Fale Conosco | Marxismo + Brasil | Editorial | Busca: 

PCdoB
 

Vermelho.org.br - A Classe Operaria

 
 

INTERNACIONAL



Guerra Fria CulturaL
Como a CIA financiou o anticomunismo na cultura
O livro Quem pagou a conta?, de Frances Stonor Saunders conta como a espionagem dos EUA financiou intelectuais defesa dos “valores americanos”

José Carlos Ruy


Entrada da sede da CIA, em Richmond,
Virgínia (EUA)
A questão visceral era “usar qualquer canalha, desde que fosse anticomunista” – esta frase do agente da CIA Harry Rositzke é a melhor difinição do espírito que presidiu a guerra cultural promovida e financiada pela CIA, o serviço de espionagem dos EUA, depois do final da Segunda Guerra Mundial, contra os comunistas.

A frase está citada no livro Quem pagou a conta? A CIA na guerra fria da cultura, da inglesa Frances Stonor Saunders, lançado na Inglaterra em 1999 e agra traduzido no Brasil. Nele, a pesquisadora conta com a riqueza de detalhes que caraceriza os historiadores ingleses, como o serviço secreto dos EUA foi organizado com base em especialistas nazistas, especialmente retirados para isso das prisões dos aliados, logo após o final da guerra; como a alta elite dos EUA envolveu-se pessoalmente nessa organização; como artistas, pintores, escritores, músicos dos EUA e da Europa foram envolvidos nesse projeto anticomunista; como foi organizado um esquema financeiro secreto para financiar a intriga cultural da CIA; como revistas prestigiosas da chamada “esquerda democrática”, não comunista, como Partisan Review, Kenyon Review, New Leader, Encounter, entre outras, foram financiadas pela espionagem dos EUA; como o famoso Museum of Modern Art (o célebre MoMA, de Nova York), participou ativamente para elaborar uma agenda “cultural” anticomunista – e por aí vai.

Logo após o final da II Guerra Mundial, os dirigentes dos EUA começaram suas manobras para sabotar o período de paz que se iniciava, e o alvo era – obviamente – a União Soviética. Aproveitando a experiência do serviço secreto que mantiveram durante a guerra, trataram de criar uma agência governamental destinada diretamente para esta tarefa – a CIA, criada em 1947. “A fundação da CIA marcou uma reforma drástica dpos paradigmas tradidionais da política norte-americana”, diz a historiadora. “Os termos em que a Agência foi criada institucionalizaram os conceitos de ‘mentira necessária’ e ‘desmentido plausível´, como estratégias legítimas e tempos de paz e, a longo prazo, produziram uma camada invisível de governo cujo potencial de abusos, dentro e fora do país, nunca se deixou inibir por qualquer sentimento de responsabilidade”.


A autora, Frances Stonor Saunders
Os passos iniciais para a montagem do serviço de espionagem já apontavam nesse rumo. Era o “ministério dos golpes baixos, pelo qual Allen Dulles e os caubóis da Park Avenue vinham fazendo campanha”, diz Saunders. Para estes “golpes baixos”, nada melhor do que os especialistas nazistas, gente que havia estudado em profundidade a política soviética, e poderia agora ser útil para a nova potência que se erguia, os EUA. Um instrumento para isso foi o agente Frank Wisner, ex-advogado em Wall Street, a quem coube a tarefa de recrutar os espiões nazistas. Ele mantinha contato com a organização Gehlen, “a unidade de informações do exército alemão, preservada quase inatacta pelos norte-americanos para espionar a Rússia”, diz a historiadora. Um exemplo é o depoimento de um agente da CIA, citado por ela; ele conta que, em certa ocasião, “Wisner trouxe um lote completo de fascistas depois da guerra, umas pessoas realmente execráveis. Podia fazê-lo porque era poderoso”.

Poder que vinha não só do apoio do Departamento de Estado e de sua posição na espionagem, mas também da forte vinculação da comunidade de intelegiência com a elite acadêmica e financeira dos EUA. A nata da chamada Ivy League, que une as oito principais universidades americanas (Brown, Columbia, Cornell, Dartmouth College, Harvard, Pennsylvania, Princetos e Yale) estave profundamente envolvida, criando aquilo que Henry Kissinger chamou de “uma aristrocracia dedicada a servir a esta nação em nome de princípios suprapartidários”. Princípios de fachada: aquela, diz Saunders, foi uma “elite histórica”, que exercia “grande influência em conselhos diretivos, instituições acadêmicas, nos grandes jornais e meios de comunicação, nos escritórios de addvocacia e no governo da América – que deu um grande passo à frente, nesse momento, para preencher as fileiras da Agência recém-criada.”

