Cultura

10 de janeiro de 2012 - 17h10

Rap indígena é atração no Fórum Social Temático 2012


   

A Opera Rap Global é um dos evento culturais do FST 2012 e reunirá griôs, mestres, poetas, músicos, compositores com produções artísticas relacionadas aos temas do FST 2012. A partir do dia 25, diversas atividades sobre o tema acontecerão no Memorial do Rio Grande do Sul, no centro de Porto Alegre (RS), e também em São Leopoldo, na Grande Porto Alegre.

O Brô MCs musicou a obra de Boaventura, que se apropria de um alter ego chamado Queni N.S.L. Oeste, um jovem rapper português nascido no Barreiro, na periferia de Lisboa, que narra a história.  Publicado pela editora carioca Aeroplano, foi lançado no Brasil em 2010 e é uma espécie de denúncia das injustiças sociais, com causa própria: opressão, marginalização, humilhação, silenciamento, fome, desrespeito, violência, a mutilação física e moral.

Confira abaixo uma entrevista feita pela Central Única das Favelas (CUFA), com integrantes do Brô MC's, na Reserva Indígena Jaguapiru, Escola Municipal Tengatuí Marangatu, em 2008:

Cufa:
Como e quando nasceu o Brô MC`s?
Brô M?C's (Bruno):
Então o Brô nasceu na gravação do filme vídeo Word (Terra Vermelha – 2008), ai, eu primeiro né?! Comecei a compor as músicas. Fui conhecendo os parceiros, o Charlie, o Kelvin, ai o Clemerson também, ai foi surgindo aquela amizade mesmo, pra compor rap, ser MC mesmo, ai foi indo, e ganhando força com as oficinas.

Bruno do Brô MCsCufa: Por que Brô MC`s?
Brô MC's (Bruno): Vem de irmão né?! Eu e ele (Clemerson e Bruno somos irmãos), o Kelvin e o Charlie é irmão também, então é isso!

Cufa: Brô na língua guarani significa irmão?
Brô MC's (Kelvin):
Não Brô é inglês, brother é irmão.

Cufa: E irmão em guarani seria como?
Brô MC's: Se for mais velho é Xerykey, se for mais novo é xeryvy.

Cufa: Qual a formação atual do grupo?
Brô MC's(Kelvin): Primeiro veio o Bruno e o Clemerson, ai depois o Charlie e eu entrei...
(Bruno) A gente começou na dança, daí surgiu à idéia de fazer umas letras também.

Cufa: Quais são as influencias musicais de vocês?
Brô MC's(Bruno): Então a gente se inspirou mesmo no pessoal de fora, que curtia mesmo, no rap nacional.
(Kelvin) Acho que a inspiração mesma minha foi..., é tipo uma denuncia do que acontece aqui na aldeia, tipo as mortes, a violência né?! Acho que através do rap a gente pode falar e critica ao mesmo tempo.
(Bruno) É isso ai que ele falou tipo, critica, fala um pouco do que acontece na nossa aldeia e mostrar um pouco do que é Guarani Kaiowá pros não-índios também.

Cufa: Por que o rap?
Brô MC's (Bruno): Então o rap pra nós é uma ferramenta pra própria defesa contra o preconceito o racismo. E mostrar que nóis somos índios e nossa voz nunca vai se calar.
(Charlie) Por que também o rap é protesto, por que ai a gente pode falar o que a gente pensa né!

Cufa: De onde vem às inspirações para escrever as letras? Falem um pouco sobre essa mistura de português com o Tupi Guaraní.
Brô MC´s (Bruno):
Então a inspiração é falar um pouco em guarani também, o guarani no rap, mostrar um pouco nossa identidade, Guaraní Kaiowá pro pessoal ver e mescla nossa língua com o português. E assim vai indo a letra da música.

Cufa: Você acha que assim consegue não só atingir os índios como os não índios?
(Bruno) É a nossa idéia é essa mesmo.

