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Bahia rebelde: o levante
da meia passagem |
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Estudantes de Salvador param a cidade em protesto contra o reajuste da tarifa de ônibus
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Salvador foi tomada por milhares de jovens desde 1° setembro, em protesto contra o aumento das passagens do transporte coletivo, decretado pelo prefeito do PFL, Antonio Imbassay, afiliado de Antonio Carlos Magalhães. O preço subiu de R$ 1,30 para R$ 1,50. Foi a senha: o movimento pipocou por toda a cidade, dirigido por entidades estudantis e juvenis como a UJS (União da Juventude Socialista), UNE, Ubes, grêmios e diretórios centrais de estudantes. Grupos de jovens formavam verdadeiras legiões, principalmente de secundaristas, a maioria deles vindos da periferia pobre de Salvador, num protesto pacífico: eles sentavam-se ou deitavam na via pública, impedindo a circulação dos ônibus, causando engarrafamentos gigantes que paralisaram a cidade e obrigaram a prefeitura abrir negociações já na terça-feira, dia 2. Nesse dia, atropelado por um ônibus que tentava furar o bloqueio, o estudante Marcos Chaves de Jesus, de 13 anos, não resistiu aos ferimentos e morreu. Até então, tropas de elite e de choque da PM baiana estavam sendo usadas para reprimir os protestos, em vão – os grupos de estudantes dissolvidos em uma avenida rapidamente se reorganizavam em outra. Na quarta-feira, a Câmara Municipal atendeu algumas reivindicações antigas do movimento estudantil, como a validade da meia-passagem todos os dias da semana, inclusive sábados, domingos e feriados e também no período de férias. Foi criada também uma comissão para estudar a inclusão de milhares de estudantes que estavam fora do sistema de meia passagem, como alunos de cursos supletivos, entre outros. Os estudantes, entretanto, insistem no cancelamento do aumento e na volta da tarifa de R$ 1,30, e convocaram uma megamanifestação para o dia 10, no centro de Salvador. O movimento continua até que todas as reivindicações sejam atendidas, diz Augusto Vasconcelos, diretor da UJS. Na segunda feria, dia 8, a prefeitura criou outra comissão para estudar a redução da tarifa, formada por vereadores, técnicos, empresários e com a presença de três representantes dos estudantes (dois filiados ao PCdoB e um ao PT). A juventude de Salvador repete o pioneirismo baiano nas lutas sociais, já reiterado em 1981 em protesto semelhante contra o aumento no transporte coletivo, organizado pelo Movimento Contra a Carestia (MCC). Mais de 20 anos depois os jovens voltam às ruas e, com o apoio da população, puseram a cidade de pernas para o ar. Sua ação mostra uma retomada da luta social nas cidades. Como reconhece d. Geraldo Majella Agnelo, presidente da CNBB e arcebispo de Salvador, “a miséria é muito grande, os movimentos sociais formam uma panela de pressão prestes a explodir. Os conflitos sociais apenas demonstram que a sociedade quer mudar e necessita de mudanças”.
(colaboraram
Hilda Furtado e Eduardo Udo). |
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O barato sai caro |
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Às vésperas da festa da Independência, no dia 6 de setembro, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, deu uma declaração que pode ser comemorada pelos partidários da retomada do desenvolvimento, e outra cuja interpretação pode ser preocupante para estes mesmos setores. A primeira diz que o Brasil está “muito perto” de não precisar mais acordos com o FMI; a outra, que isto poderá ocorrer “ainda neste governo”. Isto é, o ministro admite que o país vai livrar-se do monitoramento daquela autoridade econômica estrangeira, mas dá a entender que isso vai ocorrer no futuro. Para ele, a decisão sobre a renovação do acordo – que ocorrerá em outubro – será “técnica” e não política. E, se houver novo acordo, a pauta “não será a mesma do acordo do ano passado”, disse, ressaltando que a pauta brasileira é voltada para o crescimento. Há quem defenda esses acordos dizendo que é dinheiro barato, com juros baixos. Mas esquecem o alto preço das exigências do FMI, que estrangulam a economia do país. Somente superando esse obstáculo é que o governo Lula poderá cumprir a agenda mudancista que o elegeu e que anima o apoio popular ao governo e ao presidente. As metas grandiosas do Plano Plurianual (o PPA) anunciado em agosto dependem do fim daquelas amarras. Ele prevê investimentos de 1,857 trilhões de reais até 2007; só em 2004 serão 296,79 bilhões, vindos do orçamento federal (18,43 bilhões), das empresas estatais (135,17 bilhões), do setor privado e parcerias (39,28 bilhões), e de fundos públicos, bancos públicos, estados e municípios (103,91 bilhões). Isto é, 256,31 bilhões (86% do total) dos investimentos previstos para 2004 são recursos públicos cuja aplicação é proibida pelos acordos com o Fundo. Esse é um debate que se aprofunda. No campo popular, há quem admita a renovação do acordo com o FMI sob novas bases. Entre eles, o presidente da Central Única dos Trabalhadores, Luiz Marinho, ou João Pedro Stédile, do MST. O Brasil pode impor um outro tipo de acordo, que “tenha a ótica do desenvolvimento”, disse Marinho. “O fundo
existe, o Brasil precisa de créditos externos, mas somos soberanos e precisamos ter essa postura soberana”, disse Stédile. Economistas como Celso Furtado e Maria Conceição Tavares, por sua vez, são céticos. A política do FMI pode levar o país à moratória, diz Furtado, e o Brasil precisa preparar-se para ela. Precisa também, para crescer, reforçar suas reservas e controlar o fluxo de capitais de curto prazo. Maria Conceição Tavares concorda. “O Fernando Henrique”, diz, “quebrou o Estado brasileiro, endividou o país até as orelhas e pediu US$ 40 bilhões [ao Fundo]. Você acha que, na hora de renovar o acordo, a gente vai convencê-los a dar US$ 40 bi fazendo o que a gente quiser? Tenho as minhas sérias dúvidas de que qualquer país latino-americano consiga mudar as regras do FMI”. Renato Rabelo, presidente nacional do PCdoB, por sua vez, diz que os investimentos precisam ser destravados, “e as condições impostas pelo FMI são, hoje, os entraves mais importantes a serem removidos”. De fato, como o presidente Lula sempre diz, pode-se negociar tudo. Mas é preciso estar atento à sabedoria popular, para quem o barato sai caro. No caso dos acordos com o FMI, o preço desse dinheiro barato é a entrega das rédeas do desenvolvimento do país e a renúncia à soberania sobre a economia, repetindo o governo anterior. |
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