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Vermelho.org.br - A Classe Operaria

Edição nº 233

outubro/2003

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CAPA

EDITORIAL
Moradia já!
O consenso de Buenos Aires
 

NACIONAL

Sob ataque cerrado
"Agnelo merece confiança"
Ministério do Esporte esclarece procedimento na participação no PAN
O Brasil quer arrumar a casa
Alice Portugal contra o "sigilo eterno"
Trincheira da nacionalidade
Seminário sobre organização sindical e conflito trabalhista
Audiência pública na Bahia
 

PCdoB

Mais de 2.300 filiações e 8 vereadores no Rio de Janeiro
Crescimento vigoroso
Comitês Estaduais: consolidação, coesão, renovação
Elza Monnerat, veterana comunista, completa 90 anos
Diretrizes do 5º Plano de Estruturação Partidária
Partido que cresce precisa se planejar
Repercussões da propaganda na televisão
Agenda nacional do PCdoB
Cartas
 

FORUM SOCIAL BRASILEIRO

"O Brasil te espera em Belo Horizonte!"
IMG e Fundação Perseu Abramo realizam debate sobre o futuro do Brasil
Acampamento da juventude
Barracão do B
Planeta fêmea
A agenda do Fórum Social Brasileiro
Seminário sobre organização sindical e conflito trabalhista
Audiência pública na Bahia
 

INTERNACIONAL

Vitória do povo, derrota do imperialismo
Guerra sem fim
Brasil e Ucrânia unidos na exploração espacial
Satélite sino-braileiro já está em órbita
Marco significativo da colaboração com a China
 

ESPECIAL

Caminho dos que pesquisam a verdade

 

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EDITORIAL

Moradia já!
A falta de moradias foi o principal tema da Conferência das Cidades.
E Lula se compromete com este desafio

 

Favelas e ocupações desordenadas, retrato da falta de moradia  no país

Lula fez um discurso emocionado na abertura da Conferência das Cidades, em Brasília, no dia 23 – ilustrou o grave problema da falta de moradias para os brasileiros lembrando que, quando morou em São Caetano do Sul, no ABC paulista, enfrentava os mesmos problemas que a imensa maioria dos brasileiros pobres enfrenta por morar em residências precárias. Um dia, ao chegar do trabalho, disse, não tinha mais casa: uma parede tinha desabado durante uma enchente.

Lula fez esse discurso emocionado para enfatizar sua intimidade com o problema central debatido na Conferência das Cidades: a falta de moradias dignas para os brasileiros. Principalmente para os brasileiros pobres, que ganham até o máximo de três salários mínimos e que, por isso, ficam à margem do mercado, sem chance de obter financiamento. Ou, quando obtém, muitas vezes são incapazes de pagá-lo. Essa é a situação que leva aos 400 mil inadimplentes do sistema financeiro da habitação, lembra o dirigente comunista Vital Nolasco, membro da Comissão Política Nacional do Partido Comunista do Brasil, e que acompanhou de perto a organização da Conferência.

Este é um problema cuja solução exige a presença ativa do Estado, diz Vital, acentuando que a situação atual decorre da opção neoliberal pelo Estado mínimo que deixou a solução do problema habitacional para o mercado. “O mercado não resolve para as pessoas de baixa renda, e só atende quem ganha mais de 15 mínimos”, diz o dirigente comunista. Essa foi a grande discussão da Conferência, que aprovou também moções pela não renovação do acordo entre o Brasil e o FMI e contra a Alca, encaminhadas ao governo federal.

A lembrança das agruras da juventude de Lula não vieram por acaso em seu discurso. O presidente quis reafirmar, com elas, seu compromisso com a solução desta chaga social. E, dirigindo-se ao presidente da Câmara dos Deputados, também presente, o deputado João Paulo, do PT/SP, Lula cobrou a colocação em votação do projeto de iniciativa popular criando o Fundo Nacional da Moradia Popular, apresentado à Câmara dos Deputados há mais de 10 anos, e ainda nem debatido. Fui um dos que assinaram aquele projeto, disse Lula. E, ironizou: como não quero esquecer o que escrevi, quero que esse projeto seja aprovado.

O consenso de Buenos Aires

O consenso de Washington faz água há algum tempo, condenado pelas catástrofes sociais que sua aplicação gerou em todos os países que adotaram seu receituário. E a alternativa contra ele – e o projeto neoliberal, do qual é a principal expressão – começa a tomar corpo de forma consistente. Esta é a primeira conclusão que se pode extrair da decisão dos presidentes Nestor Kirchner, da Argentina, e Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, de divulgar o “Consenso de Buenos Aires”, no dia 16, na capital Argentina.

Ao selar a aliança estratégica entre os dois grandes países do chamado Cone Sul, este documento aponta também para a consolidação da resistência à Alca, na forma como os norte-americanos tentam impô-la aos latino-americanos. 

O Consenso de Buenos Aires define linhas de atuação que se contrapõe, claramente, aos dogmas consignados por John Williamson no documento elaborado em 1989 sob influência do governo dos EUA e de agências multilaterais, como o FMI e o Banco Mundial e que preconizava entre outras coisas o desmonte dos estados nacionais, as privatizações e a desregulamentação, naquilo que ficou conhecido como Consenso de Washington e que registrou a vitória das teses liberais do estado mínimo e da liberdade para o capital.

Os neoliberais apresentam suas teses como paradigma da modernidade. Mas o conflito entre esta concepção limitada e privatista da liberdade e a defesa da intervenção do Estado para promover desenvolvimento, é um conflito antigo. O filósofo alemão Georg Hegel já enfrentava, no começo do século XIX, os antepassados dos neoliberais que, na época, defendiam o Estado mínimo, forte apenas para defender os direitos sagrados dos proprietários e a intocabilidade da propriedade privada. Contra eles, Hegel dizia que o Estado só se transforma em uma “comunidade ética” quando, além da propriedade, garante o bem estar de todos, o direito ao trabalho e o direito à vida.

Este foi o lado ao qual se alinharam os presidentes Kirchner e Lula ao definir os 22 pontos do Consenso de Buenos Aires. Ali estão registradas as exigências de integração econômica e física entre os dois países e os demais da América do Sul; a crítica à política externa de Bush (da questão ambiental à escalada guerreira); o combate ao protecionismo dos países ricos; a exigência de uma Alca equitativa e equilibrada; a defesa da entrada de Cuba num Mercosul fortalecido; o compromisso de pagar a dívida externa sem o sacrifício de nossas populações e de forma compatível com o desenvolvimento de nossos países. 

Além dessas demandas, o Consenso de Buenos Aires tem, em sua base, a concepção de um Estado nacional ativo, cujo papel estratégico para a promoção do desenvolvimento, que seja capaz de combater a fome e a pobreza pelo crescimento econômico e pela criação de empregos.

É um sinal importante, dado justamente no momento em que a pressão norte-americana e de seus aliados pela manutenção do modelo neoliberal atinge um ponto crítico. E que aponta justamente no rumo oposto ao dessas pressões – o rumo da busca de um novo modelo de desenvolvimento para nossos países. E que, aparentemente, busca repor em seu lugar aquilo que foi enfraquecido pelo Consenso oposto, o de Washington, o do imperialismo: o papel do Estado, visto aqui como instrumento estratégico para alcançar os objetivos nacionais.

VERMELHO.ORG.BR