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Do
ponto de vista diplomático, o Palácio do Planalto considerou
positiva a conversa entre os presidentes Luiz Inácio Lula da
Silva, do Brasil, e George W. Bush, dos EUA. Nas ruas, ao
contrário, o povo não quis conversa e manifestou seu repúdio
contra o unilateralismo e a agressividade imperialista do
mandatário estadunidense. No saldo final, a certeza de que o
visitante indesejado levou na memória o fortalecimento do
sentimento antiimperialista no Brasil e nos demais países da
América Latina. E, na bagagem, um fracasso diplomático: os
homens de Washington não emplacaram, na 4ª Cúpula das Américas,
realizada em Mar Del Plata, Argentina, a data para a retomada
das negociações sobre a Alca.
A 4ª Cúpula foi o
motivo da visita de Bush à Argentina e, depois, ao Brasil – na
volta aos EUA, ele fez uma escala também no Panamá. Foram dias
de pressões e chantagens dos negociadores do governo dos Estados
Unidos sobre os 34 países que participaram da cúpula – que,
entretanto, foram impotentes para dobrar os principais países da
região e acatar aquilo que os estadunidenses mais queriam, a
certeza da volta da Alca.
Os negociadores
dos EUA conseguiram reunir outros 26 países da região para
apoiar seus desígnios, mas fracassaram em sua tentativa de impor
sua agenda aos cinco principais países que resistem – Brasil,
Argentina, Uruguai e Paraguai, que formam o Mercosul, e a
Venezuela.
Assim, a Alca é um
tema que aparece em três pontos na Declaração de Mar del Plata,
divulgada no final do encontro. Um parágrafo faz referência a
“um grupo de países que está disposto a continuar negociando a
Alca, tal como está agora”. Outro, registra a posição dos quatro
países do Mercosul e da Venezuela, “que entendem que não há
condições para continuar negociando a Alca nos termos em que
está proposta”. O terceiro parágrafo inclui uma “oferta” do
presidente colombiano, Álvaro Uribe, “de convocar uma reunião de
negociadores para avaliar a situação geral da Alca, tirar
conclusões e fazer recomendações aos governos”.
“Fomos cinco
mosqueteiros, com os joelhos na terra, brigando no debate sobre
essa integração”, comemorou o presidente Hugo Chávez, da
Venezuela. E comentou: “George W. Bush foi derrotado. Vocês não
viram a cara dele quando foi embora?”.
A declaração
inclui a solidariedade ao Haiti, referências à importância da
manutenção da governabilidade na Bolívia, e o destaque para a
importância da geração de trabalho, que, segundo o
vice-chanceler argentino, é a parte mais extensa e detalhada do
documento final. Nela, ressalta-se, por exemplo, a importância
do crescimento com igualdade social, a necessidade de apoio às
pequenas e médias empresas e a geração de postos de trabalho
como forma de combater a pobreza. Neste particular, o texto é
conciliador e registra diferenças entre os governos dos países
desenvolvidos defendendo maior flexibilização das leis
trabalhistas, e o Mercosul, que sugere maior cautela e proteção
ao trabalhador.
São contradições
que levam, para a mesa das negociações, as inquietações
manifestadas pelos protestos contra Bush em Mar Del Plata, em
Buenos Aires e nas principais capitais e cidades brasileiras. Em
Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Manaus, Porto
Alegre, Campo Grande, o povo ocupou as ruas para demonstrar seu
repúdio contra George W. Bush e contra o imperialismo. A próxima
reunião da Cúpula das Américas, em 2006, foi marcada para
Trinidad e Tobago.
Até lá, as
palavras de ordem Fora Bush!, Fora Alca! continuam na ordem do
dia. |
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A morte de dois jovens
de 15 e 17 anos ao fugir da polícia em Clichy-sous-Bois, na
periferia de Paris, foi o estopim para a rebelião que incendiou
as cidades francesas desde 27 de outubro. Sem comando aparente,
ateando fogo a automóveis, estabelecimentos comerciais, escolas,
meros coletores de lixo, e até uma delegacia de polícia, a
rebeldia espalhou-se por quase 300 cidades francesas e
repercutiu na Bélgica e Alemanha. Seus agentes: jovens, filhos
de negros e de árabes imigrantes, lançados ao desemprego e à
miséria, vítimas do “refinado” racismo francês.
Com seus paradoxos, o capitalismo contemporâneo, que concentrou
a riqueza nas mãos das grandes potências e aumentou enormemente
a miséria no restante do Globo, também fomentou o desemprego e a
pobreza dentro do chamado “primeiro mundo”, fazendo aquilo que
pode ser considerado como a “mundialização” da miséria.
Em alguns bairros da região metropolitana de Paris e de outras
cidades, o desemprego atinge 40% dos jovens. Em 2004, o índice
médio do desemprego nos subúrbios foi de 20,7%, o que representa
o dobro do índice nacional.
O governo francês teve a reação típica dos conservadores e da
direita: reforçou a repressão e decretou o estado de emergência
com o qual, a pretexto de “restabelecer a ordem”, criou ameaças
para a democracia e as liberdades. A oposição francesa, entre
ela os comunistas, criticou a medida e exige investimentos nas
escolas, nos programas sociais e programas que proporcionem
empregos aos jovens.
Embora sem rumo, programa ou liderança, a rebelião dos jovens da
periferia das cidades francesas é altamente significativa: ela
expõe as entranhas de uma sociedade rica que oculta, longe do
charme de seus centros luminosos, a miséria dos que sobrevivem
nas fímbrias da sociedade, empurrados ao desemprego e à
marginalidade. Sociedade cuja aparência reluzente esconde
contradições profundas que ainda não encontraram sua maneira de
expressão e, por isso, se mantém latentes, explodindo aqui e ali
sob a forma de protestos cegos cujo exato significado é indicar
o mal que acomete as sociedades capitalistas de nosso tempo, o
de fundamentar os privilégios de uma minoria na miséria e no mal
estar de multidões.
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