A alta burguesia dos EUA teve participação direta naquela articulação. Lá estavam nomes como Gardner Cowles, do grupo editorial Cowles; Henry Ford II; C. D. Jackson, diretor executivo da Time Life; os magnatas de Hollywood, Cecil B. DeMille e Darryl Zanuck. “Membros da família Mellon ocuparam cargos de espionagem em Madri, Londres, Genebra e Paris”, diz Saunders. Mas não só: as famílias Morgan, Vanderbilt, DuPont, Archbold (Esso), Ryan (Seguros de Vida Equitable), Weil (lojas Macy’s) e Whitney estavam nesse exército de espiões.

A política de “mentira necessária” e “desmentido plausível” exigia que as ações fossem secretas; por isso, várias fundações foram envolvidas na lavagem do dinheiro do financiamento para “atividades culturais”. A principal delas foi a Fundação Farfield, que só existia de fachada e era um verdadeiro duto da CIA para canalizar recursos para aquelas atividades; mas outras também foram usadas, como as fundações Ford, Rockfeller e Carnegie, além de inúmeras outas, menores e sem tanto prestígio.

A CIA ficou conhecida por seu envolvimento em atividades criminosas, como golpes de estados, assassinatos políticos, espionagem, financiamento e apoio a esquadrões da morte, etc.

As atividades investigadas por Frances Stonor Saunders são menos conhecidas, embora as suspeitas se multiplicassem através dos anos. Seu livro faz uma descrição detalhada da atuação da CIA entre artistas, intelectuais e escritores, valorizando principalmente aqueles que, tendo sido comunistas ou esquerdistas, mudaram de lado – como Ignacio Silone, Stephen Spender, Arthur Koestler, Raymond Aron, Anthony Crosland, Michael Josselson e George Orwell. Eles eram considerados os melhores propagandistas contra o comunismo.

Além disso, financiou concertos musicais (particularmente de jazz e música erudita dos EUA). Financiou amplamente o expressionismo abstrato, na pintura, que pessoas como Nelson Rockfelles e George Kenan consideravam como a “arte da livre iniciativa”, para ser usada contra a pintura de denúncia social, “comunista”. Usou o prestígio do MoMA (que chamava de “museu da mamãe”, foi foi fundado por sua progenitora) para vaorizar essa arte.

A CIA chegou pagar salários regulares para muitos desses intelectuais, seja aqueles que estivessem diretamente envolvidos em seus “projetos”, ou que meramente circulavam em sua órbita. É uma lista que tem nomes como Irving Kristol, Melvin Lasky, Isaiah Berlin, Stephen Spender, Sidney Hook, Daniel Bell, Dwight MacDonald, Roberto Lowell, Hannah Harendt, Mary McCarthy e outros, nos EUA e na Europa.

Chama a atenção o fato de que este time foi promovido como “apolítico”, pesquisadores desinteressados, cujo único objetivo era a busca da “verdade”. Mas, disse o escritor James Petras em uma resenha do livro de Saunders (publicada em Princípios n° 56), quando “a verdade sobre esses financiamentos da CIA veio à tona, no final da década de 1960, alguns ‘intelectuais’ de Nova York, Paris e Londres fingiram indignação, alegando terem sido manipulados. Foram desmentidos por Tom Braden, ex-dirigente da Seção das Organizações Internacionais da CIA, que os desmascarou dando detalhes de como eles, na verdade, sabiam quem pagava seus salários e bolsas”.



internacionalismo
Encontro de PCs busca unidade de ações entre comunistas
Pela primeira vez, PCdoB será anfitrião, em São Paulo, de um dos maiores eventos da esquerda mundial

Priscila Lobregatte conversou com José Reinaldo Carvalho

O PCdoB já está se preparando para sediar o 10º Encontro de Partidos Comunistas e Operários, dias 21 a 23/11, em São Paulo. A expectativa é que delegações de cerca de 80 venham ao Brasil. O primeiro desses eventos aconteceu em 1999, em Atenas, por iniciativa do PC da Grécia. Desde então, vêm marcando a atuação dos comunistas em todo mundo.


