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10 de fevereiro de 2013 - 7h00
         

 Siria: a história dos esquadrões da morte dos EUA


 As forças governamentais sírias estão hoje a confrontar-se com o autoproclamado “Exército Livre da Síria” (FSA). É uma nova etapa da longa história da criação de grupos de ação destinados ao desempenho das tarefas mais sanguinárias e criminosas, nas quais o imperialismo aparentemente não suja as mãos e por cujos crimes julga que não prestará contas. 

Por Michel Chossudovsky


O recrutamento de esquadrões da morte, faz parte de uma agenda da inteligência militar bem estabelecida nos Estados Unidos. Existe uma longa história de formação e apoio, dissimulado, a brigadas de terror e a assassínios de alvos políticos, que vem do tempo da guerra do Vietnã.

As forças governamentais sírias estão hoje a confrontar-se com o autoproclamado “Exército Livre da Síria” (FSA). No contexto atual isso exige focar as raízes históricas da guerra,  já encoberta, do ocidente contra a Síria, guerra essa que já resultou em inúmeras atrocidades. As raízes históricas da situação serão então aqui analisadas e apresentadas.

Desde o início, em março de 2011, os Estados Unidos e seus aliados têm apoiado a formação de esquadrões da morte, bem como a invasão do território da Síria por brigadas terroristas. Trata-se de um trabalho organizativo, cuidadosamente planeado.

O recrutamento e o treino de brigadas terroristas, tanto no Iraque como na Síria, foram elaborados segundo o modelo da denominada “Salvador Option”, aqui traduzida como “A Opção de El-Salvador”. É um modelo terrorista para mortes e assassínios em massa, levados a cabo por um governo estabelecido. Em El-Salvador, na América Central, o cenário configurado segundo o modelo “Salvador Option” foi implementado pelos esquadrões da morte patrocinados pelos Estados Unidos.

Esse modelo de recrutamento e treino de brigadas terroristas, por governos constituídos, foi implementado no próprio El Salvados no apogeu da resistência contra a ditadura militar no país. O resultado final foi avaliado em cerca de 75.000 mortes.

Os esquadrões da morte na Síria de hoje fazem parte desse contexto. Tendo começado em El Salvador, o modelo foi desenvolvido no Iraque. Os esquadrões da morte agora na Síria foram construídos sobre a base da história e da experiência das brigadas terroristas no Iraque. Brigadas terroristas essas patrocinadas, como foi dito, pelos Estados Unidos.

O Pentágono denominou esse seu programa de “contra-insurreição”- counterinsurgency
(Definindo termos: Observar aqui a necessidade de se exigir definições rigorosas e convincentes dos termos usados: qual é a validade de se invadir um país e depois denominar a reação dos habitantes alternadamente como insurreição, rebelião, ou mesmo “terrorismo”?)

O estabelecimento dos esquadrões da morte no Iraque

Os esquadrões da morte patrocinados pelos Estados Unidos foram recrutados no Iraque em 2004-2005 numa iniciativa lançada sob a direção do embaixador americano John Negroponte, que foi enviado para Bagdá pelo Departamento do Estado Americano em Junho de 2004.

Negroponte era o homem certo para o trabalho, uma vez que tinha sido embaixador em Honduras de 1981 a 1985. Negroponte desempenhou um papel central no apoio e supervisão dos Contras de Nicarágua, que estavam baseados em Honduras. Ao mesmo tempo também supervisionava as atividades dos esquadrões da morte – militares – de Honduras.

“No governo do general Gustavo Alvarez Martinez, o governo militar de Honduras era tanto mais um aliado íntimo da administração de Reagan quanto mais “fazia desaparecer” numerosos opositores políticos. Isso segundo a clássica forma de trabalho utilizada por esquadrões da morte.”

Em Janeiro de 2005, o Pentágono confirmou que estava a considerar a formação de 
“esquadrões de ataque de combatentes xiitas e curdos para atacar líderes da resistência iraquiana. E isso segundo uma mudança estratégica oriunda da experiência da luta contra as guerrilhas de esquerda da América Central, 20 anos antes”.

