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11 de julho de 2013 - 14h51

Al-Na'ami: Os interesses de Israel na deposição de Mursi no Egito


Tem sido profícuo o debate sobre a ação do Exército egípcio, na semana passada, de afastar do poder o presidente Mohamed Mursi, após as manifestações massivas contrárias e favoráveis ao seu governo. No mesmo sentido, analistas avaliam o impacto da mudança de regime (a segunda em dois anos) para diversos países vizinhos e para a geopolítica regional.


Para contribuir com o debate, leia a seguir a íntegra do artigo do palestino Saleh Al-Na'ami:

Embora o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu tenha ordenado os seus ministros a não fazer qualquer declaração sobre a medida do Exército egípcio de derrubar o presidente do Egito, Mohammed Mursi, a elite da segurança sionista viu a medida como uma redução dos efeitos negativos das revoluções árabes.

O termo “ato seminal” foi usado repetidamente nas descrições israelenses do ato conduzido pelo ministro da Defesa do Egito, Abdel Fattah al-Sisi, quando ele depôs o presidente Mursi, para sugerir que este passo constitui um ponto de viragem de uma nova era em que Israel é libertado de qualquer das ameaças surgindo com a Primavera Árabe.

O que intensificou o estado de satisfação e contento dentro dos círculos oficiais israelenses é o fato de que a deposição do presidente Mursi e perseguição à “Irmandade Muçulmana” dá espaço às seguintes:

Primeiro: Restauração da parceria estratégica que existia entre Israel e o regime deposto do presidente [Hosni] Mubarak; uma parceria que havia terminado durante o governo de Mursi.

Como disse o general Amos Yadlin, antigo chefe da Diretoria da Inteligência Militar das Forças de Defesa de Israel (FDI) e diretor do “Instituto de Estudos sobre Segurança Nacional”, a parceria estratégica, que Tel Aviv espera restaurar com o Egito após a queda do regime de Mursi, é o recrutamento do Egito para apoiar Israel, outra vez, a enfrentar desafios estratégicos como o perigo do “terrorismo” palestino, para trabalhar em conjunto contra os movimentos de “jihad global” e a “ameaça iraniana”.

Além disso, Yadlin afirma que apesar do curto reinado de Mursi, ele conseguiu não apenas finalizar a parceria estratégica com Israel, mas também trabalhou para reduzir a margem de manobra de Tel Aviv na medida em que a posição estratégica do Egito permitisse.

Ele também ressaltou o papel de Mursi em pressionar Israel para finalizar seu último ataque militar contra a Faixa de Gaza [em novembro de 2012] antes que pudesse realizar qualquer dos seus objetivos. Não há disputa dentro de Israel sobre o governo de Mursi ter sido uma fonte de força para a resistência palestina.

Segundo: A queda de Mursi vai aumentar o eixo da “moderação” no mundo árabe, [um círculo] que o governo da Irmandade Muçulmana no Egito havia enfraquecido significativamente. Israel acredita que a restauração da força do eixo moderado lhe dará uma grande margem de manobra de forma a lhe permitir retomar sua habilidade de construir alianças com as potências árabes regionais, se seus interesses convergirem.

Terceiro: Há uma profunda compreensão em Israel de que a queda do regime da Irmandade e consequente conflito entre os apoiadores e a oposição, assim como o aumento da polarização sectária entre sunitas e xiitas, vai reduzir a prioridade do conflito Árabe-Israelense dentro do conflito árabe geral, tornando-o nada mais do que um detalhe insignificante. Isso permitirá enormemente a Israel alcançar os seus objetivos com o que resta de resistência no mundo árabe.

Quarto: Também não há disputa em Israel sobre o fato de que a queda de Mursi foi um golpe sério contra o Hamas [partido de resistência islâmica que governa a Faixa de Gaza], cujo ambiente estratégico melhorou consideravelmente depois da vitória da Irmandade Muçulmana, devido à ligação organizacional e ideológica entre eles.

O general Ron Tira, que foi nomeado para posições sensíveis na Diretoria da Inteligência Militar no passado, espera que “o golpe contra Mursi contribua para impedir o Hamas de irritar Israel no futuro”. Entretanto, a maioria dos observadores em Israel acredita ser improvável que a queda de Mursi encorage Israel a atacar o Hamas sem bases sólidas, porque se deu conta de que tal comportamento daria ao público árabe a chance de intervir de forma que estragaria o golpe contra Mursi.

Quinto: A elite israelense presumiu que o isolamento de Musi melhorou a capacidade do regime da Jordânia para enfrentar as reivindicações por reformas que possam reduzir a sua habilidade de manter a sua cooperação estratégica com Israel. O ministro e general israelense Efraim Sneh diz acreditar que a derrubada de Mursi aumentou as chances de sobrevivência do regime jordaniano, sublinhando que centenas de milhares de israelenses devem a sua sobrevivência ao papel desempenhado pelos serviços de segurança da Jordânia através da sua cooperação com a segurança israelense.

Sexto: Israel acredita que a restauração do governo militar no Egito contribuirá com a restauração da posição norte-americana na região, e isso, por si ó, é um interesse estratégico significativo para Israel, já que essa transformação reduz o tamanho do fardo estratégico aguentado por Israel como resultado das transformações na região. Além disso, contribui significativamente para a restauração do poder dissuasor de Israel e melhora a habilidade de Tel Aviv de retomar o seu status regional.

Sétimo: Também é um consenso em Israel que a queda de Mursi contribuirá para o alcance dos objetivos israelenses na área síria. Uma emissora de rádio hebraica citou várias fontes da Diretoria da Inteligência Militar “Amã” dizendo que, apesar do papel limitado que Mursi poderia ter desempenhado no conflito na Síria, seu regime recentemente tomou medidas que melhoraram o status de grupos islâmicos trabalhando contra o regime de Bashar Al-Assad, o que conflita com os interesses israelenses. De acordo com essas fontes, qualquer intervenção árabe efetiva a favor dos rebeldes pode levar a um fim ao atual conflito, que é contrário ao interesse israelense, ou seja, o de prolongamento do conflito.

Além dos numerosos ganhos que Israel está contando alcançar, o regime adverte contra grandes fontes de ameaça, como: a ignição da frente no Sinai através da intensificação de grupos jihadistas operando lá e tendo como alvos as colônias no sul; a reação em escalada do público egípcio de uma forma que force o Exército a restabelecer o governo de Mursi, o que significaria que ele tomaria ações políticas contra Israel e os Estados Unidos, já que ele sentiria que seu isolamento ocorreu depois das deliberações com o Pentágono.

*Saleh Al-Na'ami é um autor palestino que escreveu para o Islam Today e para o portal Middle East Monitor


Fonte: Middle East Monitor


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