|
Este ano de 2005 marcou os vinte anos do fim da ditadura militar. A Guerrilha do Araguaia contribuiu para que a democracia voltasse a reger a vida do país. Por isto, neste mês de abril, quando se completam 33 anos dessa jornada heróica, por todo país realizam-se comemorações em homenagem ao seu legado e à memória dos guerrilheiros. O Araguaia foi a resistência armada à truculência do regime ditatorial de maior duração. Durante quase 3 anos, menos de uma centena de guerrilheiros, com o apoio da população local, enfrentaram e resistiram a milhares de efetivos das Forças Armadas. Essa resistência enfraqueceu a ditadura e fortaleceu o ânimo da oposição democrática. Desencadeado a 12 de abril de 1972, na fase mais feroz da Ditadura Militar, esse movimento popular armado resistiu, heroicamente, por quase três anos as investidas de um contingente de mais de 12 mil homens das Forças Armadas. Quando a resistência organizada se encerrou, em meados de 74, e, definitivamente, o conflito se findou, em janeiro de 75, se verificou que não havia nenhum prisioneiro. Os guerrilheiros que caíram nas garras dos efetivos das Forças Armadas, quase todos, foram covardemente executados. Dos que tombaram em combate, vários foram decapitados. Os corpos foram mutilados e lançados em lugares inóspitos e desconhecidos. Essa selvageria foi, também, perpetrada contra a população da região do Araguaia. Ela foi vítima de violências, prisões arbitrárias e torturas. Com essas ações bárbaras, os militares visavam conter o apoio popular à guerrilha. A Guerrilha do Araguaia é um tema que persiste. A censura que lhe foi imposta durante tanto tempo, o confinamento, a destruição dos arquivos oficiais, represaram as análises, o interesse e as polêmicas que ela suscita. Mas o tema permanece de certa forma inconcluso, também, porque a consciência humanística e os valores religiosos do povo brasileiro não aceitam o fato de que se negue até os dias de hoje o direito humanitário dos familiares dos guerrilheiros e do Partido a que pertenciam, o PCdoB, de enterrar em túmulo honroso os restos mortais dos combatentes. Em dezembro do ano passado, o Tribunal Regional Federal da 1a Região, decidiu quebrar o sigilo dos documentos do Araguaia. O governo Lula, acertadamente, não recorreu da sentença nas instâncias superiores. O que se espera, agora, dele, como um governo democrático, é que agilize, sem demora, as providências que são de sua responsabilidade para que apareçam mais esclarecimentos sobre o conflito, entre eles, o paradeiro dos restos mortais dos guerrilheiros. A abertura imediata dos arquivos da época da Ditadura Militar, entre eles os documentos referentes ao Araguaia, é uma exigência das forças democráticas do país. Esta providência, longe de debilitar a democracia brasileira, contribuiria, isto sim, para amadurecê-la. A nação e as instituições que a representam, ao tomarem conhecimento dos atos bárbaros praticados, certamente adotarão providências para que condutas e ações hediondas, à margem dos princípios da civilidade, dos direitos humanos, jamais voltem a ser praticadas em nome de instituições que formam o Estado brasileiro. Trinta e três anos depois, a Guerrilha do Araguaia, mesmo derrotada militarmente, continua a vicejar. Os guerrilheiros são celebrados pelo povo e amados pela juventude. As sementes que eles plantaram, de convicção ao grande ideal socialista, de amor ao Brasil e à causa democrática e patriótica, germinam sem cessar.
|