|
O
Partido Comunista do Brasil vai enfrentar grandes desafios na
batalha eleitoral deste ano. O principal deles é superar a
draconiana e anti-democrática cláusula de barreira de 5% dos
votos para a Câmara dos Deputados mais 2% em pelo menos nove
Estados, imposta pela legislação para que um partido possa ter
uma representação parlamentar normal, com direito a tempo
gratuito de propaganda na televisão, recursos do fundo
partidário, funcionamento de sua liderança parlamentar, etc.
Os comunistas vão para a disputa ancorados numa experiência
eleitoral que já tem 28 anos – 20 dos quais, desde a legalização
do Partido, em 1985, participando concorrendo abertamente, com
sua própria legenda. E começam o ano preparando-se para o embate
de outubro, com três singularidades, como destaca o secretário
de Organização do Partido, Walter Sorrentino. Uma delas é a
capacidade de ligar as lutas eleitorais às lutas políticas
maiores em curso.
Capacidade que faz o Partido crescer quando coloca a disputa no
terreno do debate político de projetos para o país. Outra é a
capacidade de articular a disputa eleitoral à estruturação
partidária, apoiando a apresentação de candidatos comunistas nos
setores estratégicos onde atua – proletariado, juventude,
setores formadores de opinião, além de avançar em novos
segmentos onde, nos últimos anos, sua atuação cresceu, seja nos
movimentos sociais seja na participação em numerosas instâncias
institucionais. Finalmente, a terceira singularidade se refere
ao grave desafio de superar a cláusula de barreira.
Tudo isso, escreveu Walter, vai imprimir à campanha eleitoral do
PCdoB um forte conteúdo de denúncia e apelo democrático à
sociedade, e centrar a disputa na eleição e votação para
deputados federais e estaduais e, ao mesmo tempo, buscar o
equilíbrio na apresentação de nomes para as disputas
majoritárias – governos, vices e senadores.
O ano começa favoravelmente, marcado pela mudança na conjuntura
representada pela recuperação do prestígio de Lula, indicando
uma tendência eleitoral mais favorável ao presidente, embora num
quadro ainda embrionário, no qual a oposição conservadora
enfrenta dificuldades e divisões até mesmo para definir seu
candidato para concorrer à sucessão de Lula. Esta é a avaliação,
cuidadosa, feita por Renato Rabelo, presidente nacional do
PCdoB. Trata-se de um quadro ainda em movimento e mesmo as
regras eleitorais estão indefinidas, com mostra a manutenção da
verticalização pelo TSE, no começo de março.
O PCdoB vai encarar a eleição deste ano como uma espécie de
avanço na transição em sua estratégia eleitoral, sinalizando que
o Partido é uma alternativa política efetiva, para a retomada de
uma reforma política verdadeiramente democrática para o país,
pensa Walter Sorrentino. É por isso que, diz ele, o 6º Plano de
Estruturação Partidária do PCdoB – que será debatido pelo Comitê
Central do Partido - vai centrar seu horizonte na eleição e seu
foco em duas questões centrais: a mobilização do Partido para a
batalha política eleitoral, e o aprimoraramento de sua
intervenção política de massas neste primeiro semestre,
articulando ambas as questões para um desempenho avançado dos
comunistas. |
|
O presidente Lula também
quer uma Nova Carta aos Brasileiros – esta é a grande novidade
das últimas semanas. No quadro da grave crise dos últimos meses
do governo de Fernando Henrique Cardoso, em meio à campanha
eleitoral de 2002, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva
anunciou uma Carta aos Brasileiros onde, depois de afirmar a
necessidade de mudanças no país, enfatizou o compromisso com o
cumprimento dos contratos firmados pelo governo que terminava, o
respeito às obrigações financeiras que o novo governo iria
herdar e acenando, nesse sentido, com uma política econômica
restritiva, de feição ortodoxa. Por isso a primeira Carta aos
Brasileiros representou o compromisso com o chamado “mercado”,
com o sistema financeiro, de que não haveria uma ruptura
abrupta, sendo o fundamento da orientação econômica conservadora
adotada pelo novo governo.
Uma Nova Carta aos Brasileiros precisa ter outra conotação e
indicar o compromisso com o desenvolvimento, a produção e o
trabalho. E registrar a disposição de adotar uma nova orientação
cuja base seja a criação de riquezas e a distribuição de renda.
O governo Lula superou a crise e hoje o Brasil encontra-se em
condições mais favoráveis do que aquelas do final do governo
tucano, podendo-se destacar, entre os fatores positivos, alguns
como a diminuição da vulnerabilidade externa e da dívida
externa; o crescimento consistente do superávit comercial; os
sinais, mesmo discretos, de retomada do crescimento; a
recuperação do poder de compra do salário mínimo e a pobreza
diminuiu no país, embora também em ritmo inferior ao necessário.
Estes são alguns pontos favoráveis que permitem a conclusão de
que o atual governo conseguiu criar as condições para um
desenvolvimento mais acentuado, como diz Renato Rabelo,
presidente nacional do PCdoB. É nesse quadro que o PCdoB, o PSB
e PT consideram necessário o anúncio de uma Nova Carta aos
Brasileiros, que sinalize a opção pela mudança e fundamente a
repactuação da frente de esquerda que deu sustentação à
candidatura Lula em 2002 e ao seu governo.
Um novo documento como este será um manifesto importante que, na
disputa eleitoral, permitirá o anúncio de uma nova fase de
desenvolvimento para o país e, dessa forma, demarcar o campo com
o tucanato que pretende voltar ao Palácio do Planalto e, como
seus líderes anunciam, desfazer aquilo que o atual governo
construiu e reintroduzir à frente do governo a agenda neoliberal
com o séqüito de males que a caracteriza – privatizações, volta
da Alca, cortes de direitos sociais, mais restrições às
aposentadorias, reforma política antidemocrática etc.
|