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Walter
Sorrentino, Secretário Nacional de Organização do PCdoB, diz que o partido já
começou sua campanha e quer eleger pelo menos dois senadores e até 20 deputados
federais, para aprofundar as mudanças iniciadas neste governo. Para alcançar
este objetivo, é preciso manter a tradição elevada das campanhas eleitorais,
cuja marca sempre foi a luta por ideais elevados de democracia, direitos sociais
e maior desenvolvimento econômico do país.
A Classe Operária entrevista
WALTER SORRENTINO
A Classe Operária: A campanha começou, neste mês de julho. Que
características já podem ser visualizadas?
Walter Sorrentino: Cada campanha tem sua particularidade política, própria
do quadro onde se inscreve. Esta já mostra algumas características importantes:
será curta e concentrada. Isso se deve à nova legislação eleitoral, aliás a Lei
Bornhausen, que conseguiu atrasar a campanha, porque mais uma vez se modificou
as regras durante o jogo. Isso colocou ainda maiores obstáculos a uma campanha
popular, buscando inibi-la. Na verdade, abriu caminho para as forças
conservadoras para uma campanha ainda mais cara. São apenas 60 dias para
esclarecer, motivar e mobilizar os eleitores.
A Classe Operária: A tendência é de dois turnos?
Walter Sorrentino: Deve-se estar preparado tanto para um segundo turno,
quanto para liquidar a parada no primeiro turno. Pesquisas não dirigem campanha
e não podem motivar ânimo ou desalento. Elas são muito fluidas neste momento e é
preciso estar muito crítico à forma como são concebidas – o pesquisador Nelson
Breve demonstrou no sítio Carta Maior como a última pesquisa do
IBOPE-Globo-Folha alterou a ponderação dos estratos pesquisados desfavorecendo
Lula. O que não tem lugar é sentimento de salto alto. As conquistas populares
nunca foram fáceis no nosso Brasil, mais ainda quando se trata da Presidência da
República. E as forças conservadoras aliam sagacidade e crueldade sem par nessas
horas.
Por outro lado, a disputa avulta também porque estão em
jogo 27 governos estaduais, 27 senadores e 513 deputados federais, que terão
enorme papel em constituir maior governabilidade para o futuro governo Lula.
Pode-se aquilatar, por exemplo, o peso que teria eleger, pela primeira vez, um
governador do bloco de esquerda num Estado como São Paulo.
A Classe Operária: Quais foram as diretivas que a
Comissão Política Nacional apontou sobre a disputa?
Walter Sorrentino: Estamos situados com clareza nesse quadro. Visamos
sustentar o centro da nossa tática: reeleger Lula para prosseguir e aprofundar
as mudanças iniciadas. O governo Lula terá grande papel histórico em integrar
socialmente a população brasileira – marginalizada por sucessivos modelos
concentradores de renda –, ao lado de integrar o continente sul-americano e por
ter estabelecido bases poderosas para retomar investimento, diversificar a
matriz energética e muitas obras mais. É essa possibilidade que se abre, sob a
condução de forças avançadas da nação brasileira, que a direita conservadora
visa derrotar.
Vai ser uma eleição altamente polarizada. Não nos enganemos
sobre isso: nada justifica espírito rotineiro. Talvez seja uma das eleições mais
importantes de todas que vivenciamos desde a redemocratização. Porque está clara
a radicalidade imposta à disputa pela direita conservadora, desde o início da
crise política. Eles visam barrar as mudanças, truncar a marcha por um novo
projeto nacional de desenvolvimento, desmoralizar a esquerda, fazer vingar o
preconceito contra um homem do povo governar o país. Hoje não têm tanques à sua
disposição para vergar a democracia e participação popular, mas têm a seu
serviço o grosso dos meios de comunicação, cujo papel é muito poderoso, sem
falar no poder econômico. Tudo isso à revelia de qualquer controle social! Hoje,
por exemplo, é claro o comportamento da mídia, quase como um todo: só pautas
negativas sobre a atividade do presidente-candidato. Estão sendo inescrupulosos
ao ponto de tentar responsabilizar o atual governo por esquemas que eles
criaram, no Ministério da Saúde do governo FHC, jogar para o atual governo que,
aliás, foi quem lancetou o tumor!
A Classe Operária: As condições de largada, como estão?
Walter Sorrentino: A partida foi positiva. Lula se fortaleceu nos últimos
meses, mas é preciso suar muito a camisa para liquidar a parada. A mensagem de
campanha, realçando “Lula de novo, com a força do povo” sintetiza de forma
acurada o que está em jogo. É preciso acentuar o significado de uma engenharia
política competente, para atrair outros aliados nos estados, no todo ou em
parte, formar conselhos políticos suprapartidários em cada estado para coordenar
a campanha presidencial, integrando forças, buscando simpatia ou neutralidade
para Lula em outros palanques estaduais. Numa campanha tão disputada, é na
política que se perde ou se ganha.