Cufa: E qual a mensagem que vocês pretendem passar em suas músicas?
Brô MC's (Bruno):  A nossa mensagem mesmo é levar pro pessoal idéias positivas, para não entrar no caminho errado, no caminho das drogas da violência, sair do mundo do crime, que acontece aqui dentro da aldeia mesmo e o pessoal agora tão junto com a gente aqui, o pessoal do break, e tamo ai!

Cufa: Recentemente vocês foram convidados para abrir o show do Milton Nascimento em Campo Grande, falem um pouco sobre isso.
Brô MC's: (Bruno): Então pra nós é uma grande emoção pra ta indo lá né!
(Kelvin): Milton Nascimento acho que é um grande cantor de MPB né! Que na música que fizemos com o Fase Terminal, a música “No Yankee” que na abertura a parte da música dele é cantada né, onde entra a parte do Milton Nascimento, que a gente é índio, como na música ele fala, “por que vocês não sabem, do lixo ocidental...” (Para Lennon e McCartney). Então eu acredito que a gente é visto assim pelos “brancos” né, como se a gente fosse uns lixo né! Não é porque eu to criticando os brancos, mas muita gente acha que o índio é como se fosse um lixo, só que eu acho que dependendo do tempo, isso tá mudando nos dias de hoje né, como por exemplo a gente já é reconhecido nas grandes cidades, só que em algumas cidades a gente não é reconhecido, mas eu acredito que daqui pra frente que o povo indígena possa ser reconhecido e que a gente não seja mais vitima da violência, do preconceito, racismo.

Clemerson do Brô MCsCufa: Como vem sendo a receptividade do CD na aldeia e como vocês identificam isso nos não índios?
Brô MC's (Kelvin): Eu acho que o CD fala de muitas coisas, a maioria das músicas fala sobre o racismo...
Clemerson: O nosso CD fala sobre a maioria das coisas que acontecem aqui, sobre a nossa realidade, ai a gente passa, a gente escreve no CD esfria nossa cabeça, falando dessas coisas, a realidade daqui da aldeia mesmo. Então sobre isso a gente grava, a gente escreve, a gente vê o fato que acontece aqui na reserva, então por isso a gente escreve nossas letras e os rap que a gente fala né?! Então a gente é o rapper que fala daqui da reserva, também da cidade, sobre um pouco das crítica que o parceiro tava falando, então é isso.
Kelvin: Eu acho que a gente, sabe como que é? A cultura Hip Hop ele vem dos negros eu acho né? Começaram nas periferia né? Eu acredito que ele foi inventado pelos “brancos” não é por isso que a gente ta deixando nossa cultura, que a gente que é índio como a língua por exemplo que é mais importante nas nossas vidas né, e o rap ele vem das culturas dos “brancos” né? Só que eu acho que a gente não mistura isso daí né?! A gente coloca os dois juntos, tanto a cultura dos “brancos” como o que é da cultura dos indígenas, como o guaxiré (dança típica) mais o rap né!
(Clemerson) A maioria do rap nacional vem do que aconteceu nos EUA dos negros, surgiu lá, então veio os rapper`s, ai vejo como ele (Kelvin) falou também, não é por que a gente ta cantando rap que a gente ta deixando nossa cultura, a nossa cara, a nossa pele e o nosso sangue já mostra que a gente é índio mesmo, por ai a gente é reconhecido de longe como índio mesmo.

Cufa: Qual a visão de vocês sobre a reserva indígena e essa proximidade com a cidade, isso ajuda ou atrapalha?
Brô MC's (Kelvin): Acho que ajuda né, porque se fosse só nóis indígena eu acho que não vai levanta nada, mas com a ajuda dos “brancos” o pessoal da cidade aqui nas aldeia eu acho que ajuda muito, porque a cidade é perto, pra comercio é perto. E essa proximidade dos índios com os não índios, eu acho que é muito bom porque afinal a gente sempre é ajudado pelos “brancos” né?! Eu acho que é bom essa proximidade do índio com o não índio e acho que eles tem essa curiosidade com o povo indígena.

