Brasil

12 de maro de 2011 - 0h03

Chico Buarque de Holanda: Almas femininas


chico
O Vermelho escolheu um conjunto dessas canes para homenagear a mulher neste 8 de maro.


Com acar com afeto
(1966)



Com acar, com afeto, fiz seu doce predileto
Pra voc parar em casa, qual o qu!
Com seu terno mais bonito, voc sai, no acredito
Quando diz que no se atrasa
Voc diz que um operrio, sai em busca do salrio
Pra poder me sustentar, qual o qu!
No caminho da oficina, h um bar em cada esquina
Pra voc comemorar, sei l o qu!
Sei que algum vai sentar junto, voc vai puxar assunto
Discutindo futebol
E ficar olhando as saias de quem vive pelas praias
Coloridas pelo sol
Vem a noite e mais um copo, sei que alegre ma non troppo
Voc vai querer cantar
Na caixinha um novo amigo vai bater um samba antigo
Pra voc rememorar
Quando a noite enfim lhe cansa, voc vem feito criana
Pra chorar o meu perdo, qual o qu!
Diz pra eu no ficar sentida, diz que vai mudar de vida
Pra agradar meu corao
E ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado
Como vou me aborrecer? Qual o qu!
Logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato
E abro os meus braos pra voc.


Carolina
(1967)



Carolina, nos seus olhos fundos guarda tanta dor, a dor de todo esse mundo
Eu j lhe expliquei, que no vai dar, seu pranto no vai nada ajudar
Eu j convidei para danar, hora, j sei, de aproveitar

L fora, amor, uma rosa nasceu, todo mundo sambou, uma estrela caiu
Eu bem que mostrei sorrindo, pela janela, ah que lindo
Mas Carolina no viu...
Carolina, nos seus olhos tristes, guarda tanto amor, o amor que j no existe,
Eu bem que avisei, vai acabar, de tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar, agora no sei como explicar

L fora, amor, uma rosa morreu, uma festa acabou, nosso barco partiu
Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela e s Carolina no viu


Essa moa t diferente
(1969)



Essa moa t diferente
J no me conhece mais
Est pra l de pra frente
Est me passando pra trs
Essa moa t decidida
A se supermodernizar
Ela s samba escondida
Que pra ningum reparar
Eu cultivo rosas e rimas
Achando que muito bom
Ela me olha de cima
E vai desinventar o som
Fao-lhe um concerto de flauta
E no lhe desperto emoo
Ela quer ver o astronauta
Descer na televiso
Mas o tempo vai
Mas o tempo vem
Ela me desfaz
Mas o que que tem
Que ela s me guarda despeito
Que ela s me guarda desdm
Mas o tempo vai
Mas o tempo vem
Ela me desfaz
Mas o que que tem
Se do lado esquerdo do peito
No fundo, ela ainda me quer bem

Essa moa t diferente (etc.)

Essa moa a tal da janela
Que eu me cansei de cantar
E agora est s na dela
Botando s pra quebrar


Minha histria
Lcio Dalla / Paola Pallottino (Verso de Chico Buarque – 1970))



Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar
Eu s sei que falava e cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no brao e dourado no dente
E minha me se entregou a esse homem perdidamente, lai, lai, lai, lai
Ele assim como veio partiu no se sabe pr onde
E deixou minha me com o olhar cada dia mais longe
Esperando, parada, pregada na pedra do porto
Com seu nico velho vestido, cada dia mais curto, lai, lai, lai, lai
Quando enfim eu nasci, minha me embrulhou-me num manto
Me vestiu como se eu fosse assim uma espcie de santo
Mas por no se lembrar de acalantos, a pobre mulher
Me ninava cantando cantigas de cabar, lai, lai, lai, lai
Minha me no tardou alertar toda a vizinhana
A mostrar que ali estava bem mais que uma simples criana
E no sei bem se por ironia ou se por amor
Resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor, lai, lai, lai, lai
Minha histria e esse nome que ainda carrego comigo
Quando vou bar em bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo
Os ladres e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem s pelo meu nome de menino Jesus, lai, lai
Os ladres e as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem s pelo meu nome de menino Jesus, lai, lai, lai, lai


Cotidiano
(1971)


Todo dia ela faz tudo sempre igual:
Me sacode s seis horas da manh,
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortel.

Todo dia ela diz que pr'eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher.
Diz que est me esperando pr'o jantar
E me beija com a boca de caf.

Todo dia eu s penso em poder parar;
Meio-dia eu s penso em dizer no,
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijo.

Seis da tarde, como era de se esperar,
Ela pega e me espera no porto
Diz que est muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixo.

Toda noite ela diz pr'eu no me afastar;
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pr'eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor.

Todo dia ela faz tudo sempre igual:
Me sacode s seis horas da manh,
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortel.

Todo dia ela diz que pr'eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher.
Diz que est me esperando pr'o jantar
E me beija com a boca de caf.

Todo dia eu s penso em poder parar;
Meio-dia eu s penso em dizer no,
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijo.

