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PCdoB
 

Vermelho.org.br - A Classe Operaria

 
 

CAPA

Uma nova Classe Operária


Comitê Central decide mudar formato, tiragem e público alvo do órgão central do PCdoB.

Dirigentes do PCdoB (Fernando Henrique, foto maior, do Municipal de S. Paulo; Nivaldo Santana, acima à esq., e Walter Sorrentino, dir., do Comitê Central) ditribuem a primieira edição teste da nova Classe Operária, na sede dos Correios, em São Paulo.
 

IMPRENSA PARTIDÁRIA

A Classe Operária reencontra sua vocação
Um jornal de massas, para levar a opinião do Partido para o povo e os trabalhadores
José Carlos Ruy

Adecisão tomada pelo Comitê Central do Partido Comunista do Brasil, em 24 de fevereiro, de mudar profundamente o formato, o público alvo e a tiragem d’A Classe Operária, é o resultado final de um longo processo de debate, consultas, reflexão e experiências – processo que durou o tempo suficiente para uma decisão amadurecida.


Octávio Brandão (na fileira de trás, à
esquerda da foto) e Astrojildo Pereira
(fileira de trás, no centro): pioneiros
d'A Classe Operária

Mudar não é uma novidade para A Classe Operária, o jornal histórico dos comunistas brasileiros. Fundado em 1925, o jornal enfrentou inúmeras fases em sua longa carreira que, este ano, vai completar 83 anos de publicação. O jornal nasceu de uma sugestão da Internacional Comunista, registrou seu primeiro editor, Octávio Brandão; sua criação foi aprovada no segundo congresso do PCdoB, realizado em fevereiro de 1925. E começou a circular no 1º de maio daquele ano. “Na manhã de 1º de maio de 1925, A Classe Operária estava impressa em pequeno formato, com quatro páginas. À tarde, foi distribuída amplamente no comício da Praça Mauá (no Rio de Janeiro) e acolhida carinhosamente pelos trabalhadores”, conta Brandão, em suas memórias. Astrojildo Pereira, que foi o principal fundador do PCdoB e seu secretário até 1930, também deu seu testemunho sobre a criação do jornal, escrevendo anos mais tarde: “A Classe Operária, com todas as suas insuficiências e deficiências, correspondia a uma necessidade sentida pela massa operária, aparecendo e impondo-se como um genuíno porta-voz dos trabalhadores”.

Aquele foi o início da longa trajetória do jornal comunista, que enfrentou censura, perseguição policial, e mesmo a prisão e o assassinato político de seus editores e redatores. Desde sua fundação, A Classe Operária teve apenas 26 anos de vida legal – os demais 46 anos foram de clandestinidade, perseguição e vida ilegal. Situação desfavorável que nunca impediu que o jornal cumprisse seu papel de porta-voz do ponto de vista avançado, revolucionário, defendendo o socialismo, a soberania nacional, a democracia e os trabalhadores. Seu historiador, Apolinário Rebelo, distingue – no livro Jornal A Classe Operária, aspectos da história, opinião e contribuição do jornal comunista na vida política nacional – seis fases na vida do periódico. A primeira vai de 1925 a 1940, “a parte mais violenta a ditadura Vargas”, diz ele. Volta a circular em 1945, durando até 1953, quando a direção comunista suspende sua publicação, sendo substituída por periódicos como Novos Rumos e A Voz Operária. A Classe reaparece em fevereiro de 1962 quando, com a reorganização do Partido, o jornal volta a circular legalmente. Esta fase vai até março de 1964 quando, com o golpe militar, volta à clandestinidade, reaparecendo em 1º de maio de 1965, abrindo uma nova fase, a quarta. Ela dura até maio de 1985, quando o PCdoB volta à atividade normal e legal e o jornal, retomando sua circulação regular, inaugura a quinta fase, que foi efêmera: com o registro legal definitivo do PCdoB, em junho de 1988, as edições d’A Classe Operária, diz Apolinário Rebelo, passam a registrar, junto ao logotipo, a expressão “sexta fase” de sua história.


