Economia

27 de dezembro de 2011 - 14h42

O Brasil ficou maior que o Reino Unido. E agora?


A notícia da ultrapassagem do Reino Unido pelo Brasil em termos de tamanho da economia despertou o velho vira-lata que dorme no coração de muitos cronistas conservadores, o personagem do complexo descrito por Nelson Rodrigues e que, nestes tempos de otimismo nacional, parecia ultrapassado.

Os jornais se transformaram numa espécie de muro de lamentações. Afinal, aconteceu o impensável - a velha Albion, a potência imperialista que foi dona de um império onde o sol jamais se punha, ficou para trás na competição com um país sul-americano; coisa de mexer com os brios e os sentimentos conservadores!

Mas o que é mesmo que o tamanho do PIB mede? Esta é a questão. Segundo o Centro para a Investigação Econômica e Empresarial (Centre for Economics and Business Research - CEBR), de Londres, o PIB brasileiro de 2011 bateu em 2,5 trilhões de dólares, deixando para trás o britânico, de 2,48 trilhões, levando à troca de posição dos países na tabela das maiores economias mundiais - o Brasil ficou com a sexta posição, relegando os ingleses para à sétima.

Ninguém em sã consciência pode afirmar que, ao ultrapassar os britânicos em tamanho da economia, o Brasil já tenha alcançado o mesmo padrão de bem estar social lá existente. Há ainda um longo caminho pela frente, como reconhece o próprio ministro da Fazenda Guido Mantega, que imagina um prazo de duas décadas para chegar lá.

Há uma tendência quase geral, entre os comentaristas dos jornalões, em minimizar a ultrapassagem do Reino Unido pelo Brasil. Os pessimistas de plantão alegam as mazelas de sempre, que comprometem a qualidade de vida dos brasileiros: deficiências na educação, na saúde, e por aí vão. Pelas quais, é preciso reafirmar, seus "heróis" econômicos conservafdores tem culpa histórica ao entravar o desenvolvimento e impedir a distribuição de renda. Lembram ainda a valorização do real que inflacionaria a conversão aumentando, em dólar, o valor da produção nacional. Houve um que mal disfarçou o racismo ao dizer que a África, se fosse uma nação só - ideia completamente fora de propósito: e a Europa, se fosse uma nação só? A partícula “se” não se aplica à análise histórica ou politica, que precisa partir de realidades concretas e não de um “se” imaginário - seria uma potência mundial, mesmo com a população amargando a pobreza conhecida.

Comparações desse tipo podem ser simplórias e escamotear aquilo que precisa ser entendido realmente quando uma marca como esta é ultrapassada. O PIB nada mais é do que um indicador do dinamismo da economia e o feito anunciado neste final de ano mostra que a economia brasileira está mais saudável e dinâmica do que a britânica ou qualquer outra europeia com que seja comparada.

Este é o ponto principal, que os conservadores rejeitam e torcem contra: mostra que a opção econômica feita pelo governo federal desde a posse de Lula, em 2003, está no rumo certo. Não é perfeita; as críticas se acumulam, com razão. Juros escandalosamente altos, câmbio flutuante, superávit primário, tudo isso revela a força que a especulação financeira ainda mantém e que funciona como trava a um desenvolvimento que poderia ser mais acelerado.

Mas formam-se no país as condições, cada vez mais concretas e reais, para uma nova aliança pelo desenvolvimento, unindo trabalhadores, governo e empresários da produção, capaz de mobilizar a força política necessária para erradicar aquele tripé herdado dos tempos de hegemonia neoliberal. Esta é a raiz do incômodo conservador, da torcida para que a política desenvolvimentista não dê certo. É a frente da especulação financeira contra a aliança pelo desenvolvimento.

Outro aspecto que o dinamismo da economia brasileira expõe - ao lado dos demais países que formam o grupo dos BRICs - é a mudança nas relações de poder no mundo, e que o próprio Douglas McWilliams, do CEBR, reconheceu ao anunciar esta novidade que, para muitos, é inquietante. A tabela sobre as grandes economias mundiais está mudando, disse ele. E vai mudar mais radicalmente até o final da década, quando os países europeus perderão as posições de destaque que ainda mantém. Em 2020, imagina ele, a Alemanha terá caído para a sétima posição, o Reino Unido para oitavo lugar e a França será a nona maior economia do mundo. A China já os ultrapassou a todos, e as demais posições de destaque serão ocupadas por Brasil, Rússia e Índia. “Creio que é parte de uma grande alteração económica”, disse McWilliams, “na qual não apenas vemos uma transferência de ocidente para oriente, mas também países que produzem artigos essenciais – comida, energia e coisas do gênero – desenvolvendo-se muito bem e subindo gradualmente na tabela da liga econômica”.

É uma mudança na ordem mundial de envergadura e num ritmo mais rápido do que o esperado. Quando a corretora Goldman Sachs passou a difundir a sigla BRIC, em 2003, previa que essa alteração que parece tão radical ocorreria num tempo mais distante, supondo que o Brasil ultrapassaria a Itália, em tamanho da economia, em 2025, e a França e ao Reino Unido somente em 2035. Errou por 24 anos! 

O ministro Mantega, por sua vez, é otimista e cautelo. “Os países que mais vão crescer”, prevê, “são os emergentes como Brasil, China, Índia e Rússia. Dessa maneira, essa posição vai ser consolidada e a tendência é de que o Brasil se mantenha entre as maiores economias do mundo nos próximos anos”, declarou em comunicado.

O que há, de fato, é que o Brasil reencontrou, nos três últimos mandatos presidenciais, a vocação do crescimento. Os temas principais da política econômica deixaram de ser aqueles que interessam diretamente à especulação financeira (cortes nos gastos públicos, austeridade fiscal e coisas do gênero) e a busca do crescimento e do bem estar dos brasileiros passou a fazer parte das preocupações daqueles que conduzem o país e a economia.

Sob Fernando Henrique Cardoso e a ortodoxia neoliberal era uma heresia propor ou pretender que o Estado e o governo tivessem responsabilidades na promoção do desenvolvimento. Deu no que deu: o Brasil parou durante duas décadas em consequência daquelas políticas econômicas antinacionais e antidesenvolvimentistas adotadas por aqueles governos marcados pelo atraso e pelo retrocesso.

Isso passou, e a nova orientação vai se consolidando, com resultados reconhecidos pelos brasileiros que passaram a viver um pouco melhor, com emprego e renda, e também pelo mundo, como se viu no anúncio feito em Londres.

Há um caminho longo ainda, é preciso reconhecer. Ele será pavimentado pelo aprofundamento da opção pelo desenvolvimento hoje hegemônica e pela derrota e superação do entulho neoliberal formado pelo tripé que favorece a especulação financeira. Isso vai permitir que o país consolide a busca do crescimento e do bem estar, que dependem da distribuição de renda, do fortalecimento e democratização das relações de trabalho, da consolidação da democracia no país e da derrota do vampirismo que drena recursos públicos do orçamento para um pequeno punhado de famílias super-ricas que parasitam a vida financeira do país.


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