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CÚPULA DAS AMÉRICAS
Falando Grosso com os EUA
Na reunião de Monterrey, Bush encontra uma América Latina que se volta para a esquerda |
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A
Cúpula Extraordinária das Américas, realizada
em Monterrey, México, em 12 e 13 de janeiro, expôs – mais uma vez
– a resistência ao imperialismo norte-americano, que cresce na
América Latina. Ali estavam reunidos os chefes de Estado de 34 dos
36 países da região (apenas Guatemala e El Salvador não
compareceram).
A reunião, convocada extraordinariamente pelo governo canadense
devido justamente ao dissenso crescente entre os latino-americanos
e os EUA, ocorreu sob a constatação, pela imprensa e institutos de
pesquisa dos EUA, das dificuldades que o governo Bush encontra
para impor sua pauta. Segundo o jornal Los Angeles Times, na
Cúpula das Américas o presidente norte-americano se defrontaria
com “uma liderança continental que deu uma guinada à esquerda e
começou a falar grosso com os EUA, enquanto os povos da região
perdem a fé no livre comércio”. Uma situação refletida por
pesquisas de opinião recentes, segundo as quais 87% dos formadores
de opinião latino-americanos tem avaliação negativa sobre Bush,
enquanto entre o povo da região a aprovação aos EUA caiu de 67%
para 53%.
A tradução concreta destes dados marchou pelas ruas de Monterrey,
em manifestações contra a Alca e contra o imperialismo
norte-americano. Mais de 70 organizações da sociedade civil
organizaram atos de protesto e um Encontro Extraordinário das
Américas paralelo, para apoiar ações de governo pelo
desenvolvimento com igualdade. E teve uma expressão diplomática
nos salões onde as reuniões ocorreram, protegidos pela cerca
erguida pelos organizadores e pela polícia que ocupou as ruas da
cidade.
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A resistência ao imperialismo tomou
as ruas de Monterrey |
A oposição entre Brasil e EUA foi a marca do encontro. Em seu
discurso, Bush expôs sua pauta: falou de terrorismo,
instabilidade política e social na Bolívia e na Venezuela, a
expulsão da OEA de países com governos corruptos e fez uma
violenta diatribe contra Cuba. Mas o essencial era reafirmar
janeiro de 2005 como data final para o acordo da Alca. O Brasil,
por sua vez, era contra qualquer menção à Alca, e Lula insistiu,
em seu discurso, em idéias que são verdadeiras heresias para os
adoradores neoliberais da livre ação do mercado. “Chegou a
hora”, disse Lula, “de resgatar e afirmar de uma vez por todas a
primazia do interesse coletivo e da coisa pública nas Américas.
Cabe ao Estado traçar políticas para reduzir o fosso entre a
opulência e a miséria”, disse. E, em encontro privado com Bush,
Lula tocou em um ponto hoje sensível na relação entre as duas
potências regionais: a questão do tratamento dos turistas que
visitam os dois países. Em reciprocidade ao tratamento dado aos
brasileiros que visitam os EUA, o governo brasileiro adotou o
fichamento dos norte-americanos que desembarcam no Brasil. Para
resolver o problema, Lula propôs a Bush a eliminação de
exigência do visto para viagens entre os dois países.
A declaração final da reunião, divulgada no dia 13, resultou
de intensas negociações, e assinala um meio caminho entre as
pretensões norte-americanas e as reivindicações dos países da
região, representadas pela proposta brasileira. O essencial,
para os EUA, era reafirmar, na declaração de Nuevo León (estado
mexicano cuja capital é Monterrey), a data de janeiro de 2005
como data final para a conclusão das negociações sobre a Alca.
Conseguiram apenas emplacar uma citação, sem registro de prazo,
sobre a Alca.
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Não há mudança sem luta |
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O
governo de Luiz
Inácio Lula da Silva, das forças populares e progressistas do
Brasil, começa seu segundo ano sob a exigência reforçada de
colocar o país num novo rumo de desenvolvimento. E se, de um
lado, há a impaciência de alguns setores que querem uma mudança
abrupta; de outro há aqueles que, animados por uma certa melhora
de perspectiva derivada de uma política econômica ainda
ortodoxa, tendem a acomodar-se a ela.
Tanto a pressa voluntarista quanto a acomodação conservadora
são caminhos que não correspondem à necessidade de mudanças nem
refletem a situação real do país, nem do governo, que tem sido
um governo democrático marcado pela disputa entre os setores
mudancistas e os defensores da continuidade.
Mudança, compromisso maior da campanha eleitoral de 2002,
significa troca de modelo de desenvolvimento, significa deixar
para trás os dogmas neoliberais e seu cortejo de prejuízos para
os trabalhadores e benesses para os privilegiados e aviltamento
da soberania nacional. E que precisa ser superado por um rumo de
desenvolvimento que contemple as necessidades do país e seu
povo, com valorização do trabalho e com justiça social.
Não há mudança sem luta, é preciso enfatizar. A formulação e
adoção de um modelo soberano de desenvolvimento não é apenas uma
questão técnica ou administrativa. Ela é essencialmente
política, e exige a alteração da correlação de forças no quadro
político brasileiro. Desde o Congresso, com a consolidação de
uma ampla coalizão parlamentar, até o fortalecimento do
movimento popular. Em 2003, com a criação da Coordenação dos
Movimentos Sociais, ele já começou a desempenhar esse papel.
Mas, em 2004, é preciso um avanço maior na mobilização das
massas para impulsionar as mudanças.
As massas percorrem seus próprios caminhos, aprendendo com a
experiência vivida até chegar à consciência da importância de
seu protagonismo. Os comunistas têm consciência de seu papel e
se empenharão, juntamente com as demais forças democráticas,
avançadas e progressistas, nessa mobilização. |
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