Sob a denominada “Opção El Salvador” forças iraquianas e americanas deveriam ser enviadas para matar ou sequestrar líderes da insurreição, mesmo na Síria, onde alguns dos insurgentes teriam tido então abrigo. Sendo controversos estes esquadrões de ataque, deveriam provavelmente ter de ser mantidos secretos.

A experiência dos “esquadrões da morte” na América Central continua a ser para muitos uma experiência brutal, e continua ainda a contribuir para manchar a imagem dos Estados Unidos na região. Está ainda bem presente como a administração de Reagan distribuiu fundos e treinou equipes de forças locais para neutralizar os líderes rebeldes salvadorenhos, bem como os que com eles simpatizavam.

John Negroponte, o embaixador americano em Bagdad, dispunha de um local privilegiado de observação dado o seu tempo como embaixador em Honduras em 1981-85.

Esquadrões da morte era uma parte brutal da política latino-americana de então… 
No começo dos anos oitenta a administração de Reagan concedeu fundos e treino aos Contras de Nicarágua baseados em Honduras, com o objetivo de derrubar o regime sandinista de Nicarágua. Os Contras foram equipados com dinheiro obtido pela venda americana, ilegal, de armas ao Irã. Foi um escândalo que poderia ter derrubado Reagan do poder. O sentido da proposta do Pentágono no Iraque… era o de seguir esse modelo.

Não ficou claro se o objetivo principal da missão seria o de matar os rebeldes ou sequestrá-los para os levar a interrogatório no Iraque…mas qualquer missão na Síria seria provavelmente realizada pelas Forças Especiais dos Estados Unidos.

Também não ficou claro quem iria ter a responsabilidade pelo programa, se o Pentágono ou a Agência Central de Inteligência, ou seja, a CIA. Essas operações encobertas têm sido tradicionalmente realizadas pela CIA, de forma a não serem directamente atribuídas à administração no poder, e dando aos responsáveis americanos a possibilidade de negar conhecimento da situação. (El Salvador-style “death squads” to be deployed by US against Iraq militants – Times Online, January 10, 2005,– as aspas foram acrescentadas). 

Enquanto o objetivo especificado da “Opção Salvadorenha para o Iraque” seria o de acabar com a resistência, na prática as brigadas terroristas patrocinadas pelos Estados Unidos envolveram-se em matanças frequentes de civis, com o objetivo de atiçar  uma violência sectária.

Por seu turno, a CIA assim como a MI6 superintendiam unidades da “Al Qaeda no Iraque” envolvidas em assassínios de alvos específicos e dirigidos contra a população xiita. É importante ressaltar que os esquadrões da morte foram integrados e aconselhados, encoberta e dissimuladamente, pelas Forças Especiais dos Estados Unidos.

Robert Stephen Ford – depois nomeado embaixador dos Estados Unidos na Síria - fazia parte da equipe de Negroponte em Bagdá durante 2004 e 2005. Em janeiro de 2004 foi enviado como representante americano para a cidade xiita de Najaf, que era um foco forte do exército “Mahdi”, com o qual fez contatos preliminares. 

Em Janeiro de 2005, Robert S. Ford foi nomeado Ministro Conselheiro para Assuntos Políticos –Minister Counsellor for Political Affairs - na Embaixada dos Estados Unidos, sob a direção do embaixador John Negopronte. Não fazia somente parte do círculo mais próximo e restrito de Negroponte. Era também o seu associado no estabelecimento da “Opção Salvadorenha” no Iraque. O terreno já tinha então sido preparado em Najaf, antes da transferência de Ford para Bagdá.

John Negroponte e Robert Stephen Ford foram encarregados de recrutar os esquadrões da morte iraquianos. Enquanto Negroponte coordenava as operações a partir de seu gabinete na Embaixada dos Estados Unidos, Robert S. Ford, que falava fluentemente tanto árabe como a língua turca, teve a incumbência de estabelecer contatos estratégicos com os grupos militantes xiitas e curdos, fora da “Zona Verde” - Green Zone.

