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19 de abril de 2013 - 20h24

Palestina: 2ª missão de solidariedade participa de protesto e reuniões 


Rafael Oliveira
2ª Missão de Solidariedade ao Povo Palestino participa do protesto de Bil'in contra o muro segregador construído por Israel na Cisjordânia   2ª Missão de Solidariedade ao Povo Palestino participa do protesto de Bil'in contra o muro segregador construído por Israel na Cisjordânia  
Na manhã desta sexta, o grupo dirigiu-se à vila de Bil’in, a menor vila palestina, próxima de Ramallah, para participar nos protestos realizados todas as sextas-feiras contra o "muro da vergonha", que corta a Cisjordânia com cerca 800 quilômetros de concreto, separando famílias das suas terras de cultivo e dificultando a vida dos palestinos em trânsito, alegadamente por “motivos de segurança”. 

No protesto, o grupo acompanhou os palestinos rumo ao muro, onde já estavam posicionados soldados e os habitantes da colônia vizinha, protegida pelo exército israelense, dentro do território palestino. Os palestinos manifestaram-se contra a ocupação e a colonização sionista, assim como contra a usurpação dos seus recursos por Israel.

Em resposta, os soldados israelenses atiraram bombas de gás lacrimogêneo, bombas de som e gás de pimenta, pelos quais os membros do grupo, que levavam bandeiras palestinas, brasileiras e das entidades que integram também foram afetados.

Segundo organizadores, esta é a programação habitual das sextas-feiras, quando os habitantes protestam exigindo dignidade, em revolta contra o governo militar israelense que os controla, e são covardemente correspondidos pelos soldados com esses recursos.

Também compareceram outros ativistas internacionais de várias nacionalidades e israelenses que apoiam a causa palestina, opondo-se à ocupação e à opressão exercida pelo seu governo sobre o território e o povo palestino.

Foto: Moara Crivelente
Para se preparar, o grupo encontrou-se com Abdallah Abu Rahma, coordenador do Comitê de Luta Popular, que organiza os protestos desde 2005. A construção do muro israelense na Cisjordânia completa já 10 anos e os comitês de resistência popular, que se organizam em diversas vilas, embora com uma luta unificada, continuam protestando e pensando em novas estratégias.

Uma delas, como exposto por Abu Rahma, é a escolha pelo método de luta e resistência não-violenta, que vem angariando adeptos em diversos movimentos de resistência popular pelo mundo. Abu Rahma esteve na liderança da Primeira Intifada Palestina, iniciada em 1987, e conta que a resistência não-violenta vem ganhando cada vez mais força desde então.

Apesar disso, ele já foi preso pelas autoridades israelenses quatro vezes e chegou a ficar encarcerado por um ano e meio, através de frágeis testemunhos sobre o seu envolvimento nos protestos. Muitos destes testemunhos foram conseguidos pelas forças israelenses com crianças que detiveram por até dois dias. Como indicado e até exigido pelos interrogadores, o papel de Abu Rahma na organização dos protestos e no fornecimento de materiais foi relatado.

O muro segregador unifica os comitês populares

Abu Rahma explica a tática usada pelo comitê como uma forma abrangente e bem estruturada de luta, oferecendo cursos de direito internacional e de resistência não-violenta, por exemplo, trabalhando com advogados pela causa contra o muro e contra a ocupação israelense.

A busca por uma postura mais ativa o coordenador exemplificou com vídeos sobre a construção instantânea de uma vila, Bab Al-Shams ("Porta do Sol"), em um território na Cisjordânia que já estava nos planos da ocupação israelense. Em três horas, como um vídeo que ficou internacionalmente conhecido mostra, um grande grupo de palestinos montou uma vila de tendas, com o apoio de ativistas internacionais. Segundo Abu Rahma, a atenção midiática trabalhou significativamente a favor da iniciativa.

Um exemplo da importância midiática, segundo ele, foi dado quando estava em cativeiro e recebeu a notícia de que, devido à atenção que havia ganhado internacionalmente, atores famosos e a própria secretária de Relações Exteriores da União Europeia (UE), Christine Ashton, declarou-o um defensor dos direitos humanos. Com isso, representantes europeus acabaram por comparecer ao julgamento de Abu Rahma, o que resultou numa pressão positiva sobre o caso.

Em 2007, o muro foi considerado uma construção ilegal por uma decisão judicial israelense, mas passaram-se quatro anos até que a sua construção fosse desviada dos planos originais, para evitar a área. Através desta decisão, contudo, ao invés de perderem 58% das suas terras com a construção do muro que os separaria delas, conforme os planos originais, os residentes da região de Bil’in perderam 25% para a ocupação israelense.

Fragmento do muro em Jerusalém Oriental, território palestino ocupado. Foto: Moara Crivelente

“O que fazemos agora é trabalhar a terra, depois de destruída pelo exército israelense, que arrancou árvores e destruiu tudo”, disse Abu Rahma, lembrando que os protestos têm sido bem-sucedidos mesmo que “ os soldados tenham feito muito para tentar parar os comitês, ‘experimentando’ armas, usando os nossos corpos”. Ele menciona o uso de novas balas de borracha, novos tipos de gás de efeito moral, bombas de som, de produtos químicos altamente nocivos, entre outros.

