Brasil

26 de novembro de 2010 - 22h55

PCdoB reafirma que transição deve enfrentar desafios


Priscila Lobregatte
Renato fala sobre novos desafios Renato fala sobre novos desafios
A posição básica do PCdoB é clara: lutará pelo êxito do governo de Dilma Rousseff. A luta do PCdoB é para que a mudança de governo leve em conta a nova realidade mundial. “Ainda que o país viva um momento positivo de sua economia e de sua política social, ainda que tenhamos de fato uma ‘herança bendita’ de Lula, o cenário internacional é de instabilidade e desequilíbrio, o que nos impõe o enfrentamento imediato dos efeitos da guerra cambial”, disse Renato Rabelo.

Neste sentido, é preciso valorizar o setor produtivo, combatendo dogmas como o do câmbio fixo, do ajuste fiscal e dos juros altos que, na contramão do desenvolvimento, servem apenas aos interesses do setor financeiro. “A crise cambial coloca em xeque os fundamentos da atual política macroeconômica. Afinal, agora o cenário externo já não é tão favorável e o Brasil precisará enfrentar esses problemas”, alertou o dirigente.

Diante das sinalizações recentes da nova presidente de que haverá queda na taxa Selic, a pressão de setores ligados à ortodoxia econômica volta-se para a aplicação do ajuste fiscal, o que trava os investimentos, o desenvolvimento e, em última instância, piora a vida dos trabalhadores.

“Os derrotados da eleição 2010 em geral e a grande mídia em particular querem ampliar o corte de gastos do governo, arrochar salários, paralisar obras, ou seja, o caminho oposto do crescimento. O PCdoB se oporá a tais diretrizes", destacou Renato Rabelo. "É preciso fugir da valorização do real, da liquidez, protegendo a moeda nacional, controlar a entrada e saída de dólares e praticar taxas de juros semelhantes às dos demais países emergentes”, salientou o dirigente.

E acrescentou: “hoje, o real está valorizado em 20% perante o dólar, enquanto o yuan chinês está desvalorizado em 40%.”. Rabelo também lembrou que é preciso ampliar para 25% do PIB o índice de investimento, “o que fica muito difícil com esta política macroeconômica”.

Além disso, os comunistas vêem como necessidades prementes a garantia de um novo marco regulatório do pré-sal com regime de partilha; a destinação de mais recursos para a saúde e a segurança pública; o aumento real do salário mínimo e a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais.

Desafios dessa magnitude exigem a formação de um governo afinado com tais propósitos e a manutenção de uma ampla sustentação ao governo de Dilma Rousseff. “É importante assegurar que a coalizão permaneça unida, com um núcleo formado por partidos de esquerda e uma base social ampla”, destacou Rabelo.

Neste ponto, o dirigente lembrou que a base é heterogênea, misturando forças com interesses bastante distintos. O xis da questão é como ter uma aliança que garanta a governabilidade e, ao mesmo tempo, o rumo transformador. “Daí a importância de uma formação de esquerda que assegure um projeto consistente de nação, democrático, desenvolvimentista e soberano”, colocou.

Situação delicada

 
  Alanir Cardoso, Vital Nolasco e Manuela D´Ávila compõem mesa
Ao analisar o cenário mundial, Renato Rabelo chamou atenção para os conflitos envolvendo a atuação dos Estados Unidos, em especial a recente tensão entre a Coreia do Norte e do Sul. “A constante intervenção política e militar no planeta – em especial no Iraque, Afeganistão e na Península Coreana – resulta num permanente estado de tensão, que sempre pode desencadear novos conflitos, ou seja, é um momento instável”.

É uma situação propensa aos conflitos, tendência que o partido tinha examinado nos seus últimos congressos, “que não fizeram nenhuma previsão alarmista, como mostra a evolução objetiva da situação”, completou.

O dirigente ressaltou que os últimos acontecimentos entre a Coreia do Norte e do Sul nada mais são do que “resultado da presença dos EUA na região. O resto é fumaça. A realidade é que a Coreia do Norte tem um projeto antigo de unificação dos países, cujo entrave são os EUA”.

