Brasil

25 de maio de 2012 - 17h00

Brasilidade: a evolução do chorinho no sorriso dos chorões

Preconceito racial: - Os Oito Batutas: sucesso em Paris, portas dos fundos no Rio de Janeiro em 1928 (Pixinguina, 1º à direita da foto, de pé; Donga, 3º à esquerda, sentado) Preconceito racial: - Os Oito Batutas: sucesso em Paris, portas dos fundos no Rio de Janeiro em 1928 (Pixinguina, 1º à direita da foto, de pé; Donga, 3º à esquerda, sentado)


“Meu mundo ficou instantaneamente mais aquecido e brilhante quando o ambiente ao meu redor se inundou com os sons dessa música alegre e tecnicamente complexa, um híbrido europeu-africano que o Brasil chama de seu desde a década de 1870”. Assim a flautista Julie Koidin apresenta seu livro Os Sorrisos do Choro e mostra sua paixão pelo ritmo e pelo país que abraçou como seu. Ela veio ao Brasil para ampliar sues conhecimentos de seu objeto de pesquisa e, entra 2002 e 2003 entrevistou 52 chorões de várias partes do país, entre Altamiro Carrilho, Hermeto Pascoal, Sivuca, Joel Nascimento, Guinga, Paulo Mora, Luciana Rabello, Daniela Spielmann, Yamandu Costa.

Julie Koidin, a flautista que o chorinho encantou


O ritmo de Antônio Callado, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Jacob do Bandolim, Garoto, Waldir Azevedo, Radamés Gnatalli, Turíbio Santos, Raphael Rabelo, Baden Powell, Heraldo do Monte, Elton Medeiros, Pixinguinha e muitos outros, entrou em cena no Brasil imperial em meados do século 19 e constituiu a primeira música popular urbana genuinamente brasileira. Também consta que o primeiro a grafar em uma partitura o nome choro foi Antônio Callado na sua canção Flor Amorosa. Mas pela palavra dos próprios entrevistados vê-se Pixinguinha como o músico essencial para a transformação do gênero. Tanto que o dia 23 de abril, data de aniversário de Pixinguinha, foi determinado como o Dia Nacional do Choro.

Ao lado do desenvolvimento formal do gênero, o choro também registrou situações existenciais terríveis que ressaltam o preconceito racial. Um exemplo é uma das mais famosas composições de Pixinguinha. Ele, conta o flautista Altamiro Carrilho, "foi receber uma homenagem e não foi tratado com respeito". O grande músico "era o homenageado da noite, ia receber uma placa de ouro pelo sucesso que fizera na França, e um jornalista brasileiro chamado Assis Chateaubriand providenciou essa homenagem num hotel famoso aqui no Rio de Janeiro. Os porteiros receberam uma ordem e cumpriram. Pixinguinha e os membros do conjunto dele, chamado Os Oito Batutas, foram barrados na entrada, porque os negros deviam entrar pela porta dos fundos. E o Pixinguinha disse ao porteiro: 'lamento, mas sei que o senhor está cumprindo ordens'. E o porteiro disse: ' eu também lamento'. E entrou pela cozinha do hotel - cheiro de gordura, fritura, tudo. O Donga então disse: 'mas que absurdo, que vexame, que vergonha nós passamos!'. E o Pixinguinha: 'eu lamento, mas não vamos comentar mais esse assunto'. E novamente, antes de receber a homenagem, ele disse outra vez a palavra lamento quando alguém comentou o fato. Na saída, o Donga perguntou a ele: 'Pixinguinha você disse três vezes a palavra 'lamento', por que não escreve um choro com esse nome?'".

Outro instrumentista muito citado por todos é Jacob do Bandolim, considerado um perfeccionista e inovador do uso do instrumento. “A partir dele, acho que passou a existir outro instrumento, que eu chamo de ‘bandolim brasileiro’”, diz p chorão Afonso Machado.

Koidin conta que certa vez disseram a ela: “se você é flautista, então tem que ouvir Altamiro Carrilho”. O flautista carioca contou a sua história e reclama da mercantilização da música e do abandono que a música instrumental sofre no país, relegada pelas emissoras de rádio e tevê. “Os programas que estão no ar são vergonhosos, exploram sexo, essa coisa toda, tipo Big Brother, não têm nada de arte”. Para Altamiro “os meios de comunicação estão travando as artes, bloqueando as artes. A verdadeira arte está escondida”.

Os ritmos nacionais mais conhecidos no exterior são o samba e a bossa nova. E ao se deparar com o choro Julie se encantou e começou a buscar novos conhecimentos sobre o ritmo brasileiro. Na medida em que foi aprofundando seu contato com o gênero, Julie se aproximou mais do país e seu interesse em conhecer a cultura brasileira cresceu na proporção de sua paixão pelo choro; por isso, diz ela, “o choro me encontrara, disso eu tinha certeza”.

