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28 de julho de 2013 - 10h00

Amira Hass: Arrogante, "Israel perderá de novo a oportunidade"


Reuters
O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas (esquerda), reúne-se com líderes do governo para discutir a retomada das negociações, em Ramallah, na Cisjordânia. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas (esquerda), reúne-se com líderes do governo para discutir a retomada das negociações, em Ramallah, na Cisjordânia.
Para Amira, que até recentemente era a única jornalista judia vivendo em territórios palestinos, as discussões sobre um referendo a ser aplicado caso o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu alcance um acordo com os palestinos ignoram a essência.

"Qualquer futuro pelo qual valha a pena viver para a comunidade judia nesta parte do Oriente Médio depende da habilidade e vontade dessa comunidade de se libertar da etnocracia" (ou seja, “democracia apenas para os judeus”) que construiu por quase sete décadas. "Por isso, precisamos desesperadamente dos palestinos".

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E continua: “Mas a superioridade econômica e militar está nos cegando. Estamos certos de que eles precisam de nós e que nós os empurramos a uma posição tão fraca que podemos arrancar um sim deles com relação ao que têm negado por 20 anos”, isto é, aceitarem territórios que somam a muito menos do que as fronteiras de 1967 (quando Israel passou a ocupar cada vez mais a Cisjordânia). A jornalista faz a seguinte análise:

As negociações esperadas agora, com a bastante não-neutra participação norte-americana (se nós sequer chegarmos a isso depois da fase pré-negociações), não produzirão independência para os palestinos. Mas o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e os problemas da sua coalizão não podem ser culpados por isso. São os israelenses que ainda não estão prontos para exigir que seus líderes trabalhem em prol de um acordo de paz, porque ainda estão desfrutando demais da ocupação.

Sobre as “vantagens” dessa “cegueira” e da perpetuação desta situação, Amira diz: “Não é por nada que temos sido abençoados com 6.800 exportadores de armas, o título de sexto maior exportador de armas no mundo, e o primeiro ou segundo lugar entre os países vendedores de aviões não tripulados (drones), que foram melhorados depois de testados nos libaneses e, principalmente, nos habitantes de Gaza”.

“Mesmo que alguns dos nossos estejam envolvidos na produção e exportação de armas e na indústria de Defesa em geral”, trata-se de uma minoria com uma influência extensa e um grande poder econômico que formata a política e produz “racionalizações messiânicas e tecnocráticas”, afirma.

As diretrizes emitidas pela União Europeia (UE) na semana passada, que proíbem a cooperação com as colônias e com as empresas ligadas a elas, vieram ao menos 15 anos atrasadas, para Amira. No começo dos anos 1990, estava claro à Europa que a colonização da Cisjordânia e da Faixa de Gaza contradiziam os Acordos de Oslo, assinados em 1993, “mas isso não a impediu de mimar Israel com acordos comerciais favoráveis”.

“Nem estes acordos nem o apoio massivo à Autoridade Palestina (ou seja, a compensação pelo dano feito pela administração israelense e suas restrições à movimentação) deram à Europa influência política real aos olhos de Israel e nos corredores das negociações. E então, um primeiro passo determinado da Europa reabilita a sua posição política”, continua.

Amira afirma que os palestinos deixaram claro que se os europeus voltarem atrás nessas diretrizes, como Israel exigiu e os Estados Unidos desejam, eles suspenderão as conversações (quando elas se iniciarem). Entretanto, faz uma ressalva:

Mas o principal impacto psicológico das diretivas será dissipado se não houver implementação rápida. Quando e se implementadas, os resultados não serão sentidos imediatamente em Israel, e mesmo então, serão sentidos apenas gradualmente. Ou seja, levará tempo antes que mais e mais israelenses se deem conta de que a ocupação na vale a pena. Isso será tempo o suficiente para continuarmos sentindo que somos mais fortes que os palestinos.

Por outro lado, “depender da fraqueza dos palestinos é uma ilusão de ótica dos arrogantes”, diz Amira, ressaltando que apesar de a sociedade palestina estar mais fraturada geográfica e politicamente que há 20 anos (quando os Acordos de Oslo, ineficazes para os palestinos e instrumentais para os israelenses foram assinados, com a mediação dos Estados Unidos), mas ela tem grande resistência.

A jornalista afirma que governo da Autoridade Palestina e do Hamas (na Cisjordânia e na Faixa de Gaza) estão patinando sob o fardo financeiro de “economias em estado de sítio”, imposto por Israel.
“Mas sob a superfície há novos desenvolvimentos. Iniciativas estão em progresso para transformar o povo palestino, na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e na diáspora, em um único órgão de decisão. Ideias estão sendo discutidas seriamente para métodos de luta fora das negociações”, diz.

Exemplo desses novos métodos é a estratégia internacional de busca por integração às agências da Organização das Nações Unidas (ONU) e por um reconhecimento do Estado da Palestina (alcançado na Assembleia Geral da ONU, em novembro de 2012), que permitirá aos palestinos denunciar Israel no Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

“Uma geração envelheceu e não tem pressa para chegar a um acordo com os israelenses, porque os israelenses não estão prontos para um acordo justo. E quando nós, os israelenses, acordarmos e implorarmos por um acordo, pode ser muito tarde”, conclui.

Com Ha'aretz,
Moara Crivelente, da redação do Vermelho


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