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22 de dezembro de 2013 - 8h00

Bradley Burston: Será que Israel se divorcia do mundo em 2014?


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O movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) tem ganho a atenção mundial, especialmente no meio acadêmico. O movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) tem ganho a atenção mundial, especialmente no meio acadêmico.
A razão é que, se o governo de Israel estivesse ativamente lutando por encorajar o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), impulsioná-lo, expandir seu impacto, acelerar seu crescimento, não poderia ter feito um trabalho melhor do que o que está fazendo neste momento. Pensando melhor, talvez esteja fazendo. Talvez esta seja a estratégia.

Talvez o Irã não seja o inimigo que [o primeiro-ministro] Benjamin Netanyhau esperava que ele se tornasse. Nem [o presidente palestino] Mahmoud Abbas. Nem, certamente, Barack Obama.
Talvez, o que faz falta é um inimigo, um que esteja em toda parte, que possa ser culpado por tudo, que possa ser acusado de qualquer coisa, e que até possa ser usado para o levantamento de fundos.

Talvez 2014 seja o ano em que o Israel de Benjamin Netanyahu se torna tão desprezível, tão insensível, tão intencionalmente não democrático – campeão apenas para os colonos, magnatas, ortodoxos e cristãos renascidos da direita radical – que os boicotes simplesmente serão naturais.
Talvez este seja o ano em que Israel se divorcia do mundo. Se divorcia até mesmo da maioria dos judeus dentro dele – não ortodoxos, anti-colônias, pró-tolerância e direitos humanos.

Se Israel estivesse ativamente tentando apoiar mundialmente um boicote contra si próprio, poderia ter feito um trabalho melhor do que está fazendo agora?

Como explicar isso de outra forma? Como explicar uma semana em que a explicação de Benjamin Netanyahu sobre a sua desconsideração pelas cerimônias de homenagem a Nelson Mandela (a viagem não poderia custar tanto assim) foi pior do que a própria desconsideração. Especialmente quando liberou Netanyahu e seu gabinete para fazer o seguinte:

1 – Piorar seus laços com a União Europeia e revoltar o primeiro-ministro holandês de visita, Mark Rutte, e o seu governo, ao recusar a permissão de uso de um detector de segurança de cargas doado pela Holanda para um dos seus principais objetivos: facilitar a exportação de produtos de Gaza para a Cisjordânia, para ajudar no alívio da pobreza da Faixa de Gaza.

2) Matar a proposta de lei sobre direitos homossexuais que teria proibido a discriminação baseada na orientação sexual. Uma pesquisa de opinião mostrou que 70% dos israelenses apoiam a igualdade de direitos para homossexuais.

3) Aprovar uma ordem apressada de lei que permite ao governo a prisão de africanos que buscam asilo por até um ano sem julgamento, levando 150 desses imigrantes – alguns deles, descalços, muitos refugiados sudaneses já preses por até dois anos sem julgamento – a começarem uma marcha de protesto do frio congelante, desde Negev [o deserto no sul do país] até Jerusalém.

Quando eles chegaram, na quinta-feira (19), para uma manifestação pacífica às portas do Gabinete do Primeiro-Ministro, a polícia arrastou, empurrou e carregou-os para ônibus cuja destinação era a volta ao campo de detenção. Netanyahu, enquanto isso, aproveitou a ocasião para saudar a imposição da lei e condenar os requerentes de asilo como “infiltradores ilegais”.

4 – Declarar que “questões urgentes” impediram o permiê de fazer uma aparição histórica diante de uma convenção internacional do [movimento] Reforma do Judaísmo em São Diego – só para que as questões urgentes incluíssem a consideração do gabinete sobre a compra de um avião para o uso de Netanyahu e do presidente de Israel, assim como a construção de uma nova residência para o primeiro-ministro, que custaria cerca de 650 milhões de shekels (R$ 438 milhões).

5 – Silenciosamente reviver e avançar um plano supostamente defunto que teria levando adiante a expulsão de cerca de 30.000 beduínos cidadãos de Israel dos seus lares atuais, no Negev. Um dos forjadores da proposta será o parlamentar do Likud [partido de direita ao qual Netanyahu pertence] Miri Regev, que chamou os refugiados sudaneses, no ano passado, de um “câncer” na sociedade israelense, para depois desculpar-se – aos enfermos por câncer – pela analogia.

6 – Aprovar uma proposta para desviar as doações a organizações de esquerda sem fins lucrativos apesar das objeções diretas e explícitas do promotor-geral adjunto, que classificou a lei de inconstitucional e indefensável no tribunal, e o promotor-geral, que disse que a lei fere “a liberdade de expressão em Israel, uma das âncoras democráticas mais importantes do Estado”, e é remanescente de políticas “de vários Estados aos quais Israel provavelmente não quer se juntar”.

7 – Ignorar as implicações de um estudo sobre a pobreza em Israel, que mostrou que quase uma em cada oito crianças no país é forçada a vasculhar o lixo para comer.

E tudo isto acontece enquanto [Israel] continua a expandir a construção das colônias à custa de todo o resto.

Não nos enganemos. Sejam quais forem os ganhos do BDS no próximo ano, este será o boicote de Bibi [Netanyahu]. Isto será obra de Israel.

Neste ponto, o movimento pelo boicote é praticamente a única conquista concreta que o governo de Netanyahu pode reclamar. Ele parece determinado a não perder qualquer oportunidade para chutar a boca do mundo, mesmo enquanto se relacionada a milhares dos seus residentes em maior desvantagem com chutes quando estão caídos.

Netanyahu pode louvar os direitos dos homossexuais e as maravilhas da democracia israelense. Mas o primeiro-ministro sabe a verdade, assim como todo mundo.

Se ele pode continuar a ganhar ao retratar Israel como nada mais do que uma vítima inocente do ódio irracional, o único perdedor será Israel, e todos os que vivem aqui.

*Bradley Burston é um jornalista estadunidense-israelense, editor-chefe e colunista do jornal israelense Ha'aretz, na seção "Um Lugar Especial do Inferno".

**Título original: O boicote de Bibi: Será 2014 o ano em que Israel se divorcia do mundo?

Fonte: Ha'aretz
Tradução de Moara Crivelente, da redação do Vermelho


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