Brasil

16 de abril de 2010 - 12h25

Dilma rechaça "campanha insidiosa" e nega ter feito ações armadas


“É bem diferente da minha época”, relatou a candidata à tarde, durante entrevista ao jornal Zero Hora. Dilma — que cumpre um roteiro de três dias no estado — foi ao primeiro compromisso de campanha ao meio-dia, em um almoço com empresários na Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs). À tarde, deu entrevistas exclusivas aos veículos do Grupo RBS no salão nobre da empresa. Ela foi recebida pelo presidente emérito do grupo, Jayme Sirotsky, vice-presidentes e diretores.

À RBS TV, a candidata admitiu subir em dois palanques na campanha no Rio Grande do Sul, mas ressalvou que a aliança com o PMDB ainda não foi selada. Diplomaticamente, fez elogios a Tarso Genro (PT) e a José Fogaça (PMDB), candidatos ao Piratini.

“Tenho muito respeito pelo Tarso. Fomos colegas de ministério. Fogaça é um administrador exemplar. Fizemos muitas parcerias”, afirma Dilma, que não quis dizer o que fará se Tarso e Fogaça forem para o segundo turno: “Aprendi que a gente não deve falar sobre hipóteses”.

Leia a seguir trechos de sua entrevista ao Zero Hora:

Zero Hora – Circula pela internet um dossiê que atribui à senhora assaltos a bancos e atos de terrorismo no regime militar. A senhora se sente preparada para a campanha eleitoral?
Dilma Rousseff – Ninguém participa de governo sem aprender a conviver com críticas, deturpações e difamações. Há uma campanha insidiosa porque as pessoas pouco se lembram daquela época. No Brasil, não se podia falar, pensar, a imprensa estava sob censura pesada. Não tive nenhuma ação armada. Se tivesse ação armada, não teria recebido condenação de dois anos. Cumpri três anos de cadeia, mas fui condenada a dois.

ZH – Quem estaria por trás dessa campanha que a senhora chama de insidiosa?
Dilma – Acho que as reações são de setores inconformados com a abertura democrática e que acham que uma pessoa que esteve presa, numa situação de derrota durante todo o período da ditadura, não pode ser hoje vitoriosa.

ZH – Seus adversários levantam dúvidas sobre o que seria o seu governo em matéria de liberdade de expressão. Qual é o seu compromisso?
Dilma – Adversário só não fala que a gente é bonita, o resto tudo fala. Eu sei o que é viver na ditadura, e sei a pior parte dela. Não acho que faz bem para nenhuma geração o que a minha passou. Você não consegue se desenvolver em toda a plenitude.

ZH – Como a senhora pretende reverter no Rio Grande do Sul os índices desfavoráveis a sua candidatura?
Dilma – Nós começamos agora. Pesquisa retrata o momento. Você não pode olhar uma pesquisa e falar: bom, fechou a boca do jacaré, empatou e está tudo muito bem. Todo mundo que sentou na cadeira antes se danou.

ZH – A senhora acha possível subir nos palanques de Tarso Genro e José Fogaça no estado?
Dilma – Não vou trabalhar hipótese, até porque não é prudente. Quando a gente tiver feito aliança nacional, eu posso responder isso. Tem de discutir com o PMDB no plano nacional, no plano local, ver as suscetibilidades. Isso tem de ser feito com cuidado pra não causar problema.

ZH – A senhora trabalha com a possibilidade de ter o PMDB gaúcho todo a seu lado ou a divisão no partido é incontornável?
Dilma – Acho muito difícil trabalhar com a hipótese de ter tudo ao meu lado. Acredito que a grande maioria do PMDB fica conosco.

ZH – Saindo a aliança nacional entre PT e PMDB, existe a possibilidade, segundo as pesquisas, de um segundo turno se dar entre Tarso Genro e José Fogaça. Nesse caso, a senhora ficaria neutra?
Dilma – Ninguém em sã consciência trabalha com hipótese desse tipo. Não é prudente.