Danielli era editor quando foi assassinado
pela repressão
Entre 1962 e 1985, enfrentando as duras condições da clandestinidade, o jornal teve um papel destacado na difusão das idéias comunistas. Foi nesse período que, em 1972, a polícia política assassinou, sob tortura, seu editor, o dirigente comunista Carlos Danielli – sem conseguir, contudo, eliminar o jornal do horizonte político e da luta contra a ditadura. As condições de produção do jornal eram as mais precárias possíveis: em alguns lugares, era mimeografado, em outros as cópias eram feitas em papel de seda, em máquinas de escrever nas quais, com o uso de papel carbono, podiam ser feitas de cada vez apenas cinco ou seis exemplares. Eles eram despachados pelo correio para militantes, dirigentes partidários e para a imprensa convencional. Em alguns órgãos da chamada imprensa alternativa, era ávidamente esperada por ser portadora de um conteúdo valioso para a resistência democrática: a opinião do Partido Comunista do Brasil.

Com a legalidade do PCdoB, em 1985, o partido começa um período de crescimento inédito em sua história. Ampliam-se suas fileiras e, pouco a pouco, aumenta sua representação institucional, com a eleição de parlamentares (deputados federais e estaduais, e vereadores) e, também, dos primeiros chefes de executivo, os prefeitos comunistas que, aqui e ali, começavam a aparecer. As necessidades de comunicação impressa com a militância e com a sociedade brasileira vão, aos poucos, se tornando mais complexas, e as contradições d’A Classe Operária, nesta nova fase, tornam-se cada vez mais visíveis. O próprio Brasil havia mudado muito durante os anos da ditadura militar; tornara-se mais urbano (a população residente nas cidades superava a marca dos 70%), com uma classe operária e o conjunto dos trabalhadores assalariados que cresceram e se fortaleceram na luta contra o regime de opressão. O Partido, ao retomar sua atividade legal, refletiu esse crescimento do proletariado, e também as diferentes realidades políticas dos estados e municípios brasileiros.

A crise da mídia
Tudo isso exigia instrumentos de comunicação adequados à nova situação, impondo ao Partido algumas tarefas de grande dimensão nesta área decisiva de sua ação. O tamanho continental do Brasil é uma dessas variáveis que dificultam a concretização de uma imprensa nacional impressa, mesmo para a burguesia, cujos principais jornais são estaduais, como a Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo ou O Globo. Além disso, a década de 1980 foi um período marcado por duas características: por um lado aumentaram as tiragens e a circulação da mídia impressa, refletindo o ascenso da luta política de massas; por outro lado, aquela foi a época do início da renovação tecnológica da comunicação de massas, com o incremento da mídia eletrônica, logo acelerado com a intensificação do uso da internet. Foi assim uma época de auge da mídia impressa, e também de seu subsequente declínio relativo: as esperanças de melhoria na vida da população, que animaram a luta social nos anos 80 foram frustradas na década seguinte, com a imposição do modelo neoliberal, a precarização das relações de trabalho, o aumento do desemprego e, em conseqüência, as fortes e continuadas perdas salariais, levando à desmobilização do movimento social, ao crescimento da pobreza e, assim, à queda na aquisição de jornais e revistas.

O pico de circulação ocorreu em 1994 e 1995, e um bom exemplo é o desempenho da Folha de S. Paulo, veículo que então tinha a maior circulação nacional e vendia uma média diária de 600 mil exemplares. Em 1996 já começou a cair, perdendo quase 20% de leitores e chegando a uma média diária de 500 mil. Dez anos depois, em em 2006, tinha perdido ainda mais, chegando à média diária de 310 mil exemplares (dados do Instituto Verificador de Circulação, IVC). Recentemente os jornais noticiaram uma certa recuperação do número de leitores, mas ainda muito pequena ante o auge atingido em meados da década de 1990.

A perda de capacidade aquisitiva da população e a mídia eletrônica explicam grande parte deste declínio. Mas não se pode desprezar também os fatores político-editoriais. Quem apontou para eles foi o estadunidense James E. O’Shea, que foi editor do Los Angeles Times, demitido por não aceitar reduções de orçamento na redação do jornal. “Precisamos informar mais sobre Barack Obama e menos sobre Britney Spears”, escreveu ele. Isto é: mais assuntos sérios, mais análises, mais aprofundamentos, na contramão da tendência contemporânea da mídia burguesa de “assuntos leves”, pouca profundidade e menor seriedade. Tendência que, no Brasil – embora não confessada com tamanha clareza – marca o jornalismo de grande parte dos periódicos das grandes empresas. E que resulta do predomínio do pensamento único neoliberal, traduzido no rebaixamento da qualidade jornalística de uma mídia que, aos poucos, trocou a investigação dos fatos por um denuncismo irresponsável e escandaloso; por um jornalismo superficial voltado para a vida dos ricos e famosos, que os chilenos descrevem com uma palavra saborosa: imprensa faranduleira; com compromisso cada vez menor com a vida política e social do país, e cada vez maior com os interesses das classes dominantes e, quase sempre, uma posição genuflexa em relação aos interesses dos EUA. A perda de credibilidade pode ser, assim, outro elemento a explicar a chamada “crise da mídia”.