Dois outros oficiais da embaixada - Henry Ensher, auxiliar ou adjunto de Ford, e outro oficial mais jovem da seção política, Jeffrey Beals - tiveram um papel importante na equipe que então “falava com alguns segmentos iraquianos, incluindo extremistas”. (Veja The New YorkerMarch 26, 2007). Uma outra pessoa chave na equipe de Negroponte era James Franklin Jeffrey, embaixador dos Estados Unidos na Albânia 2002-2004. Jeffrey veio a tornar-se embaixador dos Estados Unidos para o Iraque, entre 2010-2012.

Negroponte também trouxe para a equipe um de seus antigos colaboradores, o Coronel James Steele, retirado dos seus dias de apogeu em Honduras.

Durante a “Opção El Salvador” no Iraque, Negroponte teve como assistente um colega dos anos oitenta, ou seja, dos seus dias na América Central (CIA). Esse colega de Negroponte no Iraque era então o aposentado Coronel James Steele.

Steele, que recebeu em Bagdá o título de Conselheiro das Forças de Segurança Iraquianas -Counselor for Iraqi Security Forces - supervisionou a seleção e o treino dos membros da Organização Badr e do Exército Mahdi, as duas maiores milícias xiitas, no Iraque. Isto com a intenção de tomar como alvo a direção e a rede de apoio da resistência, primordialmente sunita, do Iraque. Tenha sido planejado dessa forma ou não, esses esquadrões da morte ficaram rapidamente fora de controlo e se tornaram  a causa de morte número 1 no Iraque.

Tenha ou não sido essa a intenção inicial, o enorme número de corpos torturados e mutilados surgido todos os dias nas ruas de Bagdá foi obra dos esquadrões da morte, que por sua vez eram impulsionados por John Negroponte. E foi a violência sectária apoiada pelos Estados Unidos que levou em muito grande parte ao infernal desastre que é o Iraque de hoje. (Dahr Jamail, Managing Escalation: Negroponte and Bush´s New Iraq TeamAntiwar.com, January 7, 2007). 

De acordo com o Republicano Dennis Kucinich o coronel Steele era o responsável, pela implementação do plano em El Salvador, onde dezenas de milhares de salvadorenhos “desapareceram” ou foram assassinados, inclusive então também o Arcebispo Oscar Romero, bem como quatro freiras americanas.

Logo que foi nomeado para Bagdá, o Coronel Steele foi encaminhado para a unidade de contra-insurreição conhecida como o Comando Policial Especial- “Special Police Commando”, do Ministério do Interior do Iraque. (Veja ACN, Havana, 14 de Junho 2006).

Relatórios confirmam que “os militares americanos entregaram muitos prisioneiros à Wolf Brigade – o temido 2º batalhão dos comandos especiais do ministério do interior”, que estava então estavam sob o comando do Coronel Steele. Os prisioneiros foram entregues para “interrogatórios adicionais”. Peter Mass do New York Times confirma que 
“soldados dos EUA, conselheiros dos EUA, observavam, sem fazer nada,” enquanto membros da Wolf Brigade espancavam e torturavam os prisioneiros. Os comandos do Ministério do Interior do Iraque teriam então também ocupado a biblioteca pública de Samara, que transformaram num centro de detenção. 

Disse Mass que uma entrevista realizada em 2005 nesse local transformado em prisão e em companhia do conselheiro militar americano da Wolf Brigade, o coronel James Steele, foi interrompida pelos gritos aterrorizados de um prisioneiro no exterior. Tal como consta do seu histórico, Steele foi empregado anteriormente como conselheiro para ajudar a esmagar a resistência em El Salvador.” (Ibid)

Um outro notório elemento que teve um papel no programa da contra-insurreição no Iraque foi o ex-Comissário da Polícia de Nova Iorque, Bernie Kerik, que em 2007 foi respondeu em um tribunal federal por 16 acusações judiciais.

