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13 de agosto de 2013 - 17h05

Lamothe: Campesinato é a base da luta pela libertação do Haiti


Moara Crivelente / Portal Vermelho
Joseph Pierre Lamothe, do Partido campesino para a libertação do Haiti, o Kontrapepla, em entrevista para o Portal Vermelho, em 04 de agosto de 2013. Joseph Pierre Lamothe, do Partido campesino para a libertação do Haiti, o Kontrapepla, em entrevista para o Portal Vermelho, em 04 de agosto de 2013.
O partido de Lamothe, “Konbit Travayè Peyizan Pou Libere Ayiti” (Associação dos Trabalhadores Campesinos para Liberar o Haiti, no crioulo haitiano), considera que o país está “ocupado, sem estar em guerra com nenhum outro país, pelas forças da ONU”, através da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah).

A missão foi estabelecida através da resolução 1542 do Conselho de Segurança da ONU, de 30 de abril de 2004, ao suceder, expandir e enraizar a presença internacional já estabelecida pelas Forças Interinas Multinacionais (MIF, na sigla em inglês), no país desde fevereiro do mesmo ano, quando o então presidente Jean-Bertrand Aristide foi deposto, após semanas de conflitos internos.

Aristide (exilado na República Centro-Africana e, posteriormente, na África do Sul) afirma que sofreu um golpe, diretamente apoiado pelos Estados Unidos, que enviaram militares e um avião para “escoltá-lo” para fora do país.

Lamothe afirma que a Minustah tem como único objetivo, apesar de seu mandato de “assegurar um ambiente estável” (uma definição abrangente que inclui diversos programas, desde o treinamento das forças de segurança até a construção de infraestruturas), velar pela proteção do governo contra movimentos opostos.

“O nome, em si, precisa ser analisado: estabilizar o quê, no Haiti?”, pergunta Lamothe; “deveriam estabilizar a saúde, a alimentação, a educação, a infraestrutura, mas estão lá apenas para manter um governo no poder”, afirma.

Lamothe explica que a sucessiva renovação do mandato da Minustah, em períodos de um ano, é feita no mês de outubro, mas que “quando o mês se aproxima”, as estimativas de criminalidade aumentam. “Se não há crimes, se está tudo normal, não é preciso que fiquem”, diz.

Além disso, casos de violência direta das tropas da ONU contra os haitianos (que incluem violações) e o episódio em que mais de 9.000 habitantes morreram devido a uma contaminação de cólera, cuja investigação liga a soldados do Nepal, são questões levantadas de forma esparsa.

Em 2011, houve eleições presidenciais, mas a ONU explica a sua permanência “para completar o mandato de restaurar e assegurar um ambiente estável, promover o processo político, fortalecer as instituições de governo do Haiti e as estruturas do Estado de Direito, assim como promover e proteger os direitos humanos”.

O Haiti pode revelar-se mais um exemplo da complexidade das missões internacionais e dos princípios liberais pelos quais são pautadas, com a instrumentalização da defesa dos direitos humanos e da construção de um “Estado de Direito” para objetivos políticos próprios. Leia a seguir trechos da entrevista de Lamothe para o Portal Vermelho:

Portal Vermelho - A presença da Minustah no país e a constante renovação do seu mandato seriam baseadas em uma projeção artificial da suposta criminalidade no Haiti, ou realmente há questões complexas por tratar, com o apoio internacional?
Joseph Pierre Lamothe – Veja, a Minustah já está no país há nove anos. É o que estamos vendo, e andamos constatando, o aumento da criminalidade; por exemplo, no país há coisas como o sequestro, agora, que não existia na cultura política do Haiti. Os sequestradores pedem centenas de milhares de dólares, e depois deixam o refém na região de um posto de controle militar da Minustah, que não diz nada.

Quem são os atores políticos que pedem a retirada da Minustah, que dizem isto publicamente?

O governo não fará nada para retirar a missão do país, pois se beneficia da sua presença. Mas em 1º de junho passado, quando a Minustah completou nove anos no país, houve muitas manifestações de solidariedade com o Haiti, por parte de muitos países latino-americanos, e também no Haiti, muitos protestos na capital e nas províncias. O nosso partido conseguiu, em apenas quatro ou cinco dias, mais de 10.000 assinaturas em uma petição que exige a saída da Minustah do país. Ninguém quer a sua presença, porque a missão não faz nada, para ninguém.

Cada vez que vejo um jovem militar, da Minustah, olho para ele com pena, porque podia ser um irmão, um companheiro, um combatente, um novo libertador da América Latina. Mas cada vez que penso que este jovem faz parte de um corpo que ocupa o meu país, desejaria expulsá-lo. É isso o que cria a Minustah.