Uma vez no Brasil, ela se estabeleceu primeiramente no Rio de Janeiro, berço do choro. Saiu a campo para entrevistar músicos relacionados ao ritmo e, por fim, publicar um livro. Ela queria saber mais sobre essa música instrumental sincopada, com origem semelhante ao jazz norte-americano. Como diz Luciana Rabello “são músicas da mesma raiz, na verdade, que se desenvolveram em lugares diferentes”. Para ela, “dentro do cenário da música instrumental do Brasil, o choro é a mais rica e a que oferece mais dificuldade técnica, a que faz a pessoa estudar mais”. Já Yamandu Costa afirma que “o choro é aquela música feita com seriedade, tem que ser ouvida com muito silêncio e tem que ser respeitada”.

Mas a mídia colhe mal o choro. Praticamente não há música instrumental nas rádios e muito menos na televisão. “Estamos no Brasil, mas eles procuram tocar mais música estrangeira”, reclama Darly do Pandeiro. Já Mauricio Carrilho acentua que “a grande indústria tem investido tudo numa música de vendagem rápida, que não tem futuro”. Para ele a “venda de droga musical é tão nociva e tão degradante para o homem quanto a de drogas químicas”. Predomina a pasteurização e a mercantilização e tudo vira produto descartável para ser substituído rapidamente.

A música

A definição do nome choro gera polêmicas. José Ramos Tinhorão e Lúcio Rangel acreditam que ele deriva da maneira chorosa de se tocar as músicas estrangeiras no século 19. Enquanto Ari Vasconcelos defende que seria uma corruptela de choromeleiros, espécie de bandas do Brasil colônia. Câmara Cascudo acredita que deriva de “xolo”, um tipo de baile dos escravos.

Na verdade, “o que define um choro é o sotaque”, afirma Cristovão Bastos. Para ele, o mais importante é que “as pessoas sempre conseguissem manter a característica maior, que é a brasilidade”.

Julie encontrou uma divisão em basicamente três correntes do choro. Uma tradicionalista, que não aceita alterações de espécie alguma; aqueles que desejam colocar tudo de ponta-cabeça; e finalmente os que preferem mudanças sem, no entanto perder as características principais do gênero.

Paulo Moura diz com propriedade que “existe aquele choro que Altamiro toca que antigamente era tocado por um regional, mas é bem característico da vida de subúrbio do Rio, da música do Rio de Janeiro, bem carioca; e existe o choro dos cassinos, das big bands, que tem uma aceitação da expressão jazzística, da simpática expressão jazzística. Nesse choro existe improvisação. É nessa linha de choro que me sinto mais à vontade”.

Mauricio Carrilho acredita que “o choro normalmente tem uns temas grandes, com três partes, muito extenso, com modulações surpreendentes o tempo inteiro... O choro é uma melodia que se basta, não é preciso improvisar, mas você pode improvisar, se tiver ideias”.

Para Guinga “a arte só tem razão se você tentar movimentar o que já foi feito e jogar alguma coisa para frente”, mas “só se consegue ser moderno quem já ouviu a tradição”; na verdade “acho que tudo é feito com um pé no passado, outro no presente e a cabeça no futuro”, afirma.

Franklin da Flauta pensa que “modificação sempre houve e sempre vai haver”, porém “inovar demais é arriscado”, pois “a música é a arte da surpresa e da expectativa”. Carlos Malta defende a possibilidade de “criar música de qualidade no sentido tradicional, mas com janelas e portas abertas a um novo tipo de harmonia, de melodia, um novo gosto da mesma coisa”. Leonardo Mirando dá uma definição concisa: “não dá para ser solto, sem conhecimento e não dá para dominar o conhecimento e ser fechado a informações”.

A evolução do choro é nítida ao observarmos canções de Chiquinha, Nazareth, Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Altamiro Carrilho, Baden Powell, Hermeto, Sivuca, até os grupos contemporâneos. porque toda arte vivia se modifica com o tempo e novas experimentações, inclusive na maneira de executá-las, sem no entanto, perder contato com suas raízes. Essa é a principal lição deixada pelo livro de Julie, pelo qual ela passou a amar o Brasil como seu país e o choro com sua música, que quer divulgar o choro em todos os cantos do mundo.

*Colaborador do Vermelho

Livro
Julie Koidin. Os Sorrisos do Choro: uma jornada musical através de caminhos cruzados. São Paulo, Choro Music, 2011.

Choros:
Rosa (Pixinguinha, 1917)




Lamento (Pixinguinha, 1928)




Brasileirinho (Waldir Azevedo, 1947)



  • VOLTAR
  • IMPRIMIR
  • ENCAMINHAR

Últimas Mais