Capa da primeira Classe eletrônica
Outro aspecto, e que talvez explique certo grau de recuperação da circulação dos jornais da burguesia, é a proliferação de títulos populares, de distribuição gratuíta ou preços muito baixos. Entre os veículos de distribuição gratuita pode-se citar os paulistanos MetroNews e Destak. Entre aqueles de preço baixo, o campeão é o mineiro Super Notícia que, custando R$ 0,25 por exemplar, é hoje o diário de maior circulação em todo o país, vendendo mais de 300 mil exemplares por dia e superando, assim, o antigo campeão, que era a Folha de S. Paulo.

A crise da mídia e a imprensa comunista
Estas dificuldades refletiram-se, de formas variadas, na imprensa comunista. O PCdoB procurou, com seus recursos escassos, enfrentar o desafio da comunicação. Em 1979, criou a Tribuna da Luta Operária como um jornal de massas que fosse um instrumento de organização partidária naquele período de semi-legalidade. A Tribuna foi publicada até 1988, convivendo com A Classe Operária, que era então quase um “diário oficial”, dedicado à publicação de documentos e informes da direção nacional. Mais tarde, em 1981, criou a revista Princípios para aprofundar a formação teórica e intervir no debate em curso no país. Depois surgiram ainda Debate Sindical e Presença da Mulher.

Mas os problemas, particularmente em relação a A Classe Operária, se acumulavam. No 7° Congresso, em 1988, eles foram registrados com cores fortes no informe apresentado por Rogério Lustosa: “A debilidade principal, e mais grave”, disse ele, “localiza-se nos órgãos centrais, tanto A Classe Operária quanto A Tribuna. A causa, no fundo, é o tratamento espontaneísta dado à agitação e propaganda em geral”. Naquele congresso, o Partido decidiu deixar de publicar a Tribuna da Luta Operária e privilegiar A Classe como instrumento para a ligação entre a direção partidária e a militância comunista. Mas não conseguiu superar o descompasso entre a necessidade de comunicação e sua concretização, situação que voltou a ser registrada no 8° Congresso (1992) onde, no informe político, João Amazonas referiu-se às debilidades e insuficiências d’A Classe Operária. Elas permaneceram e voltaram à tona no 9° Congresso (1997), onde o informe de Pedro de Oliveira apontou a insuficiência do trabalho realizado com os órgãos centrais do Partido, particularmente A Classe Operária. Ele referiu-se à “forte tendência ao localismo e ao regionalismo, a “cotas decrescentes dos órgãos centrais”, ao fato de apenas 29% dos militantes terem acesso ao jornal A Classe Operária, ao “precário fluxo de informações e análises da situação política e social dos estados” e, finalmente, à irregular circulação do jornal. Em sua intervenção sobre a propaganda comunista, no 10° Congresso, Pedro de Oliveira voltou ao assunto, relatando dificuldades persistentes. De um lado, referiu-se à recomposição do jornal (tiragem, distribuição, periodicidade e credibilidade); de outro, enfatizou a necessidade de fortalecimento de sua equipe de redação e “valorização de seu insubstituível papel como unificador e formador da vanguarda revolucionária em nosso país”. Registrou também que o jornal foi sendo definido, desde 1997, como “o órgão central e oficial do Partido, interno, de veiculação dos documentos e orientações da direção para as bases partidárias”, sendo a “referência para toda sua área de influência e demais forças políticas”.

O esforço para superar a crise
Os problemas existem para serem resolvidos, e o PCdoB – durante estes anos todos – trabalhou duramente para superar a crise de sua comunicação impressa. No período de legalidade iniciado em 1985, a comunicação partidária conheceu uma situação nova, na qual os instrumentos se multiplicaram, desde os programas de propaganda partidária gratuita garantidos pela lei, até a ampla difusão de periódicos estaduais, municipais, distritais e ligados aos mandatos dos parlamentares do Partido. A propaganda gratuita na tevê, com suas versões nacional e estaduais, permitiu ao Partido falar diretamente para milhões de brasileiros. E os periódicos locais ou ligados aos parlamentares permitiam a abordagem de temas regionais ou particulares raramente mencionados na imprensa central do Partido, inclusive devido à diversidade de situações enfrentadas pela luta política dos comunistas pelo Brasil afora.