Para Reinaldo, atividade que se inscreve no quadro
de expansão do PCdoB
Definições da reunião do GT em Lisboa - A reunião do Grupo de Trabalho, formado por 11 partidos, realizada em Lisboa sob os auspícios do Partido Comunista Português, em 16 de fevereiro, teve a participação de 10 partidos membros, além de outros sete partidos. Na oportunidade decidiu-se sobre a data – 21 a 23 de novembro de 2008 -, o local do encontro – a cidade brasileira de São Paulo – e o tema.

Marco internacionalista - Pela primeira vez na história do movimento comunista mundial, um evento dessa magnitude, como o Encontro de Partidos Comunistas e Operários, acontecerá no Brasil. Isso tem um grande significado na trajetória do PCdoB. Nosso partido sempre foi internacionalista, solidário com a causa dos povos, o que não contradita com nosso arraigado patriotismo, e sempre manteve muitas relações no âmbito do movimento comunista internacional. Esta é a primeira vez que o Brasil sediará o encontro e é também a primeira vez que o PCdoB será anfitrião de um evento internacional tão significativo. Ou seja, para além do seu significado regional e mundial, o encontro tem sentido político tanto para o país como para o Partido. É uma atividade que se inscreve no quadro de expansão que a vida partidária tem experimentado nos últimos anos. Do mesmo modo que o PCdoB vem colhendo êxitos assinalados em diversas frentes de atividade, também no âmbito internacionalista os comunistas têm tido sucesso, o que repercute também no plano da luta antiimperialista de massas.

Fortalecendo os partidos comunistas - Esses encontros, que acontecem dede 1999, contribuem para recuperar a força do movimento comunista após as derrotas que sofreu em decorrência da queda da URSS e dos países socialistas no Leste europeu no final dos anos 80 e começo dos anos 90. Este fato provocou a dispersão das forças comunistas, gerou problemas de ordem política e ideológica e aprofundou discrepâncias e divisões. Esses encontros têm servido para, num processo gradual, fortalecer o movimento comunista e criar as condições para sua unidade a partir da unidade de ações.

Saldo positivo - Decorridos nove encontros, pode-se fazer um balanço e constatar que a experiência tem sido muito positiva. Ressalto a presença numerosa de partidos, em torno de 80, de todos os continentes. E os temas em debate são os mais variados. Vão da crise do capitalismo e da globalização capitalista à política de alianças dos comunistas; da opinião dos comunistas sobre o movimento sindical ao debate sobre a nova situação do mundo pós-11 de Setembro de 2001; da situação do mundo com a deflagração da guerra “preventiva” de agressão, pelo governo de Bush no Afeganistão e no Iraque, até a discussão sobre os 90 anos da Revolução de Outubro, tema tratado no último encontro, realizado em Minsk, Belarus, uma ex-república da URSS. Ao possibilitar a abordagem de temas como esses com um grande número de participantes, esses encontros constituem uma experiência frutífera, sempre resultando na elevação da compreensão mútua.

Assunção de posições - A unidade de ações entre os partidos comunistas e operários pode expressar-se através da tomada de posições comuns sobre assuntos que fazem parte da agenda mundial. Um exemplo foi a nota conjunta repudiando a declaração unilateral de independência do Kossovo, a ingerência do imperialismo norte-americano e da União Européia sobre os Bálcãs, ambas as potências responsáveis pela desagregação da Iugoslávia. A posição foi adotada em cima dos fatos ocorridos no mesmo dia em que o Grupo de Trabalho se reunia em Lisboa. Neste momento, a nota, já publicada, conta com a adesão de 48 partidos comunistas. O mesmo tem ocorrido também com relação aos conflitos em curso no Oriente Médio.

Moção pela América Latina - Por ser a primeira vez em que o encontro se realiza na América Latina, o Grupo de Trabalho propôs que seja aprovada uma moção coletiva de apoio aos povos latino-americanos, em especial aos processos progressistas que vêm ganhando força no continente. Recentemente, assinamos documento de apoio à Bolívia que era ameaçada de golpe pelas forças reacionárias e até mesmo por ações separatistas. Enfim, são diversas as formas pelas quais os partidos comunistas podem ir criando condições propícias à unidade de ação.

