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Os socialistas, comunistas e a luta antineoliberal
tiveram uma derrota histórica, e profunda, na eleição
presidencial francesa do dia 6 de maio, quando o direitista
Nicolas Sarkozy foi eleito, no segundo turno, para o mais
alto cargo do país. Sarkozy não é a simples
continuidade de seu antecessor Jacques Chirac. Ele está
à sua direita, tem um projeto de longo fôlego,
e diz não se envergonhar dessa opção
política ligada aos poderosos, aos que mandam, à
elite. Ao contrário, é orgulhoso dela, como
demonstra por sua trajetória, pelo seu programa, pelo
seu estilo e ainda pelas circunstâncias da eleição.
Chirac foi eleito no dramático segundo turno de 2002,
com o voto dos republicanos de todos os quadrantes, frente
à ameaça do ultradireitista Jean-Marie Le Pen.
Sarkozy venceu pirateando sem maior pudor elementos da plataforma
de Le Pen, em nome, como disse, de uma ‘’direita descomplexada’’.
Para as esquerdas francesas, hoje fragmentadas, combalidas
por um itinerário recente de cedências e incoerências,
começa uma fase de resistência, ecoando a designação
da Resistência Francesa contra o invasor nazifascista,
na década de 1940. A seu favor, contam com uma secular
tradição e cultura de combate e também
com feitos recentes como a notável vitória do
‘’Não’’ à Euroconstituição neoliberal,
em maio de 2005. O primeiro desafio virá logo, com
a eleição legislativa de 10 e 17 de junho.
Na América Latina, a guinada da França à
direita convoca à reflexão e à ação.
Aqui, ao contrário da Europa e dos Estados Unidos neoconservadores,
tudo parece favorecer às esquerdas. Desde a vitória
de Hugo Chávez em 1998 e mais ainda após Lula
em 2002, estas colecionam êxitos: onde não
triunfam, avançam.
O feito da direita sarkozyana vem nos recordar que esta
tendência latino-americana não é um destino
escrito nas estrelas. Mais ainda pois se trata de um movimento
heterogêneo, desigual, às vezes contraditório
ou mesmo conflituoso e ainda pouco digerido no plano da teoria.
onda latino-americana pode se afiançar, consolidar,
galgar novos patamares e até estimular – em certa e
modesta medida já estimula – uma volta por cima progressista
no plano internacional. Mas também pode sucumbir ou
refluir, vítima de suas insuficiências, como
aconteceu em décadas passadas com as frustantes experiências
social-democratas na Europa, hoje substituídas por
esta preocupante direitização. O desfecho depende
de seus protagonistas, de sua coragem, coerência, capacidade
unificadora, perspicácia e argúcia estratégicas. |