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ESPECIAL



MEMÓRIA
Ainda não usamos Black Tie!

Mais do que uma encenação, Eles Não Usam Black-Tie, a peça e o filme, são registros da vida operária, da efervescência sindical dos anos 50 e também do movimento grevista no crepúsculo da ditadura militar, na década de 1970

Carolina Ruy*


Guarnieri e Fernando Montenegro em cena do filme

Ator levou a luta de classes ao teatro
Há 50 anos (fevereiro de 1958) estreou, no Teatro Arena, em São Paulo, a peça Eles não usam black tie, escrita e dirigida por Gianfrancesco Guarnieri. Foi uma das primeiras, e talvez a mais marcante peça brasileira, que levou para os palcos o tema sobre a vida dos operários. Black tie teve sucesso surpreendente e imediato, iniciando a fase nacionalista do Teatro Arena e salvando-o da decadência. Mais de vinte anos mais tarde, em 1981, o diretor Leon Hírzman adaptou a peça para o cinema numa retrato emocionante e preciso da luta dos trabalhadores no crepúsculo da ditadura militar de 1964.

Categorias marxistas como a luta de classes, a exploração do proletariado e a velha contradição entre o capital e o trabalho – mostrando vidas em que o trabalho é pesado e o dinheiro é escasso - dão base para a história que gira em torno da relação entre o operário e líder sindical Otávio e seu filho, o jovem operário Tião.

A peça se insere no contexto dos movimentos sociais e greves da década de 1950, reflete a efervescência daquele período, e busca – como uma autêntica obra de arte proletária – provocar a reflexão e aprofundar, com ela, a consciência de classe. Aquele foi um momento em que o movimento sindical que, embora controlado pelo Estado e condicionado pela legislação trabalhista, resistia à política dominante e manifestava insatisfação com relação aos dados oficiais divulgados pelos órgãos do governo.

O movimento sindical demonstrou seu poder de contestação e de luta, através das greves, que se desdobraram na criação de instituições desvinculadas do governo e que buscavam a articulação intersindical, fortalecendo a luta dos trabalhadores, como o PUI (Pacto de Unidade Intersindical), o PUA (Pacto de Unidade e Ação), o CGT (Comando Geral dos Trabalhadores) e, posteriormente, o Dieese (Departamento Intersindical de Estudos e Estatísticas Sócio-Econômicas). Foi um movimento operário notável, em que a luta econômica por melhores salários, emprego e condições de salário adequadas, conseguiu unir-se às demandas propriamente políticas, dando uma dimensão mais avançada ao movimento dos trabalhadores. Um exemplo notável do patamar alcançado então foi a greve geral que, em julho de 1962, impediu a posse do direitista Auro de Moura Andrade como primeiro ministro. Auro de Moura Andrade fora escolhido no dia 3 de julho, pelos partidos conservadores, para ocupar a chefia do governo; mas, diante da intensa oposição sindical e da greve geral que se alastrava, nem sequer chegou a assumir o cargo, renunciando no dia 4.

Se a peça refletiu a luta dos trabalhadores no período anterior a 1964, o filme de Leon Hirzman, feito 23 anos depois, com Guarnieri no papel do operário Otávio, traz a mesma história em um contexto histórico bem diferente, mas com o mesmo pano de fundo: a greve dos metalúrgicos – categoria de trabalhadores que cresceu a partir da década de 1950, com a instalação no Brasil de indústrias do ramo metalúrgico, como montadoras, autopeças elevadores etc - de 1979, no período final da ditadura militar no Brasil (1964/1985).

Leon Hírzman enfrentou o desafio de abordar um espaço social mais amplo, inserindo no texto a repressão da ditadura militar e mostrando o movimento sindical paulistano despontando como força do operariado.

A greve dos metalúrgicos de São Paulo de 1979, mostrada no filme de Hírzman, expõe a dificuldade que o Sindicato da categoria teve naquele momento. Isso ocorreu principalmente pela diferença de perfil entre o Sindicatos dos Metalúrgicos de São Paulo e de São Bernardo. Nos termos sindicais, enquanto São Bernardo, que era exemplo dado o processo de greves que desencadeou em 1978, era um “forte”, concentrando quase 90% dos metalúrgicos em cerca de nove empresas, São Paulo era uma “planície”, com seus trabalhadores dispersos em milhares de indústrias com menos de cem funcionários (dispersão que pulverizava a categoria).

Entre 1978 e 1979 se intensificaram as diferenças de posições dentro dos sindicatos de metalúrgicos. A experiência de 1978 mostrou que era possível a organização a partir da estrutura sindical vigente, compondo com a direção de modo a infiltrar-se no sindicato como um “cavalo de tróia”. Facções mais “esquerdistas”, entrincheiradas na então “oposição sindical metalúrgica”, no entanto, aspiravam um novo tipo de organização que deveriam partir das comissões de fábrica.

Através dos discursos dos personagens Otávio (Guarnieri) e Santini (Milani) o filme mostra esta heterogeneidade na organização sindical. O primeiro deles busca uma unificação do movimento, enquanto Santini - o “Italiano” – tem um comportamento “esquerdista” e defende a realização da greve naquele momento, com o uso da violência.

A greve de 1979 foi deflagrada com a oposição forçando a mão para sua ocorrência e levando à reboque as facções mais moderadas. O resultado, como o filme mostra, foi uma greve a base de piquete, com vários ativistas sindicais demitidos das fábricas e conseqüentemente afastados do movimento. Na vida real, foi naquele confronto que uma importante liderança dos metalúrgicos paulistas, o sindicalista Santo Dias da Silva, acabou assassinado pela repressão policial contra a greve.

É nesta luta dos sindicalistas querendo forçar os operários a entrar em greve que o filme tem seu ponto chave. Além das divergências internas sobre o movimento sindical, havia ainda, entre os próprios trabalhadores a posição anti-sindical, capitalista, de carreirismo e crescimento individual. O personagem de Tião é porta voz dos argumentos daqueles que buscavam saídas individuais para problemas sociais, concordando com as relações de trabalho nas indústrias e apontando para uma mentalidade neoliberal.

A situação sindical hoje já é muito diversa. Muitos propósitos desta luta já se converteram em conquistas para os trabalhadores. Entretanto, refletir sobre uma obra de arte, que exprime o contexto de sua época, nos permite compreender as raízes destas lutas, a importância da unidade de ação e a consolidação do movimento sindical. Mas a peça de Gianfrancesco Guarnieri, e o filme que ela inspirou, dirigido por Leon Hírzman, mantém seu frescor e atualidade.

* Carolina Ruy é Secretária de Redação da revista Princípios; a versão original deste texto foi publicada no Jornal da Força Sindical
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