Ele lembrou ainda que o contexto internacional está fortemente marcado por um lento declínio norte-americano e a rápida ascensão chinesa. “A crise do capitalismo acelera essa tendência, já que os EUA não têm mais hegemonia única da economia mundial. Os Estados Unidos usam da prerrogativa da impressão do dólar para forçar sua desvalorização; porém, sua indústria não deslancha, o desemprego continua na ordem dos 10% e o déficit em suas contas segue alto”.

A Europa, por sua vez, está estagnada. “O povo europeu – principalmente o dos países mais periféricos, como Grécia, Irlanda e Portugal – pagam pela crise com grandes sacrifícios aos trabalhadores, recessão e aumento da pobreza”. “Ao mesmo tempo”, disse, “eclodem grandes lutas dos trabalhadores, com greves gerais e manifestações maciças”.

Preparação para 2012 e 2014

 
Comitê Central reunido na capital paulista  
O balanço feito por Renato Rabelo – anteriormente detalhado em resolução da Comissão Política Nacional reunida no dia 8 de outubro – tratou dos resultados dos comunistas nas eleições de 2010. “Precisamos estudar o resultado do PCdoB em cada estado, avaliar onde se errou e onde se acertou, tirando lições para as próximas jornadas”, advertiu o presidente.

Segundo ele, “o PCdoB cresce gradativamente desde 2002”, quando passou a adotar uma tática mais arrojada de candidaturas proporcionais e majoritárias. “O partido tem projetado novas lideranças nos estados e vem desempenhando um papel cada vez mais importante”, ressaltou, referindo-se tanto ao nível nacional quanto ao local.

Essa avaliação já está sendo realizada – e segue sendo feita até meados de dezembro – através de reuniões estaduais envolvendo as direções locais e membros do Comitê Central. O objetivo, conforme colocou o dirigente, é que o partido “trabalhe pelo sucesso do governo de Dilma Rousseff e, nesse curso, avance politicamente”.

Renato Rabelo lembrou que já é preciso preparar o partido para as disputas de 2012 e 2014, “sem perder de vista sua base ideológica, nem cair no pragmatismo”. Ele destacou a necessidade de o partido investir cada vez mais em sua base militante e em seus quadros. “Precisamos de uma militância extensa, organizada e bem formada no campo das ideias porque se não tivermos essa militância, nossas vitórias serão efêmeras”.

Para isso, uma das propostas colocadas é a da gestão integrada do PCdoB, ou seja, fazer com que os membros do Comitê Central se engajem na estruturação partidária desde a base. “Com isso, estarão construídos os alicerces para que alcancemos 400 mil membros até 2012 e 500 mil até o 13º Congresso”, disse Rabelo. Hoje, o partido conta com mais de 200 mil filiados.

Por fim, o presidente apresentou algumas diretivas que estarão em discussão no final de semana, durante a reunião: realizar filiações maciças e de lideranças expressivas; preparar o projeto eleitoral para 2012 e 2014; ampliar o esforço para garantir o crescimento e a estruturação partidária principalmente nas capitais e cidades-pólo; lutar por uma maior ligação entre o PCdoB e sua base social; fortalecer os instrumentos de luta de ideias; retomar a distribuição do Programa Socialista, tendo como meta o número de um milhão de exemplares; realizar a Conferência Nacional sobre a Questão da Mulher; valorizar os quadros intermediários com a realização de Encontro Nacional de Organização envolvendo secretários de Organização das 300 principais cidades onde o partido está estruturado e promover, com outras forças de esquerda, seminário sobre o novo projeto nacional de desenvolvimento.

Encerrando sua fala, Renato Rabelo declarou: “É grande a responsabilidade do futuro governo e das forças que o apoiam. O PCdoB se empenhará pelo êxito do governo e está convicto de que com a força do nosso povo será possível transformar em realidade o sonho dos brasileiros.”

De São Paulo,
Priscila Lobregatte



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