Há um conjunto substancial de apoio nas candidaturas nos
Estados, seja a governador e senador, seja nas chapas de federais. PT e PCdoB
estão coligados em todos os 27 estados. Em 16 deles está também o PSB e em 6 o
PMDB, como foi o caso bem importante de Minas Gerais. Essas coligações PT-PCdoB,
somadas àquelas onde o PSB encabeça, podem chegar ao governo em até 11 estados,
no primeiro ou segundo turno. Em outros estados contamos com outras forças,
particularmente do PMDB. Este partido, isoladamente, é o que pode conquistar
maior número de governos, de doze a quinze, dos quais pelo menos 9 apóiam Lula
direta ou indiretamente.
A Classe Operaria: E quanto à campanha própria dos
comunistas?
Walter Sorrentino: O PCdoB também já deu a partida em sua campanha, com
algum atraso, dadas as dificuldades materiais e os esforços de montagem dos
esquemas político-eleitorais. A perspectiva do partido é eleger pelo menos dois
senadores e alcançar até 20 deputados federais. É possibilidade que pode ser
realizada, se tivermos competência em equacionar alguns desafios.
Os comunistas tiveram tradição elevada de campanhas eleitorais quando estávamos
na oposição. Hoje a coisa mudou, embora as mudanças no país recém se iniciaram.
É preciso aprofundá-las. Por isso, a nossa experiência de campanha é ainda muito
valiosa, porque os comunistas seguem sendo candidatos que lutam por ideais de
democracia, direitos sociais e maior desenvolvimento econômico do país.
A Classe Operária: Quais desafios foram apontados?
Walter Sorrentino: Um deles é realizar uma campanha praticamente
suprapartidária para nossos deputados federais, isto é, garantir que se efetivem
dezenas de dobradas eleitorais que ampliem o horizonte de chegada da campanha. O
outro é garantir recursos materiais para uma campanha extensa e volumosa.
A Classe Operária: E quanto à campanha propriamente
dita?
Walter Sorrentino: O decisivo é uma campanha de massa. No caso, realça o
peso dos redutos eleitorais. Deve-se voltar todas as energias para reforçar a
votação nesses redutos, onde temos trabalho concentrado, sobretudo nas regiões
metropolitanas onde é maior o número de eleitores. Isso indica a ponderação da
agenda de campanha dos candidatos e candidatas, e também o peso da militância na
campanha, que deve ser capaz de tensionar a atividade de campanha mesmo na
ausência deles. Do mesmo modo, reforça a necessidade de um forte visual dos
candidatos e muitos carros de som para uma atividade permanente nas cidades.
Portanto, devemos saber fazer uma campanha permanente, mesmo na ausência do
candidato – seja Lula, sejam os candidatos e candidatas a governo e senado,
sejam os próprios candidatos a deputados pelo Partido. Campanha não é só agenda
do candidato, mas o suporte regular e persistente de um conjunto de apoiadores.
Por isso, a força militante do partido é um trunfo importante e mesmo decisivo
para a vitória.
Campanha é isso: material, movimentos políticos, atividades
variadas, agenda dos candidatos. Coisas decididas com clareza e determinação em
realizá-las. Não se pode olhar muito para trás – o tempo é curto. São apenas 60
dias, o que permite estabelecer uma agenda estratégica pré-concebida, ordenando
o tempo a dedicar a cada área ou setor. O fundamental é chegar ao povo.
O segundo aspecto é o rigor no cumprimento nas normas
eleitorais, extremamente restritivas e em alguns casos arbitrárias. Há muitas
novas regras restritivas de campanha este ano. É preciso um forte esquema
jurídico para impedir manobras e tentativas de impugnar atividades de campanha.
E, por fim, o peso enorme que têm os programas de TV na campanha, o que motiva
atenção especial de quadros experimentados e negociações no seio da coligação,
garantindo no mínimo o tempo próprio do PCdoB.
A Classe Operária: Para finalizar, que expectativas se
podem alimentar neste momento?
Walter Sorrentino: De certo modo, campanha eleitoral é uma química que se
estabelece entre o eleitor e o candidato. Neste momento, a polarização do debate
político eleitoral está centrado na imagem de Lula, presidente e candidato.
Quando engrossar o caldo de campanha de rua, com o programa de TV, será possível
ter uma idéia mais clara do tipo de comportamento do eleitor, particularmente
quanto aos deputados e às fortes denúncias que afetam muito deles hoje.
Aliás, os comunistas nesta campanha devem elevar bem alto
sua voz por uma maior democratização do sistema político-eleitoral no país.
Porque a crise política que motiva o denuncismo hipócrita da oposição
conservadora é a crise do sistema político criado por eles, com o financiamento
privado de campanha e sem fidelidade partidária, que esvaziam o sistema
partidário e criam o mercado de legendas no país. Uma reforma política
democrática, para garantir o pluripartidarismo democrático que o país precisa, é
uma exigência incontornável. Este é, aliás, compromisso de um segundo mandato de
Lula.
Os comunistas têm por que alimentar expectativas positivas.
