
A Classe Operário,
em 1928 e hoje, está presente nas mobilizações do 1º de maio
O
debate sobre o aumento real do salário mínimo ocorre num momento em que se acentua a exigência de mudança na economia e em que se assiste à divulgação de estudos sobre a profundidade do prejuízo da década neoliberal para os trabalhadores e o povo brasileiro. Estudos como o volume três do Atlas da Exclusão Social - Os ricos no Brasil, coordenado por Márcio Pochmann, e o Mapa do Fim da Fome II, da FGV, descrevem o tamanho da tarefa que o governo tem pela frente para atender ao desafio de retomar o crescimento e impulsionar o desenvolvimento com distribuição de renda.
Mostram, por exemplo, que o aumento do número de famílias ricas nos últimos vinte anos foi a contrapartida do aumento da pobreza. Em 1980, existiam 507 mil famílias ricas (com renda mensal média de 22 487,00 reais em valores atuais), ou 1,8% do total. Em 2000, eram 1,1 milhão de famílias, ou 2,4% do total. Em 1980, a renda média das famílias mais ricas era 10 vezes maior do que a das mais pobres. Em 2000, a renda dos mais ricos era 14 vezes maior, e eles tinham um terço da renda nacional e patrimônio correspondente a 75,4% do Produto Interno Bruto (PIB). A situação fica ainda mais grave quando se trata das 5.000 famílias mais ricas (apenas 0,001% do total), com 3% da renda e patrimônio de 45% do PIB. Em contrapartida, entre 1992 e 2002, auge do predomínio neoliberal, a renda do trabalhador caiu de 45% do PIB para 36%, levando a uma situação em que um terço dos brasileiros tem renda mensal inferior a 79 reais.
Neste quadro, a discussão de cada real de aumento sobre o mínimo é significativa: calcula-se que, para tirar aqueles 33% de brasileiros da miséria, bastaria uma contribuição mensal de 14 reais dos brasileiros afortunados que estão acima da linha de pobreza. Isso dá um total de 2 bilhões reais por mês.
O presidente Lula demonstra sensibilidade a essa situação. “Vivi metade da minha vida com um mínimo”, disse. Por isso, garantiu, quer “dar o maior aumento possível”, com a ressalva: “mas com responsabilidade nas contas públicas”.
A proposta da Confederação Nacional das Indústrias para a retomada do crescimento mostra que, ao contrário, os industriais brasileiros não têm sensibilidade semelhante. No documento entregue ao presidente, eles querem menor carga fiscal (menos impostos), juros baixos e dinheiro barato para investimento, numa visão míope que enxerga apenas os problemas da indústria sem considerar a necessidade de valorização do trabalho, do aumento da renda e fortalecimento do mercado interno na retomada do desenvolvimento. Sem sequer mencionar que, para haver desenvolvimento, será preciso tirar da miséria esse enorme contingente de brasileiros. Sem levar em conta a calamidade que é, no Brasil, a exploração do trabalho.
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