Kerik foi o enviado pela administração de Bush, no começo da ocupação do Iraque, para organizar e treinar a força policial do Iraque. Durante o seu curto mandato em 2003, Kerik – que preencheu o posto de Ministro do Interior interino - trabalhou para organizar unidades de terror dentro da Força Policial do Iraque.

Mandado para o Iraque para pôr em forma as forças de segurança iraquiana, Kerik usava a denominação “ministro interino do interior do Iraque”. Entretanto, conselheiros policiais britânicos chamavam-no de “exterminador de Bagdá” (Salon, 9 de Dezembro de 2004).

Sob a direção de Negroponte, da Embaixada dos Estados Unidos em Bagdá, foi desencadeada uma onda de assassínios encobertos de civis, bem como também assassínios de pessoas entendidas como alvos. Engenheiros, médicos, cientistas e intelectuais foram alvos. O autor e analista geopolítico Max Fuller documentou em detalhe as atrocidades cometidas à sombra do programa de contra-insurreição patrocinado pelos Estados Unidos.

O surgimento dos esquadrões da morte foi inicialmente visível em maio de 2005 quando foi informado que dezenas de corpos tinham sido depositados em terrenos baldios nos arredores de Bagdá. Todas as vítimas tinham as mãos presas em algemas, estavam com os olhos vedados e tinham sido baleadas na cabeça. Muitos deles mostravam sinais de terem sido brutalmente torturados.

A revelação motivou a Associação de Académicos Muçulmanos – Association of Muslim Scholars, MAS -, uma conhecida e importante organização sunita, a fazer declarações públicas em que acusava as forças de segurança ligadas ao Ministério do Interior, bem como a Badr Brigade, a ex-ala armada do Conselho Supremo da Revolução Islâmica no Iraque – Supreme Council for Islamic Revolution in Iraq, SCIRI -, de estar por detrás dessas mortes. Acusaram também o Ministério do Interior de realizar terrorismo de estado (Financial Times). 
Os Comandos Policiais bem como a Wolf Brigade eram supervisionadas pelo “programa de contra-insurreição” no Ministério do Interior do Iraque. 

Os Comandos Policiais eram formados sob a experiência, orientação e supervisão de combatentes americanos, veteranos da contra-insurreição. Os comandos policiais iraquianos estão desde o começo conduzindo operações conjuntas com as unidades de forças de elite, altamente secretas.(Reuters, National Review Online).

James Steele foi uma figura chave no desenvolvimento dos Comandos Especiais da Polícia -Special Police Comandos - do Iraque. Foi um operacional das forças especiais do Exército dos Estados Unidos que tendo começado no Vietnã foi depois enviado para dirigir a missão militar dos Estados Unidos em El Salvador, no auge da guerra civil, no país.

Outro que contribuiu para desenvolver os Comandos Especiais da Polícia no Iraque foi Steven Casteel. O mesmo que, enquanto mais experiente conselheiro dos Estados Unidos no Ministério do Interior, descartou como “rumores e insinuações” as bem fundamentadas acusações de apavorantes violações dos direitos humanos que lhe eram apresentadas.

Tal como Steele, Casteel também ganhou considerável experiência na América Latina, no seu caso através da participação na perseguição ao barão da cocaína, Pablo Escobar, nas narco-guerras da Colômbia nos anos noventa…

O cenário da história pessoal de Casteel é importante nesse caso, porque o tipo de papel de apoio na coleta de informação e na produção de listas de morte, nas quais as suas experiências na América Latina foram então baseadas, são características do envolvimento dos Estados Unidos em programas de contra-insurreição, constituindo um elemento básico naquilo que doutra forma poderia parecer casual, ou resultante de orgias de carnificinas sem ligação entre si.

Comentários do Departamento de Defesa dos Estados Unidos em 2005: “Esse tipo de genocídio planificado de forma centralizada é consistente com os acontecimentos no Iraque”. É também consistente com o pouco que sabemos a respeito dos Comandos Especiais da Polícia, que foi projetada para prover o Ministério do Interior de uma força com capacidade especial de ataque”.(Departamento de Defesa dos Estados Unidos).

