Caso alguém fosse encontrado perambulando pelas ruas à noite nesta época, e fosse abordado pela Rota, teria que instantaneamente apresentar a carteira profissional para provar que era de fato trabalhador e não “vagabundo”.

Mesmo sem conterem um caráter nitidamente político, os “rolezinhos” se inserem num quadro de ações afirmativas da juventude negra, pobre e trabalhadora no Brasil. Esta geração, que teve seus genitores, muito provavelmente, envolvidos em movimentos comunitários nos anos 1980 e 1990, ocupando bairros que não tinham estrutura de saneamento básico, levantando casas e barracos, hoje quer ter o direito de participar do mercado consumidor, aderindo o máximo possível ao capitalismo, usufruindo de suas benesses.

A luta por cidadania no Brasil nem sempre teve caráter estritamente de resistência. Deu-se, quase sempre, como uma soma de fatores, motivada pela luta por ocupação dos espaços e pela criação coletiva de estratégias de sobrevivência, que muitas vezes fizeram coro com o discurso hegemônico, para desagrado de algumas correntes da esquerda e da direita.


*Professora na rede estadual de SP, com formação em Filosofia e militante do PCdoB em Campinas (SP).


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