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O anúncio do Programa de Aceleração do
Crescimento (PAC), em 22 de janeiro, a posse dos novos deputados
e senadores, no dia 1º de fevereiro, e mesmo o anúncio pelo
presidente Lula de novos critérios para calcular as contas da
Previdência Social (segundo os quais grande parte do alegado
déficit passaria a ser considerado como despesas do Tesouro
Nacional) indicam a vontade de colocar o país em um novo rumo de
desenvolvimento, e também a constituição de uma base parlamentar
capaz de apoiar esta busca.
A discussão pública provocada pelo anúncio do PAC obrigou os
analistas e economistas neoliberais a exporem de forma clara os
interesses que defendem em análises que tentam apresentar como
técnicas ou supostamente científicas.
Numa mal disfarçada torcida pelo fracasso do plano de
crescimento, o tom geral destes analistas foi de condenação à
retomada do papel do Estado na indução do desenvolvimento. Como
Paulo Leme, economista da corretora novaiorquina Goldman Sachs,
que condenou “a ingerência do Estado na economia”. Charles
Dallara, do Instituto de Finanças Internacionais, que reúne 360
bancos de 60 países, recomendou que o Brasil e o México
“reafirmem o compromisso com o livre mercado”. Tasso Jereissati,
atual presidente do PSDB, disse que “o grande agente de
crescimento econômico” é a iniciativa privada, não o Estado.
Da burguesia industrial, por sua vez, vieram cautelosas
manifestações de otimismo em relação ao plano. Paulo Skaf,
presidente da Fiesp, disse que se “tudo o que foi anunciado
efetivamente ocorrer”, ele não tem “a menor dúvida de que haverá
investimentos privados”. Para Rogelio Goldfarb, presidente da
Anfavea, embora não seja possível a previsão de um crescimento
sustentável, o PAC representa “ o início de um processo”. Ivoncy
Ioschpe, da Iochpe-Maxion, diz que “ o governo está criando
condições para que os investimentos aconteçam”. E peso-pesados
da economia, como Jorge Gerdau Johannpeter e Antônio Ermírio de
Morais, apoiaram o plano ou minimizaram as críticas feitas
contra ele.
Estas manifestações, de dois setores importantes das classes
dominantes, atualizam o velho conflito que opõe os que defendem
o desenvolvimento aos partidários do travamento da economia.
Esse conflito que demonstra os poderosos interesses que o
governo enfrentará para avançar nos propósitos
desenvolvimentistas que vêm manifestando. São interesses
contrários ao desenvolvimento, que fundamentam o programa
neoliberal e que têm, na sociedade brasileira, uma parcela de
poder que não pode ser negligenciada.
Há condições para este enfrentamento: o governo conseguiu, na
Câmara dos Deputados, uma maioria inédita de 352 deputados (mais
de dois terços do total).
No Senado, tem o apoio de 49 dos 81 senadores (mais da metade),
o que cria condições mais favoráveis do que as existentes no
primeiro mandato para enfrentar as tempestades que podem vir
pela frente.
E que podem permitir a formação, diz Renato Rabelo, presidente
nacional do PCdoB, da ampla coalizão de governo necessária para
criar um quadro político favorável ao seu trabalho. É preciso
lembrar, alerta ele, que o PAC está refém da política econômica
vigente, como mostrou o balde de água fria jogado pelo Banco
Central ao reduzir em apenas 0,25% a taxa de juros logo após o
anúncio do programa. |