Max Fuller comentou, nesse contexto, que ao assumir esse papel os quartéis de Comando da Polícia se tinham tornado no centro de um comando nacional de controle, comunicação, informática e inteligência – graças ao apoio dos Estados Unidos. (Max Fuller, op cit)

Essa preparação inicial de terreno, estabelecida sob a direção de Negroponte em 2005, permitiu a implementação das atividades pelo seu sucessor, o embaixador Zalmay Khalilzad. Robert Stephen Ford garantiu a continuidade do projeto antes da sua nomeação como embaixador dos Estados Unidos na Argélia em 2006, bem como depois do seu regresso a Bagdá, em 2008, como Chefe Adjunto da Missão – Deputy Chief of Mission.

Síria: “aprendendo com a experiência no Iraque”

A macabra versão iraquiana da “Opção El Salvador” sob a direção do embaixador John Negroponte serviu como modelo para a construção dos Contras do “Exército Livre da Síria”. Robert Stephen Ford esteve muito provavelmente envolvido na implementação do projeto dos Contras na Síria, depois da sua designação como Chefe Adjunto da Missão – Deputy Head of Mission - em Bagdá, 2008.

Na Síria o objetivo era o de criar divisões faccionais entre as comunidades sunitas, xiitas, curdas e cristãs. Embora o contexto da Síria seja completamente diferente do contexto do Iraque, existem também surpreendentes similaridades no que diz respeito aos procedimentos segundo os quais as atrocidades e matanças foram e continuam sendo conduzidas.

Uma reportagem publicada pelo Der Spiegel relativa às atrocidades cometidas na cidade síria de Homs confirma um processo sectário de assassínios em massa e mortes extrajudiciais, ou seja assassínios, comparável com o conduzido pelos esquadrões da morte no Iraque, esquadrões patrocinados pelos Estados Unidos.

Em Homs as pessoas eram habitualmente classificadas como “prisioneiros” (shia, alawita) e “traidores”. Os traidores eram os civis sunitas dentro da área urbana ocupada pelos rebeldes, que exprimissem discordância ou oposição face ao reino de terror do Exército Livre da Síria - Free Syrian Army – FSA. 
“Desde o último verão (2011) nós executamos pouco menos que 150 homens, o que representa cerca de 20% dos nossos prisioneiros”,  disse Abu Rami. Mas os executores de Homs estiveram mais ocupados com traidores dentro de suas próprias hostes do que com prisioneiros de guerra. “Se damos com um sunita espiando, ou se um cidadão trai a revolução, fazemos o processo curto”, disse o combatente. De acordo com Abu Rami, a Hussein´s burial brigade teria morto 200 a 250 “traidores” desde o começo da sublevação.” (Der Spiegel, March 30, 2012).

Projeto em andamento avançado

A preparação ativa da operação síria terá sido certamente iniciada quando da chamada de Ford da Argélia, em meados de 2008, para um novo mandato na embaixada dos Estados Unidos no Iraque.

O processo exigia um programa inicial de recrutamento e treino de mercenários. Esquadrões da morte, incluindo unidades  salafistas do Líbano e da Jordânia entraram pela fronteira sul da Síria com a Jordânia em meados de março de 2011. Muito da preparação do terreno estava já pronta antes da chegada de Robert Stephen Ford a Damasco em Janeiro de 2011.

Embaixador Ford em Hamas no começo de julho de2011

A nomeação de Ford como embaixador na Síria foi anunciada no começo de 2010. As relações diplomáticas estavam cortadas desde 2005, após o assassinato de Rafik Hariri, por cuja responsabilidade os Estados Unidos acusaram a Síria. Ford chegou a Damasco apenas dois meses antes do começo da insurreição.

O Exército Livre da Síria - FSA

Washington e os seus aliados reproduziram na Síria as características essenciais da “Opção El Salvador do Iraque”, levando à criação do Exército Livre da Síria - FSA - e das suas várias facções incluindo a brigada “Al Nusra”, filiada a Al Qaeda. 
Apesar da criação do Exército Livre da Síria – FSA ter sido anunciada em junho de 2011, o recrutamento e treino dos mercenários vindos de fora do país fora iniciado muito antes.