Cufa: A questão da demarcação de terras indígenas no estado é um assunto que deve ser debatido melhor? Acha isso importante?
Brô MC's (Kelvin): Olha, eu acho que é importante, porque como a gente... Os nossos ancestrais, os nossos antepassados... Aqui o Brasil antes era dos índios né! Ai chegaram os portugueses lá o Cabral, dizendo que ele descobriu o Brasil, ai que eu pergunto, ai que eu pergunto: ele descobriu mesmo o Brasil ou não? Eu acho que não né, ele não descobriu o Brasil, quando ele chegou já existiam humanos que viviam aqui no Brasil que é o índio né?!

Cufa: Como que o índio vem sendo tratado na cidade? Essa circulação é tranqüila ou existe preconceito?
Brô MC's (Clemerson): Alguns lugares que a gente chega tem preconceito, por exemplo a gente mesmo tava no lugar para se apresentar, a gente foi lá para cantar nossas músicas, ai a gente tava lá esperando, ai de repente vem os alunos já falando “aqui não é a usina!” (muitos indígenas de Dourados e de outras reservas trabalham como cortadores de cana de açúcar em usinas da região, trabalho insalubre e muitas vezes a beira da escravidão) Eles acha que só porque a gente é índio a gente vai ta trabalhando na usina(risos).
Kelvin: Eu acho que como a gente é índio né, a gente é um pouco diferente, a cor, a pele né! E quando a gente ta em tal lugar, as pessoas... Eu não sei qual que é o sentimento dessas pessoas sente quando vê o índio né?! Eles começam a... Principalmente que tem mais preconceito com os índios mesmo é os guarda municipal, não por que eu to criticando os guarda municipal, mas isso acontece por que eu já fui vitima disso, eu e mais tantos indígenas ai. E eu acho isso preconceito por que quando eles chega, eles pensa que a gente um tipo de bandido perigoso, quando a gente usa essas roupas mesmo de Hip Hop, com estilo de rua mesmo, ai eles chega se achando mesmo, querendo ser o dono daquele lugar e tal mandando por a mão na cabeça, revistando ai... Eu não acho legal isso daí não, o preconceito deles ai com os indígenas, isso ai não é bom não. Mas tem vários lugar que o índio é respeitado né?! Acho que o pessoal da aldeia de Dourados, a situação do índio aqui, eu acho que ele ta sendo respeitado aqui na aldeia de Dourados, mas em outras aldeias o índio não é respeitado, pelo que eu tenho acompanhado.

Cufa: Na opinião de vocês o que melhoraria a vida de vocês na reserva?
Brô MC's (todos): Apoio.
Bruno: E o estudo em primeiro lugar e ter mais mesmo uma mente positiva, não uma mente negativa na comunidade indígena.
Kelvin: A pessoa tem que valorizar mais o estudo e a cultura.

Cufa: O que vocês preferem a cidade ou a aldeia?
(Kelvin): Eu acho que a aldeia é bem melhor que a cidade, aqui na aldeia a gente não paga nada né?! Não é que a gente não paga nada, a gente paga energia elétrica, é isso né!
(Clemerson): Pouca coisa a gente paga.

Cufa: Na cidade tudo paga?
Brô MC's (Kelvin): Na cidade a gente tudo paga (risos), isso não tem como negar não!

Cufa: Como é a relação dos costumes indígenas com as novidades que vem da cidade essa troca, isso ajuda ou atrapalha?
Brô MC's (Bruno): Olha ajuda pra caramba essa troca, ajuda as pessoas que tão no caminho errado a vir no caminho certo, ajuda também o incentivo na escola.
(kelvin): É porque muitos brancos vem trabalhar aqui na aldeia né, e eles ensina a ter respeito, e mais um monte de coisas né, eu acho muito boa essa proximidade.

