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Depois de um braço de ferro prolongado, o governo do presidente Nestor Kirchner, da Argentina, e o Fundo Monetário Internacional finalmente chegaram, no dia 9, a um acordo sobre o pagamento da dívida externa e a renovação do acordo do país com aquela instituição financeira. Em sua superfície, a disputa envolvia o pagamento de parcela de 3,1 milhões de dólares da dívida do país com o Fundo, que venceu naquele dia, e que o governo argentino concordou em pagar. Envolvia também, ainda na superfície aparente do problema, o destino da terceira maior dívida que uma nação tem com o FMI, o destino do próprio Fundo que, com o não pagamento, ficaria, ele próprio, em situação difícil. Mas pode haver mais que isso. Na véspera do acordo, as previsões eram de que a Argentina não pagaria aquela parcela. Com o apoio de 55% da opinião pública, Kirchner dizia que seu governo não comprometeria as reservas internacionais do país “sem uma garantia de que o FMI cumprirá sua parte. Estamos cumprindo a nossa parte porque todas as metas foram atingidas mas querem nos pressionar para atender interesses de outros credores”. No dia anterior, ele já havia declarado que “está tudo dito”, indicando a pouca disposição de seu país submeter-se às pressões do Fundo. A Argentina está praticamente inadimplente desde a crise que depôs o governo De La Rua, em dezembro de 2001. Até então, ela havia sido o país latino-americano mais fiel ao receituário neoliberal. Com a eleição de Nestor Kirchner, o país começou a criar as condições para sua própria transição para um novo rumo de desenvolvimento. E, nas condições argentinas – de uma crise econômica e social profunda, que deixou mais de 50% da população abaixo da linha de pobreza – a resposta foi dura para os credores internacionais: só aceitava pagar 25% da dívida externa com credores privados, aqueles que se locupletaram no período da farra neoliberal. São quase 90 bilhões de dólares, sem considerar os juros vencidos desde 2001 e que os credores querem cobrar.
O FMI pressiona para que o governo faça uma proposta que os credores considerem mais aceitável, e também quer a criação de um comitê de bancos para negociar com o governo Kirchner. Ao final, a Argentina acabou concordando com isso, e com um superávit primário de 3% do PIB (no acordo com o Brasil, é de 4,25%). Em contrapartida, o FMI desistiu de exigir que o comitê de bancos comandasse a reestruturação da dívida
argentina. Abaixo da superfície, vários fatores estiveram envolvidos. Um deles é o “mau exemplo” que o não pagamento da parcela vencida poderia ser para os demais países da região. Outro são os interesses eleitorais do presidente Bush que, segundo analistas, teria pressionado o Fundo para chegar a um acordo para evitar mais tensão na região no ano em que disputa a permanência no cargo. Os argentinos negociaram soberanamente sua dívida, e há um mérito nisso. Tiveram que ceder, pois a correlação de forças ainda favorece o grande capital. Mas marcaram pontos. Demonstraram firmeza frente às bravatas do Fundo e dos analistas ligados à banca internacional e conseguiram, tudo indica, condições melhores do que os credores pretendiam oferecer. Vão, assim, buscando seu próprio rumo pelo crescimento econômico e de mais empregos para os argentinos. |