A comunicação partidária estreou o uso dos modernos meios de comunicação eletrônica desde o final da década de 1990. Em 1997 começou a circular o boletim semanal Leia e Repasse, enviado por fax e correio eletrônico para uma lista crescente de pessoas, com “análises de conjuntura curtas que possam sevir de referência para outros materiais nos estados”. Começava então a revolução que transformaria o meio eletrônico no principal instrumento de comunicação entre a direção partidária e a militância comunista. O salto seria dado algus anos depois quando, em março de 2002, surgiu o portal Vermelho, promovendo a comunicação praticamente instantânea entre as várias instâncias partidárias; pouco depois, o aparecimento do Partido Vivo fortaleceu esta tendência, ajudando a modernizar a imprensa partidária.

Tudo isso impôs uma profunda alteração no caráter d’A Classe Operária, traduzido na exigência de definição mais acurada de seu papel e das necessidades partidárias que a mídia impressa procura atender.

Três experiências, três Classes
A Classe Operária, em seu formato convencional, entrou em acelerado declínio traduzido na persistente queda em sua tiragem e, desde 2003, foram tomadas algumas iniciativas em busca de um diagnóstico da situação (ver matéria nesta edição).

Foi uma busca que desdobrou-se nos ativos nacionais de comunicação – que, depois do 11° Congresso, passaram a ser chamados de Encontros Nacionais de Comunicação. Havia vários indícios de que a tiragem d’A Classe Operária era artificialmente alta, e não coincidia com a circulação efetiva do jornal; nesse sentido, foi sendo feito o esforço de adequar a tiragem (isto é, o número de jornais impressos) à circulação (o número de jornais realmente distribuídos) (ver matéria nesta edição). O Encontro de Comunicação de 2006 decidiu acelerar esse processo. Mas a iniciativa decisiva foi tomada no Encontro de março de 2007, que aprovou um plano de trabalho prevendo a realização de três testes com A Classe.

Um primeiro teste foi feito com a edição “normal”, de doze páginas que, agora mensal, teria o caráter de um jornal-revista, com matérias analíticas, de aprofundamento, além de reportagens e entrevistas. O resultado não correspondeu às expectativas. Foram atingidos alguns alguns pontos favoráveis, como – por exemplo - editoriais altos, como a reportagem sobre o programa Bolsa Família (publicada em fevereiro de 2007, mas já no espírito da experiência pretendida) ou a matéria sobre a crise econômica no coração do capitalismo (setembro de 2007). Mas a circulação continuou pífia, mal chegando a três mil exemplares – um número muito aquém não só do número de militantes (cerca de 90 mil) mas mesmo do conjunto de dirigentes partidários (cerca de 10 mil).

A outra experiência foi a tentativa de concretizar uma antiga proposta feita por Bernardo Jofily: uma edição eletrônica semanal, elaborada parcialmente pela equipe central (responsável por seis páginas do material editorial), complementada por duas páginas com material local (estadual, municipal ou distrital), para impressão em computador e distribuição nos estados, municípios ou distritos. Foi a Classinha eletrônica. Esta experiência teve como mote um jornal dos com internet para os sem internet – uma tentativa de suprir, eletronicamente, através de uma produção gráfica e uma distribuição militantes, a carência daqueles que, sem acesso a meios eletrônicos, pudesse receber uma comunicação impressa de produção gráfica descentralizada.

A experiência demonstrou a capacidade editorial de produção de um impresso semanal de boa qualidade jornalística, cobrindo os assuntos prioritários, num formato elegante e com uma linguagem ágil e direta. Mas seu calcanhar de Aquiles foi justamente a logística envolvida na impressão e na distribuição do jornal. Foram feitas duas rodadas desta experiência – uma em junho/julho, e outra em novembro/dezembro. A primeira envolveu os municípios de Rio de Janeiro, Petrópolis e Niterói (no Rio de Janeiro), Guarulhos e Santos (em São Paulo) e Betim (em Minas Gerais). Foram feitas quatro edições, que tiveram entre 624 e 1742 exemplares de tiragem um número alto, considerando-se o número de municípios envolvidos; o destaque ficou para Betim, que fez uma bem-sucedida impressão profissional, em gráfica – indo além da recomendação de impressão em computador – chegando, na quarta edição, à tiragem de mil exemplares.