Em muitos aspectos, o Exército Livre da Síria é uma cortina de fumaça utilizada para enevoar e desvanecer os contornos da realidade. O denominado Exército Livre da Síria é apresentado pela mídia ocidental como uma entidade de boa-fé, que resulta de defecções em massa nas forças governamentais. O número das defecções, no entanto, não foi nem significativo nem suficiente para estabelecer uma estrutura militar coerente, com os devidos comandos e controlos de função.

O Exército Livre da Síria não é uma entidade militar profissional, é mais uma rede não estruturada, constituída por diversas brigadas terroristas, as quais por seu turno são constituídas por muitas células paramilitares agindo em diversas partes do país.

Cada uma dessas organizações opera independentemente. O Exército Livre da Síria - FSA, não exerce funções de controle ou comando efetivos e isso inclui também a não efetividade nas suas ligações e contatos com  entidades paramilitares que são, na sua grande parte, controladas pelas forças especiais, bem como profissionais da inteligência, patrocinados pelos EUA-OTAN. Tanto as forças especiais como os profissionais da inteligência são encaixados, ou incrustados, nas alas das várias formações terroristas.

Essas forças especiais “no solo” – muitas das quais contratadas a empresas particulares de segurança, estão regularmente em contato com EUA-OTAN, e  também com unidades de comando da inteligência militar dos outros envolvidos. As Forças Especiais estão, muito provavelmente, também envolvidas nos ataques devastadores, muito cuidadosamente planeados, dirigidos contra as instalações governamentais, conjuntos militares e muitos outros objetivos centrais e sensíveis.

Os esquadrões da morte são mercenários recrutados e treinados pelos EUA-OTAN, e seus aliados do Golfo Pérsico, GCC. São supervisionados pelas forças especiais aliadas, bem como por empresas particulares de segurança - em contrato com a OTAN e o Pentágono. Relatórios confirmam o aprisionamento pelas forças governamentais da Síria de cerca de 200-300 contratados de empresas particulares de segurança, contratados esses que estavam integrados nas alas dos rebeldes.

A FRENTE AL NUSRA

A Frente Al Nusra - que se suspeita seja filiada em Al Qaeda - é descrita como o grupo rebelde mais eficiente na luta da oposição. Al Nusra é o grupo responsável por muitos dos maiores – high profile - ataques a bomba. O grupo Al Nusra é apresentado como um inimigo dos Estados Unidos, e está na lista de organizações terroristas do Departamento de Estado.

Entretanto, as ações da Al Nusra apresentam as características, apresentam as impressões digitais, do treinamento e das táticas paramilitares dos Estados Unidos. As atrocidades cometidas contra civis pelo grupo Al Nusra são similares àquelas cometidas pelos esquadrões da morte patrocinados pelos EUA no Iraque.

Nas palavras do líder da Al Nusra, Abu Adnan, em Aleppo: “Jabhat al-Nusra conta com veteranos sírios da guerra do Iraque entre os seus efetivos, homens peritos – especialmente na construção de dispositivos explosivos (IEDs) para a frente na Síria.”

Tal como no Iraque, a violência entre facções e limpeza étnica foi ativamente promovida. Na Síria as comunidades alawita, shia e cristãs foram alvo dos esquadrões da morte patrocinados pelos EUA-OTAN. A comunidade cristã foi um dos alvos centrais no programa de assassínios.

Relatórios confirmam o fluxo de salafistas e esquadrões da morte filiados a Al Qaeda sob os auspícios da Irmandade Muçulmana para o interior da Síria, desde o começo da insurreição em Março de 2011.