Além disso, como muitos outros, Abu Rahma denuncia o hábito dos soldados israelenses de invadirem as casas palestinas durante a noite, “assustando as nossas famílias, destruindo coisas e assustando as crianças, que acordam com soldados usando máscaras pretas dentro de casa”.

Nos protestos, de acordo com o coordenador, 1.500 pessoas ficaram feridas e duas pessoas foram mortas: em 2007, Bassem Abu Rahma, que foi atingido no peito com uma bomba de gás lacrimogêneo e morreu instantaneamente e, dois anos depois, a sua irmã Jawaher, que também morreu nos protestos, por intoxicação.

Entre os protestos de ação não-violenta, para além da construção de vilas como Bab Al-Shams, os treinamentos em direito internacional e resistência e a parceria internacional, Abdallah Abu Rahma também menciona a obstrução de estradas segregadoras, construídas pelos e para os israelenses que ocupam os territórios palestinos, mas que não podem ser usadas pelos próprios palestinos.

Famílias em resistência

Em Nabih Saleh, vila que fica na “Área C” da Cisjordânia, segundo os Acordos de Oslo da década de 1990 (em que os israelenses têm o controle militar efetivo), Basim Tamimi, também detido pela ocupação israelense, recebeu o grupo brasileiro para contar sobre os protestos realizados na região.

 
Neijar Tamimi, Basim Tamimi e Manal Tamimi exibem a camiseta da 2ª Missão de Solidariedade
ao Povo Palestino, em encontro em Nabih Saleh. Foto: Rafael Oliveira
 
Sua casa está na lista israelense para a demolição, o que pode acontecer a qualquer momento, apesar de lá viverem várias pessoas de sua família. Mesmo assim, Tamimi fala da importância de “deslocalizar” a luta, “que é contra a ocupação; lutamos juntos entre as vilas”.
 
O ativista também exibiu vídeos de protestos realizados recentemente, de incursões ilegais e ataques das forças policiais israelenses contra casas palestinas. A casa de Tamimi chegou a ser alvo de ofensivas criminosas quando soldados lançaram bombas de gás para dentro, mesmo quando lá estavam crianças.

Manal Tamimi, esposa de Basim, também comenta um vídeo em que teve de remover as crianças, junto com outras mães na casa, através das janelas, para fugir dos efeitos do gás. Além disso, conta da prisão de um garoto de 10 anos que foi interrogado e torturado, detido por 72 horas, para dar informações sobre os líderes ativistas da região.

Manal mostrou os procedimentos da polícia israelense nas detenções violentas que fazem diante das famílias, traumatizando crianças e humilhando indivíduos e comunidades. Além disso, também falou dos constantes avanços tecnológicos usados pelo exército israelense contra os manifestantes, mencionando o uso de produtos químicos e lança-granadas altamente eficientes, que disparam bombas de gás lacrimogêneo muitas vezes aleatoriamente.

“Uma vez tentamos contar quantas bombas de gás tinham sido lançadas, e chegamos a cerca de 1.500 em apenas uma sexta-feira”, disse Manal.

Prisioneiros palestinos em luta pela liberdade

  Foto: Rafael Oliveira
No mesmo dia, a missão também esteve em Kobar, vila de onde é um dos prisioneiros palestinos mais influentes da atualidade, Marwan Barghouti, e de Ualid Rabah, um membro da Federação Árabe-Palestina do Brasil, integrante do CEP. Sua família recebeu o grupo com um jantar e uma reunião sobre os prisioneiros políticos palestinos.

Fadwa Barghouti, advogada e esposa de Marwan Barghouti, também falou da campanha que organiza pela libertação do parlamentar palestino detido há já 11 anos. A Campanha pela Libertação de Marwan Barghouti já é internacional, mas recebeu a declaração de compromisso das entidades brasileiras na missão, que debaterá a criação de uma campanha de peso no Brasil.

Também presentes estavam os prisioneiros retratados no Guiness, o livro dos recordes, que passaram mais tempo detidos e que ainda estão vivas: cumpriram 34 anos de prisão. Ambos contaram as suas histórias e o impacto que o encarceramento tem não só na vida dos presos, mas também de suas famílias e comunidades. O grupo declarou a solidariedade de cada uma das entidadas presentes e apoio à luta palestina pela liberdade, explicando a forte ligação das suas entidades com a causa palestina.

A 2ª Missão de Solidariedade ao Povo Palestino está na Palestina para conhecer a realidade do conflito e da ocupação sionista, que já dura décadas, e para encontrar-se com membros de organizações sociais e da Organização pela Libertação da Palestina (OLP), com o objetivo de reafirmar a solidariedade brasileira e informar os brasileiros sobre a questão palestina.

O compromisso de continuidade das missões de solidariedade e com as campanhas palestinas pela liberdade dos presos políticos, contra a ocupação israelense e pela criação de um Estado palestino independente e soberano foram uma das marcas dos encontros que o grupo teve nesta sexta-feira.

 


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