Brasil

15 de junho de 2013 - 16h33

Ocupação e abuso do exército são tradições fortes em Israel 


Breaking the Silence
Gil Hillel dá seu testemunho à organização "Quebrando o Silêncio", de ex-soldados israelenses. "Era para tomar prisioneiros e apagar cigarros neles", diz.  Gil Hillel dá seu testemunho à organização "Quebrando o Silêncio", de ex-soldados israelenses. "Era para tomar prisioneiros e apagar cigarros neles", diz. 
Sheizaf escreve, na revista eletrônica independente +972: “a conversação política israelense tem um estranho sentido de ‘déjà vu’ recentemente: na quarta (12), durante um seminário organizado pelo think-tank Molad, o parlamentar Ofer Shelah, do [partido] Yesh Atid fez a advertência de que, se Israel falhar em retirar-se da Cisjordânia, enfrentará um destino semelhante ao do apartheid da África do Sul”.

De acordo com o jornalista, Shelah disse que a ocupação “corrompe a sociedade israelense. Corrompe o exército israelense, corrompe a justiça israelense, a mídia israelense, a psique israelense e a língua israelense”. Entretanto, ressalta Sheizaf, Shelah faz parte da coalizão do governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que tem a participação relevante de partidos e lideranças diretamente ligados à colonização, desde a construção de residências e a manutenção da “segurança” até a representação dos próprios colonos.


No mesmo dia do seminário, foi lançado o grupo parlamentar “Terra de Israel”, um eufemismo para “pró-assentamentos”, segundo Sheizaf. O grupo inclui ao menos um terço do parlamento israelense (Knesset), e dois parlamentares do partido de Shelah, Yesh Atid, participam, junto com membros do Likud de Netanyahu, do partido Israel Beitenu e, obviamente, do Lar Judeu, todos pedindo a expansão dos assentamentos e a continuação do controle israelense sobre a Cisjordânia.

Sheizaf havia escrito, ainda nesta semana, sobre os cálculos do Escritório Central Israelense para Estatísticas, que estimaram um aumento de 176% nos projetos de construção na Cisjordânia, em comparação com o mesmo período (janeiro-março) de 2012. Isso significa, de acordo com o jornalista, um aumento de 335%, se comparado com o último trimestre daquele ano. Atualmente, os projetos de construção para judeus na Cisjordânia formam 8% de todos os projetos em Israel (sem contar os administrados pela Autoridade Palestina).

Na tradição de pesquisas de opinião tergiversadas, ficou registrado que a maioria dos israelenses é contrária à retirada israelense para trás das fronteiras de 1967, ou seja, para o território de Israel (ou como ele era antes da Guerra dos Seis Dias, quando as forças israelenses invadiram e ocuparam território palestino), como pedido pelos palestinos para a retomada das negociações de paz.

O primeiro-ministro Netanyahu proibiu os ministros do Likud de comparecerem à reunião do grupo, provavelmente devido à declaração do ministro adjunto da Defesa sobre a rejeição do governo por uma solução de dois Estados para o conflito israelense-palestino. “Então, como alternativa, os representantes sênior do Likud enviaram cartas de felicitação aos colonos”, escreve Sheizaf. O lançamento deste grupo também é uma tradição israelense.

Além disso, o próprio premiê esteve em uma posição complicada durante a sua visita à Polônia, quando em meio a visitas e discursos sobre o Holocausto, negou-se a ratificar uma declaração escrita por seus assessores em que reconhecia o direito palestino a um Estado soberano e em que se colocaria em postura mais conciliadora.

Quebrando o silêncio

Ainda no tema da ocupação, a organização de soldados israelenses “Breaking the Silence” (Quebrando o Silêncio, em referência ao código de silêncio do exército) continua publicando testemunhos sobre a conduta das forças armadas em territórios palestinos, tanto durante combates ou, mais precisamente, ofensivas militares, quanto no dia-a-dia, com prisões arbitrárias e humilhação cotidiana.

A novidade é que, nesta semana, a organização disponibilizou os testemunhos de mulheres ex-soldados, que fizeram declarações diante das câmeras sobre a dura realidade da ocupação da qual participaram e observaram.

A história foi investigada pela também jornalista independente, da própria revista eletrônica +972, Mairav Zonszein, que disse: “Esta campanha tem especial importância pra mim porque dá voz às mulheres que conformam o exército israelense e seus mecanismos para a continuação da ocupação e opressão, acontecendo dentro de uma sociedade (local e global) em que, como mulheres, elas já existem dentro de uma dinâmica de poder e gênero de discriminação sistemática e violência”.

Em Israel, as mulheres também são obrigadas a servir no exército, a partir dos 18 anos de idade. Mas segundo Mairav, “elas são as que podem passar dois anos da vida servindo café vestidas em uniforme [militar], as que estão sujeitas quase exclusivamente a ordens de superiores homens (dos oficiais aos generais, aos comandantes, e ao ministro de Defesa), as que são automaticamente consideradas menos aptas a servir o país porque não podem servir em todas as unidades de combate; as que precisam ser muito mais criativas e determinadas se quiserem ser bem-sucedidas na sociedade israelense sem seguir as normas sociais”.

Entretanto, os testemunhos dos soldados israelenses sobre os abusos das forças armadas são frequentemente respondidos pelos defensores da ocupação com a pergunta: “oras, então, por que você não denunciou isso ao exército na época?”, diz o jornalista Larry Darfner, que dá um exemplo pessoal para responder ao cinismo.

“Eu tinha 37 anos, um imigrante havia três anos e meio em Israel, recrutado pelas FDI para um mês de treinamento básico, e acabei me vendo jogando todo o lixo de um caminhão inteiro à beira da horta de uma mulher palestina. Ela estava gritando em árabe comigo e com o outro recruta que estava fazendo o serviço, e o motorista das FDI estava gritando de volta em árabe. Eu perguntei ao outro recruta, um imigrante recém-chegado do Marrocos, o que o motorista estava dizendo (já que eu podia imaginar o que a mulher dizia), e ele traduziu: ‘cala a boca e volta pra sua casa, sua puta velha’”, para mostrar como o abuso é institucional.

“Soldados em serviço não ‘quebram o silêncio’. Quando eles são jovens, são tipicamente demasiado manipulados para se dar conta que estão sequer fazendo algo errado contra os palestinos que eles controlam. É apenas quando eles são mais velhos, e quando eles estão fora daquele ambiente Cult do exército que eles podem ser capazes de enfrentar a verdade sobre as coisas que viram e fizeram, e encontram a coragem para tornar aquilo público. Quando Hendel, porta-voz das FDI e outros tentam deslegitimar os testemunhos desses soldados, dizendo que eles deveriam ter feito isso para o exército ‘na mesma hora’, eles estão apenas tentando calá-los agora, como o exército fez na altura. Os defensores da ocupação fingem que não sabem de tudo isso, mas o fingimento é visível”, conclui Darfner.

Com informações da +972 Magazine


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