Qual é a relação atual do mandato da Minustah com o governo do Haiti?

Todos os anos, o mandato é renovado. Por isso, cada vez que isso acontece é uma dor de cabeça, pois a Minustah não só atua de forma negativa no país, mas também casos de violência sexual, da contaminação pelo surto de cólera, são coisas mencionadas pela ONU, mas não passa disso.

O Haiti não é um país pobre, mas um país empobrecido. Dizem isso para justificar, em todos os foros internacionais, a presença internacional no país, inclusive países que se dizem amigos do Haiti. Se fosse um país tão pobre, porque vêm tantos estrangeiros viver no Haiti, e estimulando os habitantes a irem para fora; porque temos algo importante no país. Plantamos de forma natural, orgânica; os estrangeiros exploram isso e tentam despejar em nós o que não é natural, por exemplo. Temos muita riqueza, histórica e culturalmente, e nossos campos são férteis, mas ao invés de ajudar-nos na produção, enviam-nos os seus restos.

Uma das críticas que se encontra sobre a “ajuda internacional humanitária” ao Haiti é justamente neste âmbito. Enquanto no país há produtores de arroz, por exemplo, agências como a estadunidense para a “cooperação” (Usaid) enviam exatamente arroz para o país, não só de má qualidade, mas prejudicial para a produção nacional, certo?
Exatamente, a ajuda internacional vem sendo um meio para certas empresas internacionais enriquecerem-se, nas costas do Haiti. Se querem nos ajudar, ao invés de nos enviarem essa comida, poderiam dar-nos meios para semear, nossos camponeses querem trabalhar. Entretanto, nos mantêm dependentes, para fazermos o que lhes interessa.

E qual seria a proposta prática da esquerda haitiana hoje para lidar com esta situação?
Quanto à Minustah, para que as pessoas não se confundam, já temos a declaração e resoluções do Senado [para a sua retirada]. A última resolução foi a segunda, impulsionada pelo senador Moïse Jean-Charles [que já esteve no Brasil para pedir a retirada das tropas da Minustah], mas antes desta, o Senado já havia tomado uma resolução unânime para a partida da missão, no começo deste ano. O prazo para a retirada é de um ano.

Entretanto, os integrantes da missão dizem que ainda se mantêm no país porque o Haiti e o seu governo ainda não estão prontos. O que faz a Minustah no país para que não possamos viver sem ela? A presença dela é algo que precisa ser finalizado.

Aqui, em um Foro sobre integração, como vamos participar disso se vermos em vocês um inimigo? Se forem violar minhas crianças, trazer doenças, não dá. Vamos falar de integração, aprofundá-la, impulsioná-la. Juntos, os povos da América, mas não para nos ocuparem, pois Haiti é a mãe da liberdade. A integração começou no Haiti, que ajudou a muitos, muitos países.

No Haiti, somos otimistas pelo futuro, temos uma força de trabalho muito ativa e dinâmica, um campesinato muito forte, que sabe trabalhar. Meu partido, Kontrapeple, afirma-se como um projeto do campesinato, porque tudo o que há de bom no povo haitiano, toda a virtude que há no Haiti, é preciso ir buscá-la no campo.

E com a partida da Minustah, a esquerda tem perspectivas de chegar ao governo em breve?

Nós vamos concorrer, sim. Temos como base principal o campesinato, que já temos organizado no Movimento Camponês Papaye ("Mouvman Peyizan Papay", o MPP), que acaba de cumprir 40 anos, no março passado. São 40 anos formando e organizando os campesinos, são a base do nosso partido. O movimento tem sido ampliado, e ao invés de ficar encerrado na zona de Papay, do departamento central do país. Tem se expandido pelas 10 províncias do Haiti, e tornou-se um movimento nacional. Por isso é que o MPP deu nascimento a outro movimento, o Movimento Camponês Nacional do Congresso Papay (MPNKP).

É um movimento amplo, a base do nosso país, que não inclui apenas camponeses, mas também professores, intelectuais, entre outros. Acreditamos que o campesinato é a base para liberar o Haiti não apenas da Minustah, mas de todas as chagas que nos afetaram, que fizeram com que a nossa juventude já não pense em termos patrióticos, mas que queira tudo o que é de fora.

Trabalhamos para que o nosso Haiti volte a ser o que era antes, com nossos costumes, princípios, e todas as batalhas que o nosso povo venceu, desde o início até hoje, são batalhas vencidas pelo campesinato. É por isso que é necessário voltar a recorrer a eles, para que o Haiti seja realmente um país novo para o seu povo.


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