ZH – São as hipóteses que as pesquisas mostram.
Dilma – Mas, atualmente, a gente faz aquela conta de criança: noves fora, noves fora nada ainda. Não podemos tomar posição ainda sobre um quadro em abril, tão indefinido.

ZH – A senhora já consegue fazer com naturalidade o que o presidente faz, como entrar na casa dos eleitores?
Dilma – Perfeitamente, sou uma boa aluna. Nessa relação com ele, tenho anos de praia. Ando pelo Brasil afora com ele há sete anos e meio. Da mesma forma, no exterior. Eu já vi, por exemplo, na Alemanha, uma multidão aqui, uma multidão ali, devia ter brasileiro misturado com quem não era brasileiro, e nós fizemos a mesma coisa.

ZH – O presidente tem dado conselhos sobre a campanha?
Dilma
– Graças a Deus, dá. O presidente é uma pessoa experiente. Temos uma longa caminhada juntos, a nossa relação é de quem priva da intimidade. Ele pode falar coisas para mim porque ele me conhece, sabe como eu sou, não vai falar coisas desnecessárias para mim.

ZH – A senhora estava acostumada a ter o presidente Lula ao seu lado nos eventos do governo. Está sentindo falta dessa presença?
Dilma – Sempre falo que tenho muita saudade dele. O que me consola é que acho que ele também tem muita saudade minha. Porque convivíamos o dia inteiro.

ZH – A senhora acha que o eleitorado sente diferença com a ausência do presidente?
Dilma – Andei por este país afora sozinha quantas vezes? O pessoal está inventando. Ser governo e decidir todo dia é muito difícil. Eu cuidei do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), de R$ 636 bilhões, da execução, tinha de discutir isso do Oiapoque ao Chuí. O presidente ia para um lado e eu, para o outro.

ZH – Até que ponto a popularidade do presidente Lula pode resultar em votos a sua candidatura?
Dilma – Se pode resultar em votos para alguém, imagino que seja para mim. Por quê? Porque entrei no Ministério de Minas e Energia, depois fui para Casa Civil, participei de cada um desses programas. Eles têm meu esforço pessoal. Os prefeitos viram, os governadores viram, as pessoas viram isso, então posso reivindicar a continuidade do governo Lula.

O povo não acredita em promessa — acredita que quem faz pode fazer mais. Podemos fazer mais, porque fizemos. Essa história que nós temos sorte é verdade, a gente tem também. Feliz do povo que não tem governantes, presidente, ministros pés-frios. Tem meu trabalho nisso, eu me sinto absolutamente legitimada para achar que nesses 76% (de aprovação) tem uma parte que eu contribuí.

ZH – O PMDB se encaminha para indicar Michel Temer para vice de sua chapa. Qual é a sua relação com o deputado?
Dilma – Tenho uma ótima relação com Michel Temer, respeito bastante o deputado, acho ele uma pessoa talentosa, bom articulador político, excelente presidente da Câmara, uma pessoa tranquila, não aposta no conflito, trabalha no acordo e no consenso.

Não posso dizer que ele será candidato porque iria atropelar o PMDB. Acho que é uma coisa que vai ser negociada, mas tem o papel preponderante do partido que está indicando o nome. Considero o Michel Temer uma pessoa de qualidades excepcionais.

ZH – O que pesou para o metrô não ter sido incluído na segunda etapa do PAC?
Dilma – Porque nós não incluímos nenhum metrô. O que nós colocamos foi a quantidade de dinheiro (para a mobilidade urbana) e os critérios. Só vai ter metrô cidade de região metropolitana acima de 3 milhões de habitantes. Porto Alegre tem credenciamento pra isso. Eles têm de escolher qual linha, como vai ser, e apresentar projeto. O quesito metrô ficou como saneamento, habitação. Ficou genérico, para aquela discussão que a gente faz com os municípios. Não entrou nas obras da Copa, mas em compensação aumentamos os recursos para outras obras viárias.


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