Repercussão política - Sempre que os partidos comunistas se manifestam com clareza sobre um determinado assunto, mesmo em locais onde podem não ter tanta força política, esse posicionamento acaba repercutindo e influenciando ações de outras agremiações políticas, ou seja, tende a ter repercussão no quadro político. Mais ainda quando esses partidos têm influência sindical e no movimento de massas, tribunas parlamentares, instrumentos de poder local ou nacional, jornais de grande circulação etc.

Tarefas do PCdoB - Até novembro, o PCdoB vai se dedicar à preparação do encontro e, na véspera de sua realização, será feita uma última reunião do Grupo de Trabalho a fim de definir sua dinâmica. A preparação do encontro é tarefa do partido anfitrião. O PCdoB tomará todas as medidas para que seja possível fazer um encontro que tenha repercussão política e num local que possibilite o bom desenvolvimento dos trabalhos. Vamos associar a essa reunião um ato público, com caráter político e ideológico, para possibilitar que os partidos participantes tenham contato com nossos militantes e quadros, os movimentos sociais e políticos brasileiros e com as forças que compõem a coalizão de que nosso partido faz parte.

Temática de focos nítidos - Foi definido como tema do próximo encontro os Novos fenômenos no quadro internacional. Contradições e problemas nacionais, sociais, ambientais e interimperialistas em agravamento. A luta pela paz, a democracia, a soberania, o progresso e o socialismo e a unidade de ação dos Partidos Comunistas e Operários. Embora o enunciado seja largo, tem focos bastante nítidos. Em primeiro lugar, queremos abordar a realidade sobre a qual estamos atuando. Há muitos fenômenos novos na situação mundial: econômicos, políticos, sociais e culturais. Desejamos situar esses novos fenômenos e interpretá-los à luz da teoria marxista-leninista e da linha política de cada partido.

Desvendando o mundo contemporâneo - Na interpretação desses novos fenômenos, pretendemos desvendar as contradições do mundo contemporâneo. A contradição entre o capitalismo e o socialismo é uma contradição atual? Há forças políticas e intelectuais que consideram que, pelo fato de o socialismo ter sofrido uma derrota em suas primeiras experiências, a contradição não existe mais. É uma forma disfarçada de colocar em segundo plano a luta pelo socialismo. Outra questão é se, com os novos fenômenos da economia mundial – as reestruturações produtivas, os deslocamentos das plantas industriais e as mudanças que ocorreram no funcionamento das empresas – existe ainda, com grau de antagonismo importante, a contradição entre o capital e o trabalho. Como situar também, no quadro atual, as contradições entre o imperialismo e os povos, entre o imperialismo e as nações em desenvolvimento, entre o imperialismo e as nações que sofrem as espoliações neocolonialistas? Há quem ache que pelo fato de o capitalismo ter se globalizado, não é mais imperialista. Portanto, não existiria mais a contradição entre os povos e o imperialismo e assim, a luta pela libertação nacional e social já não faria mais sentido. Os comunistas confrontam-se também com opiniões falsas sobre a crise do capitalismo e o imperialismo. Não são poucos os setores que, mesmo na esquerda, subestimam o alcance e a profundidade da crise sistêmica e estrutural do capitalismo.

Unipolaridade ou multipolaridade - Debater esses novos fenômenos é tratar das contradições do mundo atual. O mesmo se pode dizer das contradições interimperialistas. O fato de existir hoje uma grande potência que exerce o domínio unipolar no mundo significa que as contradições interimperialistas deixaram de existir? Ou, ao contrário, estão se formando novas contradições e as potências imperialistas alternam momentos de cooperação e momentos de rivalidade que podem transformar-se em acontecimentos mundialmente explosivos? Há também um debate, em que a social-democracia esmera-se na difusão de ilusões, sobre como encarar a tendência objetiva à multipolaridade. Há quem diga que essa nova tendência levaria a um maior equilíbrio e que seria possível ir domando o imperialismo norte-americano através da ação multilateral das Nações Unidas ou de outras organizações internacionais multilaterais. Ou mesmo que esse imperialismo tenderia a uma política de paz. Outro foco do tema do encontro é a busca da unidade na ação entre os partidos comunistas e operários e destes com outras forças progressistas e antiimperialistas em torno das lutas pela paz, a soberania, o aprofundamento da democracia, o progresso social e pelos direitos dos trabalhadores. Estas são questões que irão permear o encontro e que, obviamente, não serão esgotadas. A vontade e o propósito de todos os partidos é abrir e aprofundar o debate.
VERMELHO.ORG.BR