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PCdoB
 

Vermelho.org.br - A Classe Operaria

Edição nº 280

novembro/2005

 

 

CAPA

Fora Bush! Fora Alca!
A rebelião da periferia francesa e os males do capitalismo
 

PCdoB

Encontro sobre o Socialismo
Uriel Villas Boas vem ajudar a comandar a tropa
Para sindicalista cearense, PCdoB é um partido diferente
A coincidência na vida das Manuelas comunistas
“Eu estava lá no 11º Congresso e jamais esquecerei”
 

 NACIONAL

Uma moeda para segurar a renda no município
Alaor Barreto (1923-2005)
A nomeação de Haroldo Lima
Oposição X governo: queda de braço sem fim
Lula condena governo só para ricos
PSDB e PFL com as mãos sujas
Conversa positiva?
"O socialismo é uma necessidade"
 

INTERNACIONAL

Uma conferência pela paz
Final sem Alca
Um não definitivo aos EUA
Latino-americanos marcham contra Bush
Fogo!
Insensatez e ineficácia
Vitória esmagadora na ONU
 

MOVIMENTOS

Memória da resistência

Agenda da CSC terá reunião e marcha em novembro

Os brasileiros foram às ruas contra o imperialismo
Contra a lei da selva no ensino
Saudações a quem tem coragem
UBES requer apoio do PCdoB
Grito pela igualdade
 

ESPECIAL

Uma vida espantosa

 

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CAPA

Fora Bush! Fora Alca!

 

Do ponto de vista diplomático, o Palácio do Planalto considerou positiva a conversa entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, e George W. Bush, dos EUA. Nas ruas, ao contrário, o povo não quis conversa e manifestou seu repúdio contra o unilateralismo e a agressividade imperialista do mandatário estadunidense. No saldo final, a certeza de que o visitante indesejado levou na memória o fortalecimento do sentimento antiimperialista no Brasil e nos demais países da América Latina. E, na bagagem, um fracasso diplomático: os homens de Washington não emplacaram, na 4ª Cúpula das Américas, realizada em Mar Del Plata, Argentina, a data para a retomada das negociações sobre a Alca.

A 4ª Cúpula foi o motivo da visita de Bush à Argentina e, depois, ao Brasil – na volta aos EUA, ele fez uma escala também no Panamá. Foram dias de pressões e chantagens dos negociadores do governo dos Estados Unidos sobre os 34 países que participaram da cúpula – que, entretanto, foram impotentes para dobrar os principais países da região e acatar aquilo que os estadunidenses mais queriam, a certeza da volta da Alca.

Os negociadores dos EUA conseguiram reunir outros 26 países da região para apoiar seus desígnios, mas fracassaram em sua tentativa de impor sua agenda aos cinco principais países que resistem – Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, que formam o Mercosul, e a Venezuela.

Assim, a Alca é um tema que aparece em três pontos na Declaração de Mar del Plata, divulgada no final do encontro. Um parágrafo faz referência a “um grupo de países que está disposto a continuar negociando a Alca, tal como está agora”. Outro, registra a posição dos quatro países do Mercosul e da Venezuela, “que entendem que não há condições para continuar negociando a Alca nos termos em que está proposta”. O terceiro parágrafo inclui uma “oferta” do presidente colombiano, Álvaro Uribe, “de convocar uma reunião de negociadores para avaliar a situação geral da Alca, tirar conclusões e fazer recomendações aos governos”.

“Fomos cinco mosqueteiros, com os joelhos na terra, brigando no debate sobre essa integração”, comemorou o presidente Hugo Chávez, da Venezuela. E comentou: “George W. Bush foi derrotado. Vocês não viram a cara dele quando foi embora?”.

A declaração inclui a solidariedade ao Haiti, referências à importância da manutenção da governabilidade na Bolívia, e o destaque para a importância da geração de trabalho, que, segundo o vice-chanceler argentino, é a parte mais extensa e detalhada do documento final. Nela, ressalta-se, por exemplo, a importância do crescimento com igualdade social, a necessidade de apoio às pequenas e médias empresas e a geração de postos de trabalho como forma de combater a pobreza. Neste particular, o texto é conciliador e registra diferenças entre os governos dos países desenvolvidos defendendo maior flexibilização das leis trabalhistas, e o Mercosul, que sugere maior cautela e proteção ao trabalhador.

São contradições que levam, para a mesa das negociações, as inquietações manifestadas pelos protestos contra Bush em Mar Del Plata, em Buenos Aires e nas principais capitais e cidades brasileiras. Em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Manaus, Porto Alegre, Campo Grande, o povo ocupou as ruas para demonstrar seu repúdio contra George W. Bush e contra o imperialismo. A próxima reunião da Cúpula das Américas, em 2006, foi marcada para Trinidad e Tobago.

Até lá, as palavras de ordem Fora Bush!, Fora Alca! continuam na ordem do dia.

 

EDITORIAL

A rebelião da periferia francesa e os males do capitalismo

A morte de dois jovens de 15 e 17 anos ao fugir da polícia em Clichy-sous-Bois, na periferia de Paris, foi o estopim para a rebelião que incendiou as cidades francesas desde 27 de outubro. Sem comando aparente, ateando fogo a automóveis, estabelecimentos comerciais, escolas, meros coletores de lixo, e até uma delegacia de polícia, a rebeldia espalhou-se por quase 300 cidades francesas e repercutiu na Bélgica e Alemanha. Seus agentes: jovens, filhos de negros e de árabes imigrantes, lançados ao desemprego e à miséria, vítimas do “refinado” racismo francês.

Com seus paradoxos, o capitalismo contemporâneo, que concentrou a riqueza nas mãos das grandes potências e aumentou enormemente a miséria no restante do Globo, também fomentou o desemprego e a pobreza dentro do chamado “primeiro mundo”, fazendo aquilo que pode ser considerado como a “mundialização” da miséria.

Em alguns bairros da região metropolitana de Paris e de outras cidades, o desemprego atinge 40% dos jovens. Em 2004, o índice médio do desemprego nos subúrbios foi de 20,7%, o que representa o dobro do índice nacional.
O governo francês teve a reação típica dos conservadores e da direita: reforçou a repressão e decretou o estado de emergência com o qual, a pretexto de “restabelecer a ordem”, criou ameaças para a democracia e as liberdades. A oposição francesa, entre ela os comunistas, criticou a medida e exige investimentos nas escolas, nos programas sociais e programas que proporcionem empregos aos jovens.

Embora sem rumo, programa ou liderança, a rebelião dos jovens da periferia das cidades francesas é altamente significativa: ela expõe as entranhas de uma sociedade rica que oculta, longe do charme de seus centros luminosos, a miséria dos que sobrevivem nas fímbrias da sociedade, empurrados ao desemprego e à marginalidade. Sociedade cuja aparência reluzente esconde contradições profundas que ainda não encontraram sua maneira de expressão e, por isso, se mantém latentes, explodindo aqui e ali sob a forma de protestos cegos cujo exato significado é indicar o mal que acomete as sociedades capitalistas de nosso tempo, o de fundamentar os privilégios de uma minoria na miséria e no mal estar de multidões.
 

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