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O aula, o primeiro operário e sindicalista a
ocupar a presidência da República no Brasil poderá ser, também,
um algoz dos direitos dos trabalhadores: a imprensa acaba de
anunciar que até o início de maio o governo vai enviar ao
Congresso um projeto de lei com severas restrições ao direito de
greve dos funcionários públicos e de setores considerados
essenciais.
Preparado pelo ministério do Planejamento, o projeto prevê o
desconto dos dias parados, ou sua reposição (desde que “as
greves não sejam longas”, diz o ministro Paulo Bernardo), e a
obrigatoriedade da presença de, no mínimo, 30% dos funcionários
para manter os serviços em funcionamento. Já nos setores
considerados essenciais, as greves serão simplesmente proibidas
e os trabalhadores de 19 atividades, como controle de vôo,
emergência hospitalar, tratamento e abastecimento de água, e
segurança pública, não poderão usar este instrumento de luta
essencial.
A restrição ao direito de greve “é inaceitável”, já havia dito,
no começo de março, o vice-presidente da Central Única dos
Trabalhadores, Wagner Gomes. Naquela ocasião, o próprio
presidente da República havia declarado seu apoio à proibição do
direito de greve para os funcionários públicos. “A afirmação do
presidente de que seu governo tem autoridade para estabelecer
essa medida antidemocrática é ininteligível”, disse Wagner.
“Deveria ser o contrário: um governo chefiado por um
ex-sindicalista deveria ter autoridade para coibir abusos como
este proposto pelos interesses conservadores”, lembrando que o
”direito de greve, convertido em princípio constitucional pelas
grandes mobilizações populares que impuseram o fim da ditadura
militar, foi aprovado em uma Assembléia Nacional Constituinte
livremente eleita e soberana. Não cabe agora a restrição a esse
princípio sagrado por meio de um golpe de mão – ainda mais por
um governo com um escopo ideológico progressista”.
A ameaça é grave. Os trabalhadores lutaram durante décadas para
alcançar este direito, e o presidente Lula foi, na ocasião, um
dos principais – senão o principal – dirigente dessa luta. E
este passado é o que torna inadmissível, e incompreensível, que
seu governo tome uma medida tão drástica e anti-democrática como
esta que se anuncia, que favorece os patrões e desarma os
trabalhadores. |