A Classe Operária ESPECIAL

 

  Romanceiro popular nordestino revitalizado


Romanceiro popular nordestino revitalizado

Arievaldo Viana*

O Romanceiro Popular Nordestino, também denominado Literatura de Cordel é a mais legítima manifestação cultural do povo nordestino. Este singular meio de comunicação de massas surgido na Península Ibérica e, trazido para o Nordeste do Brasil, floresceu aqui, segundo os pesquisadores mais autorizados, em fins do século XIX, através dos pioneiros Silvino Pirauá de Lima e Leandro Gomes de Barros, este último responsável pela sua projeção comercial nas primeiras décadas do século XX. Essa influência ibérica trouxe consigo traços da cultura árabe, presente nas estórias da Donzela Teodora, João Grilo e Pavão Misterioso, visivelmente inspiradas nos contos das Mil e Uma Noites. Carlos Magno e os 12 Pares de França é outro tema freqüentemente visitado pelos poetas de bancada.

Durante muito tempo, os folhetos e romances foram o único veículo de comunicação de que dispunham as populações rurais, antes do surgimento do rádio e da televisão. Chama-se Literatura de Cordel porque, ainda hoje, alguns vendedores costumam pendurar os folhetos em barbantes (cordéis), nas feiras nordestinas. Aliás, esta denominação já vem de Portugal, onde os folhetos dos trovadores também eram vendidos à cavalo no cordão. Segundo o grande folclorista Câmara Cascudo, os primeiros folhetos de cordel editados no Brasil foram impressos em Recife, por volta de 1873.

Causou certa estranheza, portanto, o evento promovido recentemente pelo SESC Pompéia de São Paulo denominado "100 ANOS DE CORDEL". Como já dissemos, os pesquisadores mais autorizados atestam que os primeiros folhetos foram impressos na segunda metade do século XIX. Entretanto, dada a fragilidade dos impressos, o cordel mais antigo conservado em poder de colecionadores data de 1901, por isso o SESC Pompéia resolveu realizar esse mega evento agora em 2001, comemorativo dos "100 Anos", reunindo poetas, xilógrafos, editores, pesquisadores e repentistas de diversos estados.

O cordel no Ceará

No Ceará, o cordel desenvolveu-se extraordinariamente em Juazeiro do Norte e Fortaleza, desde as primeiras décadas do século passado. Durante três décadas e meia (de 1945 a 1980) o Ceará foi o maior pólo produtor de folhetos e romances, com duas grandes editoras de cordel em Juazeiro do Norte (Tipografia São Francisco e Folheteria de Manoel Caboclo e Silva), enquanto Luiz da Costa Pinheiro, Moisés Matias de Moura e Joaquim Batista de Sena atuavam na capital.

Na década de 30 do século passado veio fixar-se em Juazeiro do Norte o poeta alagoano José Bernardo da Silva, que viria a fundar a famosa Tipografia São Francisco, responsável, até o início da década de 80, por quase toda a produção de folhetos vendidos no Ceará e demais Estados nordestinos. Em 1949, Zé Bernardo adquiriu os direitos autorais das obras editadas por João Martins de Athayde, à época o maior editor do gênero, que resolvera encerrar suas atividades no Recife.

Athayde detinha, mediante compra, os direitos sobre a vasta obra do paraibano Leandro Gomes de Barros, o maior poeta popular de todos os tempos, autor de dezenas de clássicos da Literatura de Cordel.

A retomada

De 1998 para cá, duas editoras voltaram a investir firme na produção de folhetos no Nordeste. A Editora Coqueiro, em Recife, e a Tupynanquim Editora, de Fortaleza, estão publicando o trabalho de novos poetas e reeditando os maiores clássicos do gênero no seu formato tradicional: 16 x 11,5 cm, que corresponde a um ofício dobrado em quatro partes. Essa foi a forma criada por Leandro, que persiste até os dias de hoje. Poderia se dizer que o novo cordel também readquiriu a sua característica de instrumento de conscientização e denúncia junto às massas. No impeachment de Collor, por exemplo, foram lançados dezenas de folheto alusivos à derrocada do "Caçador de Marajás". Atualmente, têm aparecido diversos títulos contendo pesadas críticas ao governo FHC. É digno de registro o interesse da classe estudantil, principalmente universitários, por esse singelo meio de comunicação de massas.

*cordelista, membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel – ABLC

ROMANCE DO PAVÃO MISTERIOSO

Eu vou contar uma história

Dum pavão misterioso,

Que levantou vôo da Grécia,

Com um rapaz corajoso,

Raptando uma condessa,

Filha dum com orgulhoso.

Residia na Turquia

Um viúvo capitalista,

Pai de dois filhos solteiros

O mais velho João Batista,

Então o filho mais moço

Se chamava Evangelista.

José Camelo de Melo Resende.

 

O PRÍNCIPE DO BARRO BRANCO E A PRINCESA DO REINO DO VAI-NÃO-TORNA

O Reino do Barro Branco

É defronte uma colina

Cortado por quatro rios

De água potável e fina

Fica nos confins da Ásia

Bem perto da Palestina

No píncaro dessa colina

O príncipe fez residência

Onde a relva oferecia

O olor de sua essência

E a lua derramava

Seus raios de refulgência

Severino Milanês da Silva.

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