Brasil

29 de julho de 2013 - 11h52

Antes das negociações, ministro de Israel admite: "matei árabes"


Reuters
Palestinos exibem fotografias de prisioneiros detidos em cárceres israelenses, em protesto pela libertação. Palestinos exibem fotografias de prisioneiros detidos em cárceres israelenses, em protesto pela libertação.
A confissão de um criminoso, neste caso, foi iniciada com a afirmação: “Se você captura terroristas, você simplesmente tem que matá-los”. A “lógica”, se é que se pode chamá-la disso, é a mesma empregada por muitos colonos que ocupam territórios palestinos, representados por Bennett fervorosamente no governo.

Uma série de documentários, vídeos disponíveis no YouTube e de denúncias midiáticas reiteram a violência direta de grupos de colonos contra os palestinos, entre o incêndio de cultivos, corte de oliveiras e até agressão física, que já causou mortes vezes demais.

Entretanto, a afirmação retumbante de Bennett, que aprofunda outras já dadas anteriormente, quando defendendo a expansão colonial e a ocupação militar de Israel sobre a Palestina, acontece durante o anúncio da retomada das negociações entre israelenses e palestinos, congeladas desde 2010.

Nos meses recentes, diversas discussões intra-gabinete deixaram evidente a postura irredutível de Bennett e outros ministros, de negação a qualquer postura conciliadora (entre as escassíssimas naquele gabinete), contrária às negociações com os palestinos e a qualquer reivindicação por justiça emitida por eles.

O papel da mídia, neste contexto, é crucial. Diversos observadores já analisaram o desempenho negativo da mídia israelense quando o assunto é a “paz”, ou as negociações com os palestinos, embora todos os “processos” pelos quais a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) se deixou passar tenham resultado em nada eficaz para os palestinos.

Até mesmo o jornal israelense Ha’aretz, que conta com colunistas acidamente críticos do regime israelense, como Amira Hass, Gideon Levy e Barak Ravid, entre outros, publicou nesta segunda-feira (29) a notícia sobre o anúncio israelense de libertação de 104 palestinos (como “gesto de boa vontade”), sob o seguinte “chapéu”: “O preço das conversações de paz”, com uma análise sobre “quem são” os palestinos libertados, ressaltando as acusações de que são alvo.

Cumprindo com a estratégia jornalística de sensibilização e “humanização” dos “nossos”, o artigo do Ha’aretz publica os nomes completos das vítimas (contabilizando também: 15 oficiais das forças de segurança, incluindo soldados, oficiais da reserva, um agente da agência de inteligência Shin Bet, e um policial da fronteira) de ataques atribuídos a alguns dos libertados, mas não menciona os nomes destes.

Entretanto, o próprio artigo menciona que, na maior parte dos casos, todos os membros de uma “célula” são condenados por homicídio mesmo que apenas um, ou alguns deles estiveram diretamente conectados com o assassinato em si. Por outro lado, logo a seguir, alguns nomes das “55 vítimas civis” também atribuídas aos prisioneiros a serem libertados são mencionados, assim como o contexto da sua morte, incluindo algum oficial que morreu “tentando salvá-las”.

Mudanças de perspectiva

A decisão do governo de libertar os prisioneiros na véspera da retomada das negociações foi baseada “em muitas considerações estratégicas, [que] talvez serão reveladas no futuro”, disse o ministro da Defesa, Moshe Ya’alon, nesta segunda, durante a uma visita à base militar de Tel Hashomer, perto de Tel Aviv.

“A situação com os palestinos não é estável e nós gostaríamos de estabilizá-la com um acordo”, disse Ya’alon, completando que os palestinos “são os que têm fugido da mesa de negociações até agora”.

O ministro refere-se à recusa da OLP de voltar às negociações com bases que considerava “continuações do status quo”, já que os negociadores israelenses negavam-se a discutir o congelamento das construções de colônias em territórios palestinos e a libertação de prisioneiros, dentre os quais há alguns presos há quase 30 anos.

    
       O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o presidente palestino, Mahmoud Abbas, nas últimas negociações,
       em 2010


Entretanto, a retomada das negociações continua sendo analisada com grande cautela, devido ao ceticismo daqueles acostumados com a total falta de compromisso, por parte dos israelenses, como um verdadeiro “processo de paz”, que leve ao estabelecimento do Estado independente da Palestina.

O presidente palestino, Mahmoud Abbas, advertiu os palestinos contra um levante popular armado, uma “intifada” armada, já que rumores de uma terceira (a primeira foi em 1987 e a segunda, em 2000) têm se elevado, frente às frustrações de diversos grupos de “sangue fervendo”, diante da opressão israelense, com a postura oficial da Autoridade Palestina.

Ainda assim, analistas que têm tentado interpretar o momento desde uma perspectiva positiva lembram que Abbas aceitou a libertação dos 104 prisioneiros, uma das suas exigências, e como gesto, também aceitou a negativa israelense ao estabelecimento imediato das fronteiras pré-1967 (da Guerra dos Seis Dias, com a expansão de ocupação por Israel), um tema espinhoso para a política interna das “duas partes”, como dizem os cientistas políticos.

Das estratégias internacionais da OLP resultou o reconhecimento internacional, objetivo focal da política palestina nos recentes anos, diante da irredutibilidade israelense com relação à ocupação e à opressão, sem compromissos com o “processo de paz”. Em novembro de 2012, a Assembleia Geral da ONU reconheceu a Palestina como um Estado “observador não membro”, o que lhe permite integrar agências internacionais importantes e o Tribunal Penal Internacional, a que pretende denunciar Israel.

Este fator pode ser ressaltado como fundamental para a mudança ocorrida na postura palestina com relação às negociações anteriores. Os palestinos têm uma estrutura estatal cada vez mais reconhecida, com um “esforço legítimo de uma causa justa, que tem atraído o apoio do mundo”, diz o jornalista israelense Oudeh Basharat, também no Ha’aretz.

Atualizada às 14h40



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