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Brasília
Vermelha -
As bandeiras da luta pela reforma agrária coloriram a Esplanada dos Ministérios, na capital federal, na tarde de 17 de maio, tomada pelos 12 mil participantes da Marcha Nacional pela
Reforma Agrária. |
O
ex-presidente Fernando Henrique Cardoso perdeu completamente a compostura e baixou o nível ao tentar requentar seus gastos argumentos contra o governo Lula. Numa reunião de seu partido, o PSDB, em São Paulo, no dia 22, disse que o governo parece um “peru bêbado”, numa demonstração de que o repertório do conservadorismo tucano parece estar se esgotando. Fernando Henrique já havia pregado o medo quando, há poucas semanas, comparou os presidentes Lula e João Goulart, acenando com a ameaça de uma “crise institucional”.
É um jogo bruto, sujo, cuja bandeira é a mentira e o ataque de falso moralismo para esconder seu objetivo real: acuar o governo para pavimentar o caminho de uma eventual volta conservadora em 2006. Esse jogo pesado esquece os escândalos do governo Fernando Henrique e cuja apuração sempre foi barrada por poderosas “operações abafa”, monitoradas quase sempre diretamente pelo Palácio do Planalto. Assim, a compra de votos para a reeleição, a privatização das telecomunicações (que teve gravação comprovada de irregularidades), a rumorosa venda da Vale do Rio do Doce por 3 bilhões de reais (embora tenha sido avaliada em 40 bilhões de reais), são apenas alguns espectros pendentes daquele governo marcado pela subserviência ao estrangeiro e pelo descaso com o país, seu povo e sua economia. Mesmo hoje há governos estaduais do PSDB marcados pelo escândalo. Em Rondônia, o governador tucano Ivo Cassol está no centro de um escabroso caso de corrupção e às voltas com uma verdadeira rebelião popular. Mesmo uma estrela tucana de primeira grandeza como o governador Geraldo Alckmin, de São Paulo, enfrenta problemas e acumula na Assembléia estadual, diz o deputado comunista Jamil Murad, nada menos do que 40 pedidos de CPI e aciona sua base para não permitir a instalação de nenhuma. O
jogo da oposição, além disso, pode não ser tão nobre quanto parece, e esconder a realidade – que deveria ser prosaica – de que o governo vai completando a ocupação de todos os postos chaves da administração, como revela a revista Carta Capital em artigo recente. São 25 mil cargos; o governo já substituiu os ocupantes de uns 21 mil, transferidos para técnicos e políticos do PT e dos partidos aliados do governo – mudança que pode estar na raiz da chiadeira de políticos oligárquicos e conservadores que sempre medraram à sombra do poder. A questão de fundo, diz o presidente nacional do PCdoB, Renato Rabelo, comentando o afã oposicionista para constituir a CPI dos Correios, é que “esta é uma CPI para a oposição fazer uso político contra o governo. É sobre isso que não se pode ter nenhuma ingenuidade”. É um arremedo das campanhas conservadoras, moralistas e demolidoras, do passado. Com o apoio de setores da esquerda que, como lembra o ministro Aldo Rebelo, nestes momentos funcionam como linha auxiliar da direita. Fernando Henrique Cardoso parece uma reedição empobrecida do tribuno direitista Carlos Lacerda, ele também um trânsfuga que abandonou a luta popular e progressista, mudou-se para o campo conservador e instigou golpes contra Getúlio Vargas (foi um dos principais responsáveis pela sórdida campanha que o levou ao suicídio em 1954), Juscelino Kubitschek e João Goulart. Apesar de todo o barulho da oposição conservadora – da qual Fernando Henrique é um dos principais ventríloquos –, seu sucesso parece pequeno e a aprovação popular de Lula permanece. É preciso firmeza e coragem para enfrentar e desmascarar esta ofensiva do conservadorismo e também investigar e punir os responsáveis por eventuais delitos. E, superada a crise, o governo Lula, apoiado e constituído por forças políticas amplas, precisa avançar na realização da plataforma democrática, popular e nacional que o elegeu.
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A
marcha até Brasília de 12 mil trabalhadores rurais sem terra para cobrar o cumprimento das metas de reforma agrária sinaliza a importância da mobilização popular para o avanço das mudanças sociais e econômicas no Brasil. Foi assim que Renato Rabelo, presidente do Partido Comunista do Brasil, saudou naquele evento os marchantes que, durante 17 dias, percorreram ao trajeto entre Goiânia e Brasília, para levar ao governo sua plataforma de reivindicações.
E o protesto daqueles trabalhadores contra os EUA e o presidente George Bush, contra a Alca e contra a política econômica ortodoxa praticada pelo governo, indica a consciência de que um dos ingredientes principais da busca de um novo modelo de desenvolvimento é a democratização da posse da terra no Brasil. É isso que o “brado forte” dos trabalhadores e de suas lideranças apontou na tarde do dia 17 nas avenidas e salões de Brasília: a reforma agrária faz parte de um novo projeto nacional de desenvolvimento.
Há uma mudança sensível que distingue este governo dos anteriores, principalmente o período de Fernando Henrique Cardoso, no tratamento dos movimentos sociais como o MST. O Presidente Lula não só recebeu as lideranças da marcha, mas também reconheceu que tem feito pouco para realizar a reforma agrária, e assumiu o compromisso de fazer mais.
O presidente parece sensível à pressão pelas mudanças, que é a expressão mais adequada para definir esse processo de luta que envolve, de um lado, o apoio ao programa sinalizado pelo presidente nas campanhas eleitorais de 1989, 1994, 1998 e na que o elegeu, em 2002. E, de outro lado, a pressão pela superação de todos os resquícios de neoliberalismo e ortodoxia, para destravar o desenvolvimento e permitir que o país e seu povo alcancem o nível de bem estar desejado por todos. Fortalecer Lula para que ele faça a reforma agrária – este foi o espírito que animou aquela marcha, completado pela disposição de cobrar as promessas que alimentaram a esperança.
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