Seis da tarde, como era de se esperar,
Ela pega e me espera no porto
Diz que est muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixo.

Toda noite ela diz pr'eu no me afastar;
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pr'eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor.

Todo dia ela faz tudo sempre igual:
Me sacode s seis horas da manh,
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortel.


Soneto
(1972)



Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo

Por que no me deixaste adormecida
E me indicaste o mar, com que navio
E me deixaste s, com que sada

Por que desceste ao meu poro sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio


Anglica
Com Miltinho (1977)



Quem essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?

S queria embalar meu filho
Que mora na escurido do mar

Quem essa mulher
Que canta sempre esse lamento?
S queria lembrar o tormento
Que fez o meu filho suspirar

Quem essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo?

S queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar

Quem essa mulher
Que canta como dobra um sino?

Queria cantar por meu menino
Que ele j no pode mais cantar

Quem essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?

S queria embalar meu filho
Que mora na escurido do mar


Sem Compromisso
Nelson Trigueiro / Geraldo Pereira



Voc s dana com ele
E diz que sem compromisso
bom acabar com isso
No sou nenhum pai-joo

Quem trouxe voc fui eu
No faa papel de louca
Pra no haver bate-boca dentro do salo

Quando toca um samba
E eu lhe tiro pra danar
Voc me diz: no, eu agora tenho par

E sai danando com ele, alegre e feliz
Quando para o samba
Bate palma e pede bis

Deixa a menina
(1980)

No por estar na sua presena
Meu prezado rapaz
Mas voc vai mal
Mas vai mal demais
So dez horas, o samba t quente
Deixe a morena contente
Deixe a menina sambar em paz

Eu no queria jogar confete
Mas tenho que dizer
C t de lascar
C t de doer
E se vai continuar enrustido
Com essa cara de marido
A moa capaz de se aborrecer

Por trs de um homem triste h sempre uma mulher feliz
E atrs dessa mulher mil homens, sempre to gentis
Por isso para o seu bem
Ou tire ela da cabea ou merea a moa que voc tem

No sei se para ficar exultante
Meu querido rapaz
Mas aqui ningum o agenta mais
So trs horas, o samba t quente
Deixe a morena contente
Deixe a menina sambar em paz

No por estar na sua presena
Meu prezado rapaz
Mas voc vai mal
Mas vai mal demais
So seis horas o samba t quente
Deixe a morena com a gente
Deixe a menina sambar em paz
(*) Esta msica uma espcie de “comentrio” a outra, “Sem compromisso”, de Geraldo Pereira, gravada em 1944, e que Chico, neste vdeo, canta na primeira parte, cuja letra :


As vitrines
(1981)



Eu te vejo sair por a
Te avisei que a cidade era um vo
- D tua mo
- Olha pra mim
- No faz assim
- No vai l no

Os letreiros a te colorir
Embaraam a minha viso
Eu te vi suspirar de aflio
E sair da sesso, frouxa de rir

J te vejo brincando, gostando de ser
Tua sombra a se multiplicar
Nos teus olhos tambm posso ver
As vitrines te vendo passar

Na galeria, cada claro
como um dia depois de outro dia
Abrindo um salo
Passas em exposio
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no cho


Palavra de mulher
(1985)



Vou voltar
Haja o que houver, eu vou voltar
J te deixei jurando nunca mais olhar para trs
Palavra de mulher, eu vou voltar
Posso at
Sair de bar em bar, falar besteira
E me enganar
Com qualquer um deitar
A noite inteira
Eu vou te amar

Vou chegar
A qualquer hora ao meu lugar
E se uma outra pretendia um dia te roubar
Dispensa essa vadia
Eu vou voltar
Vou subir
A nossa escada, a escada, a escada, a escada
Meu amor eu, vou partir
De novo e sempre, feito viciada
Eu vou voltar

Pode ser
Que a nossa histria
Seja mais uma quimera
E pode o nosso teto, a Lapa, o Rio desabar
Pode ser
Que passe o nosso tempo
Como qualquer primavera
Espera
Me espera
Eu vou voltar


As minhas meninas
(1986)



Olha as minhas meninas
As minhas meninas
Pra onde que elas vo
Se j saem sozinhas
As notas da minha cano
Vo as minhas meninas
Levando destinos
To iluminados de sim
Passam por mim
E embaraam as linhas
Da minha mo

As meninas so minhas
S minhas na minha iluso
Na cano cristalina
Da mina da imaginao
Pode o tempo
Marcar seus caminhos
Nas faces
Com as linhas
Das noites de no
E a solido
Maltratar as meninas
As minhas no

As meninas so minhas
S minhas
As minhas meninas
Do meu corao

Injuriado
(1998)



Se eu s lhe fizesse o bem
Talvez fosse um vcio a mais
Voc me teria desprezo por fim
Porm no fui to imprudente
E agora no h francamente
Motivo pra voc me injuriar assim

Dinheiro no lhe emprestei
Favores nunca lhe fiz
No alimentei o seu gnio ruim
Voc nada est me devendo
Por isso, meu bem, no entendo
Porque anda agor


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