A segunda rodada (novembro-dezembro) teve um êxito menor. Ela envolveu comitês estaduais, municipais e distritais: na primeira semana, 13 estados e 24 municípios, com tiragem de 212 exemplares: na segunda, 11 estados, 20 municípios e tiragem de 90; na terceira, 11 estados, 15 municípios e tiragem de 1138 (o município de Trindade, em Goiás, segunda dados colhidos no programa onde o jornal era disponibilizado, teria imprimido 1.000); na quarta, 9 estados, 17 municípios e tiragem de 41).

Embora incluindo um número de variáveis maior do que a experiência com a Classe “normal” (edição semanal; possibilidade de estados e municípios incluírem seus próprios textos; múltipla formas de impressão descentralizada, indo desde computadores domésticos até gráficas profissionais; distribuição também descentralizada, etc), o resultado desta experiência também não foi conclusivo. Se ela demonstrou a capacidade editorial de elaboração de uma edição semanal, deixou clara também a existência de gargalos como a impressão (o custo dos cartuchos é elevado e a impressão em gráfica não é viável em muitas localidades) e a distribuição (que também envolve custos altos de correio ou, como alternativa, uma logística ainda não dominada pelo conjunto do Partido). Resultado: o debate desta experiência, e a deliberação sobre ela, ficaram adiados para 2009.

Finalmente, a terceira experiência indicada pelo Encontro Nacional de Comunicação de 2007 foi aquela coberta de êxito e adotada pela reunião do Comitê Central de 2008 como o formato que A Classe Operária passa a ter a partir de agora: a publicação de uma edição mensal “de massas”, de quatro páginas, colorida e de linguagem popular, voltada para o “trabalho militante junto às áreas prioritárias de estruturação partidária (PEP), com tiragem de 300 mil exemplares”. As edições publicadas ao longo de 2007 foram experimentais, com estudo de projeto gráfico, linha editorial, linguagem, e também estruturação da distribuição massiva do jornal em locais de concentração popular e de trabalhadores. Seu sucesso pode ser medido com a alta tiragem e circulação do jornal, que alcançou médias próximas aos 300 mil exemplares e permite a previsão de aproximar-se, em 2008, a um milhão de exemplares.

A conclusão que se pode tirar deste retrospecto é a de que, com a legalidade, abriu-se um nítido descompasso entre as necessidades cotidianas da política partidária e a comunidação impressa do PCdoB. Particularmente A Classe Operária havia perdido, nestes anos, sua vocação: a de se dirigir às massas populares e trabalhadoras, levando a ela as opiniões dos dirigentes comunistas e sendo instrumento ágil e vivo de estruturação partidária – vocação firmada já em 1925, quando o jornal nasceu e teve sua primeira edição distribuída aos trabalhadores na manifestação de 1° de Maio, no Rio de Janeiro.



Estudando a crise d’A Classe

Em 2003, foi feita uma sondagem envolvendo os delegados à 9ª Conferência do PCdoB; em 2006, outra envolveu os membros do Comitê Central

O esforço pela compreensão mais profunda dos problemas d’A Classe Operária envolveu a realização de algumas sondagens, informais e sem pretensão do rigor científico, entre o coletivo partidário.

A primeira foi feita durante a 9ª Conferência do Partido, em julho de 2003, por iniciativa de Francyrose de Andrade e sua irmã Ana, que era a bibliotecária do Partido na ocasião.

Com ajuda de gente do ramo, elaboraram um questionário que foi aplicado aos delegados à conferência. Apesar da informalidade, aquela sondagem forneceu alguns dados que ajudaram a consolidar as mudanças em A Classe Operária feitas naquela ocasião (entre elas o reforço da equipe, mudança no projeto editorial, periodicidade quinzenal, aumento da tiragem). Mais da metade dos entrevistados considerou o jornal ótimo ou bom (embora o número dos que consideraram ótimo era o mesmo dos que achavam que era preciso melhorar o jornal: 20% dos entrevistados); foram feitas sugestões de temas a serem abordados, entre eles teoria e marxismo, ação institucional, divulgação de ações do partido. O tema sugerido com maior freqüência foi, entretanto, um indicador dos problemas que o jornal enfrentava: pedia a abordagem de questões regionais e estaduais. Em relação à distribuição, a imensa maioria (82% das respostas) afirmou que o sistema de cotas estaduais então adotado para distribuir o jornal não atingia seus objetivos, sendo preciso aumentar a quantidade de jornais; número semelhante de respostas considerou insatisfatória a distribuição do jornal no estado. Em relação ao projeto editorial, a maior freqüência das respostas (73% do total) queria um jornal com linguagem mais simples, matérias curtas, melhor projeto gráfico e mais ilustrações.