Cufa: Qual a visão de vocês sobre a história dos índios no Brasil?
Kelvin do Brô MCsBrô MC's (Kelvin): Bom eu acredito que eles foram... Pelas historias dos livros que eu li e gosto de ler essas historias. Eu acho que o índio ele foi massacrado, não é que ele foi massacrado né?! Eles chegaram no Brasil como se fosse um descobrimento, só que eles chegaram lá e disseram que a posse dessa terra era dos “branco” né!
(Charlie) É a mesma coisa que a gente chegar na casa de alguém e falar: “eu descobri essa casa”, é que nem se fosse assim aqui, nas historias.
(Kelvin) Então ai eles começaram a escravizar o povo indígena né?! Só que o povo indígena como ele é acostumado a achar os alimentos deles que vem da própria terra, a própria natureza da o alimento deles, eles (portugueses) acharam que o os índios fossem “fortões” ai eles começaram a escravizar, mandaram eles corta Pau Brasil, exporta e tal ai, mas com o passar do tempo o índio foi resistindo.

Cufa: Vocês acreditam que possa existir algum tipo de preconceito pelo Brô MC`s tratar de um grupo de rap indígena no século XXI?
Brô MC's (Kelvin): Eu acho que tem sim né. Eu acho que a gente é uma novidade no mundo porque a gente é índio a gente fala a nossa língua e ao mesmo tempo a gente fala o português e essa mistura das duas culturas, ai eles espalha por ai... Eu acredito que deve ter certo preconceito sim, não só dos outros grupos, como também das pessoas né?!
Bruno:É porque é o primeiro grupo de rap indígena a lançar um CD demo para todo mundo ouvir e expressar... Então eu acho que vai existir sim um monte de preconceito.
Kelvin: Não. Quando a gente ganhou lá em Campo Grande (RPB Festival – 2009), eles colocaram um monte de critica sobre o Brô MC`s mesmo, o pessoal falaram que não gosto porque a gente ganhou lá, que a gente não merecia, merecia outro grupo e tal, eu acredito que o preconceito existe sim.

Cufa: O que a CUFA representa pra vocês?
Brô MC's (Kelvin): Eu acho que a CUFA representa uma conquista pra nós, porque eu acho que através da CUFA, ela ajudando nóis, eu acho que a gente pode crescer com a ajuda deles, eu falo crescer como o índio pode ser representado em vários cantos do Brasil.

Cufa: Como é a vida na aldeia?
Brô MC's (Kelvin): A vida na aldeia é normal né, só que tem muita gente ai que vai pelo caminho errado não pelo certo, como tem esse lance ai de drogas, violência, briga nas festas, rebeldia ai, essas coisas.

Cufa: Deixem uma mensagem para os nossos leitores, fãs e todos que vem acompanhando o trabalho do Brô MC`s.
Brô MC's (Kelvin): Eu acho que como a gente é índio eu acho que a gente tem que seguir em frente, não deixando de lado a cultura nossa né! E também dizer aos leitores que lerem essa entrevista, que eles participem muito dos nossos shows e que eles gostem das nossas músicas né?! Que outros indígenas que eles possam seguir a gente nesse momento.
Bruno: Então é isso, nós queremos agradecer a todos vocês, agradecer a todos, em nosso nome vou agradecer pela oportunidade de ta mostrando nosso trabalho pra vocês, é isso ai.
Clemerson: A gente ta levando nosso rap onde ta chegando, a gente não é mau que nem os outros pensam, o nosso rosto parece que a gente é bravo, mas não é não, a gente chega conversa e tal, então é isso ai, se quiser conversar vem aqui na aldeia procura o Brô MC`s que a gente vai ta aceitando vocês e seja bem vindo aqui na aldeia.
Carlie: Desejo paz e respeito, tem quer assim mesmo.


Confira dois clips do Brô MCs:







Baixe o CD do Brô MCs aqui

Serviço:
Ópera Rap Global
Show RAP GLOBAL Hip Hop sem fronteiras e Brô MC's Rap Indigena Kaoiwá
Dia: 26/01/2012
Local São Leopoldo/RS
Palco PrincipalHora: 21h

Com Cufa e Fórum Social Mundial



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