Mundo

5 de março de 2013 - 15h43

Irã mantém postura de diálogo sobre programa nuclear e Síria 

Em entrevista exclusiva para a emissora iraniana HispanTV neste domingo (3), o ministro de Relações Exteriores da República Islâmica do Irã Ali Akbar Salehi falou dos assuntos tratados pelo 5º Fórum Global da Aliança das Civilizações, realizado na passada quarta-feira (27), em Viena, capital da Áustria.


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O ministro de Relações Exteriores do Irã, Ali Akbar Salehi  O ministro de Relações Exteriores do Irã, Ali Akbar Salehi 
“Tivemos uma boa reunião com Bani Ki-Moon [secretário geral da ONU], falamos de vários assuntos e, acima de tudo, sobre a Síria,” que é considerado um tema capital para a região, de acordo com Salehi. 

Sobre as negociações em torno do programa nuclear iraniano, no encontro realizado em fevereiro em Almaty, no Cazaquistão, com o Grupo 5+1 (membros do Conselho de Segurança mais a Alemanha) Salehi disse que estão bem assentadas para dar seguimento ao processo de diálogos. O encontro “definiu o tom para futuras negociações, e o processo foi iniciado, afirmou. 

O ministro disse ainda que “o processo não só foi iniciado, mas foi posto na direção correta, está bem encaminhado.” Salehi mostrou-se confiante sobre um resultado positivo já para os próximos meses, neste sentido. “As duas partes chegaram a um ponto em que entendem que esta é uma boa oportunidade para chegar a um acordo (...), são negociações com dois ganhadores,” disse o ministro, referindo-se ao conceito diplomático conhecido por situação “win-win”.

O diplomata evitou entrar em detalhes, mas afirmou que ambas as partes estão dispostas a ceder em alguns aspectos, pelo bem da manutenção dos diálogos. “O Irã está preparado para empregar todos os mecanismos e instrumentos internacionalmente reconhecidos para aliviar as preocupações do Grupo 5+1,” continuou, sem deixar de mencionar a postura iraniana, que reivindica o reconhecimento do seu direito a um programa nuclear pacífico.

Ainda em fevereiro, um relatório do diretor geral da Agência Internacional de Energia Antômica Yukiya Amano já havia concluído, depois de 10 anos de inspeções, que não há “indícios de desvios no programa nuclear iraniano” para objetivos bélicos. O Irã sempre manteve a afirmação de que o enriquecimento de urânio, no país, serve apenas propósitos pacíficos, como pesquisas médicas, direito garantido pelo Tratado de Não Proliferação nuclear de que é signatário.

Aliança de Civilizações

Com relação à reunião do grupo autodenominado “Amigos da Síria” em Roma, na semana passada, em que o secretário de Estado dos EUA John Kerry anunciou “mais apoio à oposição”, Salehi disse: “nós temos que ser realistas; se queremos resolver a crise na Síria, temos que seguir políticas reais”, já que “todos temos que reconhecer o fato de que há um governo na Síria.”

Salehi lembra que há de fato um “governo legal, e ninguém tem direito, nenhum poder externo, nenhum outro país na região, a exigir a renúncia do governo sírio, porque isso suporia uma interferência na política nacional de um, país.”

O ministro chamou a atenção ainda para a necessidade de pôr fim às acusações mútuas, com relação ao governo e à oposição síria. “É preciso perseguir uma política real, olhar adiante, juntar o governo e a oposição, formar um governo interino, desenhar uma nova Constituição e convocar eleições parlamentares e presidenciais, tudo sob a supervisão internacional e da ONU,” resumiu Salehi.

O diplomata reforça ser imperativo que se deixe o povo sírio decidir quem deve presidir o seu país, e não outro país que não seja a Síria. “Eu acho que se nos importamos com a vida das pessoas, acima de tudo, temos que fazer o melhor para parar o derramamento de sangue na Síria,” afirmou.

Os mercenários e equipamento militar usado por eles também foi mencionado por Salehi, que questionou retoricamente a sua proveniência. “Os serviços de inteligência ocidentais dizem que a maioria vem de fora, que são de Al-Qaeda e de grupos extremistas deste tipo, mas isso é útil para evitar o derramamento de sangue? Não me parece,” disse o ministro. Para ele, se o Ocidente quiser demonstrar real preocupação com o povo sírio e com uma solução para a crise, é preciso facilitar uma reunião entre as partes.

O papel do Irã e as sanções

O Irã é parte do Quarteto composto através de uma proposta do presidente do Egito, Mohamed Mursi, em permanente contato com o enviado especial da ONU para a Síria, Lakhdar Brahimi, e com o secretário geral da ONU Ban Ki-Moon, para reafirmar o seu apoio ao papel da organização.

“Sejam quais forem os passos necessários para a solução desta crise, estamos preparados para dá-los, e estamos em permanente contato com todos,” disse Salehi, que ainda mencionou um plano de seis pontos apresentado pelo Irã há alguns meses à Arábia Saudita, Rússia, Egito, Turquia e ONU.

“É a proposta mais exaustiva que vi até o momento e gostaria que ela voltasse a ser trabalhada,” segundo Salehi, pois foi composta com base em diferentes propostas anteriores, inclusive a da Liga Árabe e a do antigo enviado à Síria e ex-secretário geral da ONU, Kofi Annan.

Perguntado sobre a proibição da emissão de canais iranianos na Europa, Salehi disse que a postura vai de encontro a tudo o que os europeus sempre pregaram, como a liberdade de expressão. Ao proibir uma emissora como a HispanTV, por exemplo, a Europa também acabou por “respaldar a nossa reivindicação de que os europeus estão acostumados a uma dupla moral quando se quer falar de algo que não segue a sua linha,” afirmou Salehi.

As sanções internacionais contra o Irã mais uma vez foram minimizadas pelo diplomata, apesar de admitir que elas realmente tiveram algum impacto. “O Irã é um grande país, com uma grande economia,” de 1 trilhão de dólares, lembrou Salehi, com uma forte base na exportação de petróleo mas não limitada a isso, já que esta atividade representa apenas 10% da economia iraniana, de acordo com ele.

“Se não precisássemos de uma divisa forte para comprar no exterior, as sanções sequer teriam nos afetado; produzimos nossos próprios alimentos, nossos próprios bens industriais, produzimos qualquer coisa de que precisemos (...) As sanções perturbaram muito ligeiramente a nossa economia,” concluiu Salehi, que garantiu que os iranianos não ficaram parados esperando os efeitos das sanções, e que têm sido bem-sucedidos em buscar alternativas.

Com HispanTV
Da Redação do Vermelho 
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