O alvo de outra consulta, feita em março de 2006 – também de maneira informal – foram os membros do Comitê Central; 47 responderam ao questionário que abordava um conjunto de questões em relação ao jornal. Somente sete disserem ter um interesse “muito grande” pelo jornal; 11 disseram ter um interesse grande; 19, médio; 9, pequeno; e um, muito pequeno. Destaca-se aqui que o grupo de interesse grande é um pouco maior do que o de interesse pequeno: 11 para 9. Significativa foi a manifestação de interesse pelo jornal. Oito respostas disseram que o interesse é crescente; 20, que era estável; e 19, que era decrescente. Um resultado que, em certa medida, contrastou com as respostas de tendência positiva do quesito anterior, revelando uma tendência de interesse declinante pelo jornal. Foi solicitado também que o entrevistado desse uma nota ao jornal, e a média obtida confirma também a avaliação explicitada nas respostas citadas anteriormente: a média foi 5,9, semelhante à maior freqüência (nota 6, dada por 12 entrevistados); ninguém deu nota um, nove ou dez – a nota máxima obtida foi oito, dada por oito entrevistados.

Estes dilemas, traduzidos nas respostas mencionadas, ficaram mais claros quando se solicitou a cada dirigente que definisse, em uma frase curta, sua avaliação d’ A Classe Operária. Neste ponto, a veemência das palavras explicitou aquilo que a frieza dos números indicava. Uma avaliação foi quase consensual: “Entre o Vermelho e a Princípios, a Classe precisa situar melhor o seu papel”. Foram registradas demandas de mais conteúdo, controle da regularidade da publicação, queixas quanto às assinaturas (não chegam ou chegam atrasadas), deixando os assuntos defasados e as notícias velhas. Muitos propuseram repensar o jornal, que não consegue “acompanhar as mudanças ocorridas nas mídias” e tem “foco indefinido”. Uma resposta foi taxativa: “A Classe está sempre defasada, com notícias velhas. Foi importante. Está superada. Devemos estudar outras formas”. Outros queriam a abordagem dos “diversos aspectos da luta política, de forma mais aprofundada e analítica, que seja ao mesmo tempo acessível.” (JCR).



Um jornal para atingir centenas de milhares

O formato de massas talvez seja um ovo de Colombo para nós, que pode levar A Classe ao seu público original Renato Rabelo

O PCdoB tem se esforçado para a consolidação e ampliação de seus meios de comunicação – que são ainda muito pequenos – e tem apoiado os veículos do campo progressista e democrático que queiram levar informação de boa qualidade e formar o nosso povo.

Por isso, o Partido precisa de órgãos de comunicação mais eficientes, que atinjam a população. Precisa fazer tudo aquilo que puder ser feito para ampliar o nosso espaço de divulgação. O maior “partido político” do Brasil é a TV Globo, que atinge a todo o povo brasileiro, como afirmava Leonel Brizola. Um partido político precisaria, da mesma forma, conseguir essa abrangência, mas isso não é permitido e é até mesmo impedido.

A Classe Operária é o veículo mais tradicional do partido, com 83 anos de história. É um jornal que poderia atingir mais amplamente a população, mas não consegue atingir nem mesmo o próprio contingente partidário.

Sua mudança já vinha sendo discutida há muito tempo. E depois de tanta discussão e de tentativas que na prática não vingaram, chegou-se à conclusão, que pode não ser definitiva, de manter A Classe no formato de uma publicação de massas porque, com ela, podemos atingir milhares de pessoas. Hoje, sua tiragem é de mais de 200 mil exemplares, com perspectiva de aumentar esse número.

Ao longo da história, vários partidos tiveram sua imprensa em formatos diferentes para enfrentar realidades próprias de cada situação e de cada tempo. Esta é A Classe Operária para os dias de hoje. O formato de massas, com quatro páginas e textos menores e mais acessíveis, talvez tenha sido o ovo de Colombo para nós. É dessa maneira que A Classe tem conseguido chegar ao seu público original: os trabalhadores. A decisão sobre A Classe Operária é um esforço de estender nossos meios de comunicação ao maior número possível de pessoas. É a forma que encontramos para fazer dela um jornal vivo e atuante e que chegue onde deve chegar”.
VERMELHO.ORG.BR