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Dá um caminho para o inferno e outro para o paraíso, dizem os religiosos, que os registram visualmente numa gravura que mostra uma alameda plana, bonita, larga e alegre, que vai direto para a morada do demônio, enquanto a trilha que vai para o céu é estreita, íngreme, triste e difícil. O governo Lula encontra-se numa situação que pode ser considerada semelhante, preso aos compromissos de mudança e de retomada do crescimento, por um lado, mas atado igualmente a outros compromissos, pesados e concretos, que decorrem da imposição do cumprimento dos contratos que o leva a repetir o conservadorismo da política econômica do governo anterior. O próprio presidente, em manifestações públicas recentes, mostra-se preocupado entre estes dois caminhos. De um lado, reafirma os compromissos com a retomada do desenvolvimento, como fez na inauguração da TV CUT, no dia 7 de fevereiro, onde garantiu que o emprego continua sendo a prioridade do governo, que será garantido pelo crescimento econômico e pela distribuição de renda. No dia anterior, em um encontro com o presidente mundial da General Motors, Richard Wagoner, ocorrido no Palácio do Planalto, o presidente brasileiro disse que não haverá plano Lula nem plano Palocci, e que o governo não fará “nenhuma aventura descabida”. Isso tudo num cenário em que a dívida pública continua crescendo mais do que a produção de riquezas, levando o governo a pagar 145,2 bilhões de reais (9,49% do PIB) em juros da dívida no ano passado, correspondente a uma dívida líquida total do setor público de 913,1 bilhões de reais. Em relação ao PIB, os juros pagos superam – em muito – o superávit primário acertado com o FMI, cujo cumprimento leva a sucessivos cortes no orçamento da União, o bloqueio de 6 bilhões de reais anunciado pelo governo no começo de fevereiro. Nesse cenário, mesmo um crescimento de 3,7% no PIB, como Henrique Meirelles, do Banco Central, previu para 2004, será pífio, e o ganho que ele representa será comido não só pelo compromisso do superávit primário, mas principalmente pelos juros que o governo deverá pagar no ano. O país vai bem, mas o povo vai mal – esta constatação feita no passado por governantes como o imperador D. Pedro II ou o ditador general Emílio Garrastazu Médici, não serve mais para a situação atual. O correto, hoje, é dizer que o “mercado” vai bem, mas o país (e o povo) vão mal. Para alterar essa equação perversa, o governo precisa encontrar o caminho para um modelo econômico baseado no desenvolvimento nacional e na valorização do trabalho, com justiça e progresso social, pelo qual clamam as forças democráticas e progressistas e os empresários voltados para a produção e não para a especulação. A opção entre aqueles dois caminhos não é simples, mas precisa ser feita de forma clara e afirmativa. Afinal, o governo precisa demonstrar que sabe, entre aquelas imagens, qual é o caminho do paraíso e o da condenação eterna. E, reconhecendo-o, escolher o rumo certo, mesmo que seja íngreme e difícil, mesmo que desagrade a forças poderosas que tentam demovê-lo de encontrar o rumo da mudança. |