O PCdoB cresceu, aumentou seu prestígio, seus quadros fazem diferença no cenário
político, esteve inteiramente isento de quaisquer imputações éticas. Tomou um
lado bem definido no enfrentamento político dos últimos anos, e ao mesmo tempo
manteve suas posições próprias. Crescendo, o PCdoB ajuda o Brasil. O eleitor
reconhecerá esses méritos se formos capazes de chegar a ele aos milhões, com
mensagens claras e diretas e um incansável trabalho militante. A militância
define o sucesso de nosso plano eleitoral.
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A Classe Operaria: No programa de governo da Frente
Popular (PT-PCdoB), um dos pontos mais ressaltados é a queda do PIB per capita
no estado e o desemprego. Se Olívio vencer, como irá lidar com tais questões?
Jussara Cony: O PCdoB está apresentando, para ser incorporado ao programa da
Frente Popular, um conjunto de idéias amadurecidas ao longo de vários debates,
sobre a natureza das dificuldades que atormentam o Rio Grande.
Todas as evidências apontam para a responsabilidade do
governo atual. A disputa eleitoral aqui deverá ser pautada pelo debate sobre a
crise no estado. A crise se expressa na perda do dinamismo de nossa economia,
aqui entendido como a pouca capacidade de responder à conjuntura macroeconômica
e aos ajustes da economia internacional, na queda da produtividade de vários de
seus setores e nos baixos índices de investimento público, bem como no
empobrecimento crescente de várias regiões do estado.
No ano passado, o PIB do Rio Grande teve o desempenho
negativo de 4,8%, contrastando com a expansão da economia brasileira, que foi de
3,3%, segundo dados preliminares. A produção industrial, medida pelo IBGE, caiu
3,5% e as vendas industriais, 8,95%. Enquanto o crescimento de emprego na média
brasileira para abril foi de 0,5%, o Rio Grande contabilizou uma queda de 9,3%,
ou seja, o pior resultado nacional e, no acumulado dos quatro primeiros meses de
2006, o estado teve redução de oferta de emprego de 9,5%, também o pior índice
nacional.
A Classe Operaria: E quais são as soluções?
Jussara Cony: Não há solução de curto prazo para a dimensão e natureza da
crise, menos ainda considerando as limitações financeiras do estado e o não
alcance de variáveis macroeconômicas essenciais à formulação de políticas
públicas como câmbio e juros. Vamos ter de adotar, nos limites da esfera
estadual, um conjunto de medidas com impactos no médio e longo prazo e trabalhar
com a capacidade de articulação que o estado tem. A reeleição de Lula deverá ser
determinante para nossos objetivos porque abre caminho para o Brasil se
desenvolver ainda mais e integrar o Rio Grande nessa dinâmica.
A Classe Operaria: Nas pesquisas, a diferença entre
Rigotto e Olívio não é grande e a disputa pode ir para segundo turno. Em que
frentes o PT e o PCdoB deverão atuar para alavancar a candidatura da Frente
Popular?
Jussara Cony: Estamos atuando, desde já, para a construção da mais ampla
articulação para o segundo turno. Para o primeiro turno, vamos alavancar com o
nosso projeto para o estado e com um diálogo amplo e honesto com todos os
setores da produção e do trabalho. Também pretendemos focar nosso trabalho em
frentes importantes como as universidades, escolas técnicas, setores da saúde,
ciência e tecnologia; movimentos juvenil, sindical, negro e de mulheres. É
preciso mostrar à população que podemos, juntos, retomar as rédeas do Rio Grande
e tirá-lo do fundo do poço em que foi colocado pela limitação política e
incompetência das forças que estão no governo cujo representante é Rigotto.
A Classe Operaria: A que se pode atribuir o bom
desempenho de Rigotto nas pesquisas?
Jussara Cony: O governo é ruim, mas Rigotto está bem na foto porque está
blindado pela mídia desde o início. Ele atua no sentido de se eximir da
responsabilidade pela crise que enfrentamos no estado, indo na contramão da
história. O Brasil de 2006 não é o mesmo de 2002 porque cresceu; o Rio Grande
também não é o mesmo, porque estagnou. Rigotto, que governa o estado, está com
cerca de 20% das intenções de voto, assim como o Olívio. Se ele hoje é
governador, então isso significa que tem apenas 20% de aprovação. O clima
eleitoral ainda é morno e por isso temos de ganhar as ruas, articular nossa
militância e trabalhar para eleger Olívio e nossos candidatos.
A Classe Operaria: Em que medida pesa, para a
candidatura de Olívio Dutra ao governo do estado, o fato de sua vice ser
comunista?
Jussara Cony: Pesa e muito. Primeiro porque a sociedade, em todos os
setores, está vendo o significado político do que é ser comunista. O PCdoB tem
crescido e adquirido visibilidade nesse processo do governo Lula. O papel de
nossos dirigentes, militantes de diversas frentes, de nossos parlamentares – com
destaque para a eleição e atuação do Aldo Rebelo na Câmara Federal –, a
sinceridade e fidelidade com a crítica necessária ao aliado, a independência, o
fato de o PCdoB não ter tido envolvimento na crise política que atingiu o PT e
outros partidos, tudo isso forma a imagem do partido. A sociedade se abre ao
PCdoB. E a política do partido é a grande responsável pelo desempenho de suas
lideranças. (PL, com Denise Campão) |