Mais ainda, numa reminiscência do alistamento dos muhaidin para combater a jihad – guerra santa - da CIA no auge da guerra União Soviética-Afeganistão, o anúncio de que a OTAN e a Turquia (the Turkish High command) tinham iniciado “uma campanha para alistar milhares de voluntários muçulmanos nos países do Oriente Médio e no mundo muçulmano para lutar ao lado dos rebeldes sírios. O Exército turco iria acolher esses voluntários, treiná-los e proporcionar sua passagem para o interior da Síria. (DEBKAfile, NATO to give rebels anti-tank-weaponsAugust 14, 2011).

De acordo com o que tem sido informado, empresas particulares de segurança operando dos países do Golfo estão envolvidas no recrutamento e treino de mercenários.

Apesar de não especificamente identificados com o recrutamento dos mercenários dirigidos contra a Síria, relatórios apontam para uma criação de campos de treinamento no Qatar e nos Emirados Árabes Unidos – UAE. Na cidade militar de Zaved – Zaved Military City, nos Emirados Árabes unidos,  “um exército secreto está sendo construído”, operado por Xe Services, empresa antes denominada Blackwater. O acordo da UAE para estabelecer um campo militar para treino de mercenários foi assinado em julho de 2010, nove meses antes dos furiosos ataques contra a Líbia e a Síria.

Segundo desenvolvimentos recentes, empresas de segurança a contrato com a OTAN e o Pentágono estiveram envolvidas no treino dos esquadrões da morte no uso de armas químicas.

“Os Estados Unidos e alguns aliados europeus estão usando contratados da defesa para treinar os rebeldes sírios na forma de garantir o aprovisionamento de armas químicas na Síria, segundo informaram domingo para a CNN um oficial senior dos Estados Unidos e diversos diplomatas.” (CNN Report, December 9, 2012). 
Os nomes das companhias envolvidas não foram revelados.

Por trás de portas fechadas, no Departamento de Estado dos EUA

Robert Stephen Ford fazia parte de uma pequena equipe no Departamento do Estado Americano que supervisionava o recrutamento e treino de brigadas terroristas, conjuntamente com Derek Chollet e Frederic C. Hof, um ex-associado de negócios de Richard Armitage, que serviu como “coordenador especial” de Washington em assuntos da “Síria”. Derek Chollet foi recentemente nomeado para a posição de Assistant Secretary of Defense for International Security Affairs (ISA) - [Secretário Auxiliar da Defesa para Assuntos de Segurança Internacional]. 
Essa equipe trabalhou sob a direção do ex- Secretário de Estado Auxiliar para Assuntos do Oriente Médio – Near Eastern Affairs -, Jeffrey Feltman.

A equipe de Feltman estava em contato próximo com os processos de recrutamento e treino dos mercenários da Turquia, Qatar, Arábia Saudita e Líbia (cortesia do regime pós-Khadafi, que despachou 600 soldados da Libya Islamic Fightin Group - LIFG para a Síria, via Turquia, nos meses a seguir o colapso do governo de Kadhafi, em Setembro 2011).

O Secretário do Estado Auxiliar, Feltman, esteve em contato com o Ministro do Exterior Saudita, o Príncipe Saud al Faisal , e o Ministro do Exterior de Qatar, Sheik Hamad bin Jassim. Esteve encarregado do gabinete para “coordenação especial de segurança” relacionado à Síria e baseado em Doha. Esse gabinete incluía representantes das agências de inteligência do ocidente, assim como do GCC e representantes da Líbia. O Príncipe Bandar bin Sultan, um proeminente e controverso membro da inteligência saudita fazia parte desse grupo. (Veja Press TV, May 12, 2012).

Em Junho de 2012, Jeffrey Feltman foi designado UN Under-Secretary-General for Political Affairs, uma posição estratégica que na prática consiste em influenciar a agenda da ONU (em favor de Washington) em assuntos relativos a “Resolução de Conflitos” em vários focos de problema ao redor do globo. Isso inclui Somália, Líbano, Líbia, Síria, Iémen e Mali. Numa amarga ironia, os países em agenda para a “resolução de conflitos” da ONU são aqueles mesmos que têm sido e são alvos das operações, encobertas, dos Estados Unidos. 

Fonte:
 Rede Democrática / Global Research (4 de janeiro de 2013) 

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